Número de crianças investidoras na Bolsa aumenta 65% em um ano; especialistas analisam impacto

Profissionais atribuem aumento à maior abundância de conteúdos sobre mercado financeiro na internet; prática pode trazer benefícios, mas pais devem supervisionar os filhos

  • Por Júlia Vieira
  • 24/10/2021 08h00 - Atualizado em 25/10/2021 11h55
Unsplash/Nicholas CappelloNúmero de cadastrados no B3 subiu em todas as faixas etárias no período de um ano

O número de CPF’s de crianças e adolescentes com até 15 anos cadastrados na B3, que é a Bolsa de Valores brasileira, passou de 13.070 em outubro de 2020 para 21.630 em outubro deste ano, um aumento de cerca de 65,5% em um ano. São 9.548 meninas e 12.082 meninos investindo no mercado financeiro em 2021. Segundo dados da B3, a faixa etária foi responsável pela movimentação de R$ 700 milhões. O psicólogo especializado em perfil do investidor no mercado de ações, Juliano Horta Barbosa Candian, aponta que o aumento de investidores na B3 foi generalizado. Todas as faixas etárias, não só as crianças e adolescentes, passaram a investir em 2021. Atualmente, são quase 4 milhões de investidores. Há um ano atrás, esse valor era de 3,1 milhões.

De acordo com a professora de psicologia econômica, finanças comportamentais e educação financeira no Vértice PSI, Vera Rita de Mello Ferreira, a redução da taxa Selic fez com que as pessoas buscassem novas opções para o maior rendimento do dinheiro, encontrando na Bolsa de Valores a resposta para os problemas. “As pessoas começaram a ir atrás de alternativas, porque durante décadas a gente tinha se acostumado com um rendimento razoável, que podia ser obtido na renda fixa. De repente, a brincadeira acabou. Isso deu uma assustada inicial na maior parte das pessoas que se viu perdendo para a inflação”, avalia a consultora. Com os impactos sofridos pela economia no último ano, investir em ações foi um caminho encontrado pelos pais para poder proporcionar um futuro para seus descendentes. “Com esse número crescente de pessoas na Bolsa, há mais pais que, preocupados com o futuro financeiro dos filhos, dão a primeira ação de presente para eles. Geralmente, a ideia dos filhos entrarem na Bolsa surge dos pais”, complementa Candian.

Aliado à busca por novas alternativas está o aumento da disponibilidade de conteúdos sobre mercado financeiro e investimento nas redes sociais. “À medida que a bolsa e a renda variável fazem uma disseminação da própria B3, os influenciadores digitais também começam a falar muito respeito, o que familiariza as pessoas com a possibilidade de investir, e isso vai ficando no radar. Chamamos isso de ‘viés de disponibilidade’, que significa que quanto mais você escuta falar sobre alguma coisa, mais você acha que aquilo é verdadeiro, legítimo e provável”, diz Vera. Mas o “viés de disponibilidade” não impactou só os adultos, mas as crianças e adolescentes também. “Tornou-se notório o número de informações sobre investimentos na Bolsa. Em todas as redes sociais podemos encontrar educadores financeiros, traders e investidores falando sobre a B3. Além disso, hoje, é muito mais fácil encontrar informações sobre uma empresa do que há 10 ou 15 anos, quando comecei”, aponta Juliano Candian. “Outro fator seria relacionado às negociações da Bolsa serem todas automatizadas. Hoje, com a criação do ‘home broker’, tudo pode ser feito pela internet. E, como os jovens possuem acesso à internet desde pequenos, a Bolsa pode estar diretamente conectada às suas atividades diárias.”

Esse foi o caso de Mateus Gusmão, de 14 anos, que começou a investir na Bolsa de Valores ainda aos 11, após ser absorvido por propagandas sobre o assunto no Youtube. “Eu comecei a investir em 2019. Eu sempre usei internet, sempre fui curioso, então via vídeos sobre vários assuntos. E, com isso, foram aparecendo alguns anúncios de investimentos e aquilo me deixou curioso, porque prometia multiplicar o dinheiro”, conta Gusmão. “Desde muito pequeno, eu sempre gostei de ganhar dinheiro. Quando era menor, eu vendia algumas coisas que eu não usava para juntar dinheiro e cheguei a vender picolé no verão. Eu sempre tive essa mentalidade empreendedora de juntar dinheiro. Quando eu vi esses anúncios, vi uma oportunidade de pegar esse meu dinheiro e usar de uma forma que fosse melhor do que somente gastá-lo”, relata o garoto, que começou a se aprofundar e aprender sobre o mercado financeiro também por meio de vídeos no Youtube. Hoje em dia, é Mateus quem produz conteúdos sobre o assunto para a plataforma. Além dele, outros youtubers mirins também falam sobre investimentos, como Felipe Molero, de 13 anos, conhecido como Kid Investidor, e Beny Fuks, de 11 anos, do MoneySide.

