Mercado financeiro em 2021: Dólar abaixo de R$ 5 e Bolsa aos 130 mil pontos?

Cenário com vacinação contra a Covid-19 e ajuste das contas públicas favorece disparada do Ibovespa e arrefecimento do câmbio; sinais emitidos até agora, no entanto, apontam para caminho mais tortuoso

  • Por Gabriel Bosa
  • 01/01/2021 15h43
Bermix Studio/Unsplash

Se o início da imunização global contra a pandemia do novo coronavírus acentua as expectativas de recuperação dos mercados nos próximos meses, o marasmo para a aprovação de reformas estruturantes e a crescente tensão pela politização da vacina podem virar um banho de água fria nos investidores. É neste cenário conflitante entre a esperança mundial pelo fim das medidas de restrição e o temor doméstico com a letargia aos arranjos fundamentais para destravar a economia brasileira que a Bolsa de Valores e o câmbio cruzam a linha da nova década. O mercado financeiro é pautado pelas projeções futuras, e nos melhores cenários há quem enxergue o Ibovespa, o principal índice da B3, atingindo novos recordes neste ano. Pesquisa feita pelo Bank of America (BofA) revelou que metade dos gestores de recursos da América Latina projeta que os pregões se manterão aos 130 mil pontos ao curso de 2021. O bom humor também se espraia para a taxa de câmbio. O relatório com projeções feito pelos economistas do Itaú traz o dólar para a casa dos R$ 4,75, patamar que deixou de ser realidade a partir de março do ano passado. A expectativa é mais otimista que a apresentada pelo Boletim Focus, que reúne a expectativa do mercado financeiro para a economia. Economistas e instituições consultadas pelo Banco Central estimam que a divisa norte-americana feche o próximo ano em R$ 5.

Para analistas, as projeções benevolentes encontram lastro na realidade diante da confirmação dos melhores cenários para 2021. Esse pacote de otimismo é composto por uma série de fatores internacionais, como a comprovação da eficácia das vacinas contra a Covid-19 e o potencial das economias em retomarem o crescimento econômico. Também contribui com essa visão positiva o esfriamento das tensões entre os Estados Unidos e a China, e a volta de políticas internacionais menos fechadas que devem ser adotadas pela gestão do democrata Joe Biden à frente da maior potência global. Olhando para dentro, o cenário ideal para a disparada do Ibovespa e o tolhimento do dólar está intrinsecamente ligado à duas questões: agenda de reformas e controle dos gastos públicos. As mudanças no sistema tributário encabeçam a lista de prioridades da classe política pela sua capacidade de criar um ambiente menos hostil para os investidores. Ao mesmo tempo, o mercado espera pela sinalização do governo federal em manter o controle das contas e evitar o aumento do rombo fiscal. A reforma administrativa é apontada como um grande indicativo deste compromisso, desde que não seja mais desidratada. A manutenção do teto de gastos e aprovação de medidas que garantam que o Orçamento não será violado também são rotuladas como ações fundamentais para manter a confiança dos investidores.

O mercado financeiro já se mostrou completamente alheio a chamada “economia real” ao longo de 2020. Apesar do Ibovespa ter despencado para a casa dos 60 mil pontos por causa da crise, em muitos momentos o pessimismo com as políticas fiscais, aumento do desemprego, fechamento de empresas, entre outras questões do mundo verdadeiro, não atrapalharam os negócios na Bolsa. Um exemplo desse descolamento é o recorde de pessoas sem trabalho registrado neste ano ampliar ainda mais em 2021, ao mesmo tempo que o Ibovespa retornou a flertar com os 120 mil pontos em dezembro. Segundo Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, o desempenho está ligado com transformações na cultura dos investidores e ao fortalecimento de setores, como o de commodities e o financeiro, que devem permanecer em alta ao longo dos próximos meses. “Depois de um ano tortuoso como esse e a Bolsa chegar a patamares como os vistos, essa expectativa de crescimento para 2021 não é algo tão excepcional. As pessoas estão começando a entender que a Bolsa é algo para o longo prazo, e isso ajuda a manter os investidores, mesmo em momentos como esses.”

Já o câmbio está muito mais próximos dos acontecimentos do dia a dia, logo sofre maior influência das ações, ou pela falta delas, que impactam na vida dos brasileiros. Os sinais emitidos pela classe política até então mostram que a disputa pelo comando da Câmara dos Deputados e do Senado Federal é mais prioritária que o debate e aprovação da agenda de reformas. A previsão é que a atenção ao que é tido como fundamental para o país fique em banho-maria até o início de fevereiro, quando ocorrem as eleições nas duas Casas. O caldo é entornado pelas polêmicas em volta da campanha nacional de imunização contra o novo coronavírus e a capacidade entre o governo federal e os estados entrarem em consenso para atuarem em prol da população. “O mundo desenvolveu em 10 meses uma vacina contra o vírus, mas as questões locais fazem questionar se essas boas-novas vão nos ajudar. Teremos a vacina, ou seremos o patinho feio? Não há nada encaminhado em um cenário que o Brasil pode passar por uma segunda onda de infecções, o que pode trazer de volta o isolamento social e piorar as condições para o investimento estrangeiro”, diz Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.

Como parte do trajeto da moeda norte-americana dentro do Brasil também depende das notícias internacionais, a onda de otimismo gerada pelo avanço das vacinas em diversos países pressiona a divisa para baixo e gera clima para que a cotação caia para menos de R$ 5 já nas primeiras semanas de janeiro. Porém, logo as pautas do cenário doméstico devem se sobrepor a este otimismo, puxando novamente o dólar para cima. “No curto prazo, pode ficar nesse patamar, mas ele não é sustentável, e não consigo enxergar o câmbio abaixo de R$ 5 pelos próximos dois anos”, afirma Vale. Para Fernanda, o patamar de R$ 5,10 visto no fim de dezembro já é bastante significativo, e deve baixar nas próximas semanas pela conjuntura internacional. “Com a taxa de câmbio, tudo pode acontecer. Há chances de o real ficar mais forte por causa das condições internacionais, mas o cenário doméstico pode barrar”, completa.