Recuperação da economia brasileira e cenário externo seguram dólar abaixo de R$ 5; mas até quando?

Moeda acumula desvalorização de 15% desde o pico em março; analistas preveem espaço para queda até R$ 4,50 no curto prazo, porém novo aumento é esperado no final do ano

  • Por Gabriel Bosa
  • 27/06/2021 08h00 - Atualizado em 28/06/2021 09h06
Mohamed Abd El Ghany/ReutersDólar recua nesta quinta-feira, 9, após salto de 2,9% na véspera

Pela primeira vez em mais de um ano, o dólar voltou a ser negociado no Brasil abaixo de R$ 5. Mesmo com o avanço de 0,7% na sexta-feira, 25, a divisa norte-americana encerrou a semana a R$ 4,938, valor semelhante ao visto em junho de 2020. Após o pico de R$ 5,792 alcançado em 9 de março, a moeda americana acumula desvalorização de 14,7%. O fortalecimento do real é resultado de uma série de fatores, principalmente o diferencial de juros com a queda das taxas nos Estados Unidos e a elevação da Selic pelo Banco Central, o maior otimismo com a recuperação da economia brasileira e a disparada do preço das commodities no mercado internacional. A grande questão é até quando o real terá fôlego para segurar essa vantagem. Na quarta-feira, 23, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o câmbio de equilíbrio — o valor ideal do dólar —  ainda é muito menos do que o atual patamar, e que a divisa deve manter a trajetória de queda nos próximos dias.

O câmbio é uma das variáveis mais voláteis e imprecisas, e a sua direção é determinada por uma gama de fatores domésticos e internacionais. No cenário global, a sinalização do Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos, em manter as taxas de juros em patamares reduzidos, ao mesmo tempo que o Comitê de Política Monetária (Copom) brasileiro indicou o avanço da Selic para algo próximo de 6,5% até o fim do ano, atrai investidores para o mercado local. Os juros mais atrativos por aqui se soma ao otimismo generalizado pela recuperação da economia após o choque da pandemia do novo coronavírus. A divulgação de indicadores do primeiro trimestre, principalmente o avanço de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB), levou a uma onda de revisões para cima, com algumas previsões apontando crescimento de até 5,5% em 2021. A nova versão do superciclo das commodities é outro fator com um pé lá fora e outro aqui dentro que influencia o dólar para baixo. A disparada dos bens brutos, principalmente o petróleo, o minério de ferro e a soja — produtos que o Brasil é referência mundial em exportação —, atrai mais capital estrangeiro para o país, fortalecendo a moeda nacional ante o par norte-americano.

O otimismo de Guedes encontra respaldo no mercado financeiro, ao menos para o curto prazo — espaço de tempo que geralmente corresponde aos próximos seis meses. Analistas e entidades consultadas pelo BC estimam o dólar a R$ 5,10 no fim do ano, segundo dados do Boletim Focus divulgados na semana passada. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, enxerga espaço para a moeda norte-americana beirar os R$ 4,50 nos próximos meses, desde que o cenário que trouxe o câmbio até aqui seja preservado. “Olhando para o que temos agora, somente uma notícia muito drástica pode mudar este cenário. (…) O dólar deve continuar caindo nas próximas semanas ou meses. O câmbio é a variável mais difícil de prever, mas não há nada no horizonte que leve a mudar esse movimento.”

A proximidade do período eleitoral e a antecipação dos embates para 2021, no entanto, podem quebrar parte da resistência da moeda brasileira e elevar o dólar ao patamar de R$ 5,10 ainda em dezembro. “A situação política é muito controversa. Além do mais, o Brasil ainda tem questões estruturais muito presentes”, diz Vale, que estima a cotação em R$ 5,60 em meados de 2022. André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, tem opinião semelhante. Ele prevê o recuo do câmbio até a casa dos R$ 4,80 nas próximas semanas, mas o sinal deve inverter a partir de agosto e levar a cotação para R$ 5,30 ao fim de 2021. Para o analista, a sinalização de alta dos juros nos EUA a partir do segundo semestre deve trazer volatilidade ao mercado e encerrar a fase de cotação na casa dos R$ 4. “Qualquer alteração na liquidez deixa o real mais fraco, e o dólar pode ganhar força a medida que os EUA indiquem juros mais alto pelo avanço da inflação”, diz.

É hora de comprar dólar?

Com uma visão mais otimista, Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos, aponta para a manutenção do dólar na casa de R$ 4,90 até o fim do ano, em meio a picos de valorização e depreciação. “Dá para esperar muita volatilidade, mas pode chegar a pontos de R$ 4,70, R$ 4,80”, diz. A atual calmaria é apontada por especialistas como uma boa oportunidade para comprar dólares, seja para investimentos ou como parte do planejamento de uma viagem internacional. “Mesmo que a moeda fique nesse patamar até o fim do ano, é melhor aproveitar o momento”, diz a economista. Perfeito, da Necton, afirma que o aumento pode vir de uma forma inesperada. “A alta tende a ser com um salto forte, o real está muito no fio da navalha”, afirma. Para Vale, da MB Associados, a aquisição da moeda estrangeira depende do objetivo. “Quem vai viajar agora é melhor aproveitar. Mas, se for algo para o longo prazo, é possível esperar mais algumas semanas.”