O que é estagflação e como isso pode afetar a vida do brasileiro em 2022

Cenário inusitado de baixo crescimento econômico e inflação alavancada reflete no empobrecimento da sociedade e traz de volta problemas enfrentados no passado

  • Por Gabriel Bosa
  • 28/11/2021 07h10
Marcos Santos/USP ImagensEconomia estagnada e inflação alta deterioram o bem-estar da população

Estagflação é o termo adotado para explicar um cenário que junta desempenho econômico estagnado com inflação elevada. O fenômeno é perverso por pressionar em duas pontas o bem-estar da população. Por um lado, a paralisia da economia desestimula os investimentos, principalmente os da iniciativa privada, o que reflete no aumento de pessoas sem trabalho, menor consumo, alta de subempregos e, de forma geral, no empobrecimento da população. No outro extremo, a inflação alavancada consome a renda dos brasileiros, o que também reflete em menos gastos e no desaquecimento das atividades. Um país atravessar ao mesmo tempo essas mazelas econômicas não é usual, visto que, normalmente, uma se contrapõe a outra. Em uma economia saudável, o aumento dos preços gerado pela inflação significa que as pessoas estão gastando mais, seja na compra de produtos ou em serviços. Se isso ocorre, é sinal de que elas têm dinheiro, o que é sinônimo de pujança econômica. Em outro exemplo, o congelamento das atividades faz com que as pessoas recuem nos gastos, já que o dinheiro ficou mais curto. Com base na lei de oferta e procura, quando algo não é consumido (produto) ou contratado (serviço), a tendência é que o seu preço seja reduzido para tentar atrair os compradores e clientes. Segundo Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a condição é ainda pior para as classes mais vulneráveis. “O efeito da estagflação é o aumento do desemprego e da baixa renda, principalmente para a população mais pobre e que tem menos proteção. Ela acaba tendo que apelar para o emprego de menor qualidade, vagas temporárias. É uma situação de desalento para o emprego e a renda das pessoas”, afirma.

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador oficial da inflação doméstica, foi a 10,73% na prévia de novembro. Para o ano que vem, o mercado estima que a variação de preços encerre dezembro em 4,96%. O caos gerado pela pandemia do novo coronavírus resultou em uma crise sem precedentes na história moderna, e todas as principais economias do mundo enfrentam o desafio da inflação alta. A diferença é que estes países já vinham com economias mais consolidadas, ou ao menos não em ritmo de letargia como a brasileira. Em 2021, o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer algo em torno de 5%, mas apenas por causa do forte tombo de 4,1% em 2020. Com o fim da pandemia, em 2022 o país volta a enfrentar barreiras já vistas anteriormente e que já travavam a economia e limitavam o crescimento do PIB para algo não muito mais do que 1%. “Já tínhamos um cenário fraco pré-pandemia, e, com a crise, se fez necessário uma expansão fiscal muito grande, mas o governo usou isso para gastar mais e angariar votos”, diz Fernanda Consorte, economista-chefe do banco Ourinvest.

Apesar da gravidade, não é a primeira vez que o país passa por esse tipo de situação. Em 2015, o PIB registrou queda de 3,5%, enquanto o IPCA fechou dezembro a 10,67%. Situação semelhante ocorreu no ano seguinte, quando a economia teve tombo de 3,3% e a inflação acumulada em dezembro foi a 6,29%. Para Matheus Peçanha, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), esses flertes com a estagflação rondam o país desde o início do Plano Real, em 1994, salvo algumas exceções, como o aumento das commodities no início dos anos 2000. “Há muito tempo o Brasil flerta com esses ‘voos de galinha’ e sempre com uma inflação alta”, afirma. Para Vale, da MB Associados, a diferença é que o intervalo entre as crises está ficando cada vez mais curto. “Já tivemos momentos de hiperinflação e situações mais graves, mas isso está se tornando algo recorrente. Não faz muito que passamos por uma crise profunda, e agora estamos entrando em outra”, completa.