Investir na bolsa traz benefícios a longo prazo

Um dos benefícios mais óbvios para quem começa a investir desde cedo é o hábito de poupar e o ganho de dinheiro a longo prazo. “O maior benefício do investimento nessa idade é a questão do ‘tempo x juros compostos’. O tempo de investimento faz muita diferença em relação ao resultado final que a pessoa terá em seu capital. Além disso, o adolescente começaria a investir uma quantidade, porém, com o passar dos anos, iniciaria sua qualificação e entraria para o mercado de trabalho. Então, sua quantidade de aporte mensal poderia aumentar substancialmente fazendo com que seu capital aumentasse mais rapidamente”, explica Candian. A psicóloga Vera Rita chama o hábito de “sustentabilidade”, ou seja, o hábito da criança e adolescente perceber que suas ações terão efeito ao longo do tempo. “Ela vai perceber que para ter bem-estar e conforto lá no futuro, vai ser importante distribuir o dinheiro. O investimento é interessante para mostrar que se você torrar toda a sua mesada agora, não vai sobrar nada. Então mostra que tudo está conectado: as escolhas dela hoje terão um desdobramento depois”, resume.

Um dos benefícios percebidos por Mateus Gusmão após ter começado a investir foi a facilidade em aprender. ‘Ter uma noção do mundo dos negócios me ajuda muito a aprender os conteúdos da escola”, confessa o garoto, que diz ter mais facilidade em matérias para além de matemática. Entre os problemas que podem ser causados pela entrada prematura no mercado de ações, psicólogos alertam que as crianças e adolescentes podem acabar vendo Bolsa de Valores como um cassino. “Na Bolsa de Valores, o que faz nosso capital aumentar é escolher ações de boas empresas e investir nelas pelo maior tempo possível. O caminho da especulação geralmente traz perdas grandes no patrimônio. Se a criança não for educada para tornar-se uma investidora de longo prazo, estudando boas empresas e investindo uma parte de seu capital nelas, pode crescer com a mentalidade de que a Bolsa é um cassino e a verá apenas como um local para apostas”, prevê Candian.

Pais devem supervisionar os filhos, recomendam especialistas

Ambos os especialistas entrevistados pela Jovem Pan recomendam que os pais acompanhem seus filhos nessas atividades. Vera Rita, inclusive, defende que as ações sejam administradas somente pelos pais até os filhos completarem ao menos 12 anos. “É importante que os pais invistam para as crianças desde cedo, de preferência desde que nascem, para acumular um patrimônio significativo na conta, justamente no caso de juros compostos e Bolsa de Valores, em que o rendimento é obtido a longo prazo”, diz a psicóloga. “As crianças e os adolescentes devem, de preferência, ser acompanhados pelos pais, até porque é só depois dos 12 anos que elas vão ter mais capacidade de começar a entender realmente o que está acontecendo”, acrescenta.

Juliano Candian reforça a importância do acompanhamento dos responsáveis. “Hoje, diferente de algumas décadas atrás, possuímos bastante conteúdo, seja ele em livros ou plataformas da internet, que podem ser acessados pelas crianças. Basta que os pais façam um filtro sobre o conteúdo de forma que ele venha de forma correta para os filhos. Os pais podem escolher algum educador financeiro que gostem e que possua boa didática e apresentá-lo ao filho, fazendo com que este possa acompanhar seu conteúdo e aprender a selecionar bons ativos para comprá-los”, detalha o psicólogo, que recomenda que os pais formulem perguntas para os filhos sobre o motivo dele ter feito a compra de determinada empresa em detrimento de outra, criando o hábito de reflexão e fazendo com que escolhas erradas possam ser corrigidas.