Ferguson mostra que pobreza e segregação alimentam a tensão racial nos EUA
Beatriz Pascual Macías.
Washington, 26 nov (EFE).- Pobreza, segregação e maior pressão policial sobre a comunidade afro-americana são os ingredientes principais da tensão racial latente nos Estados Unidos, que corre o risco de explodir de forma violenta após episódios como a morte do jovem Michael Brown, assassinado por um policial branco no estado do Missouri.
“O que vemos em Ferguson é o resultado da frustração da comunidade negra, que se sente desamparada pela Justiça”, explicou à Agência Efe Seema Sadanandan, diretora no Distrito de Columbia da União de Liberdades Civis dos Estados Unidos (ACLU).
Sadanandan rotulou de “extremamente incomum” a decisão do grande júri de não levar para julgamento o policial branco Darren Wilson, que no dia 9 de agosto matou o jovem que andava na rua à noite desarmado, e cuja exoneração causou graves distúrbios em Ferguson, uma pequena cidade ao lado de Saint Louis, no Missouri.
A ativista disse acreditar que mais do que propriamente pela morte de Brown, a comunidade afro-americana protesta pelo que ela significou: “A reprodução sistemática de um padrão de violência pela polícia que atua majoritariamente sobre a comunidade negra”.
Os protestos também denunciam “a reprodução das injustiças de um sistema judiciário que não exige responsabilidades dos oficiais de polícia” e que, quando se trata da população afro-americana, estão “envolvidos em uma bolha de impunidade”.
Dados do Departamento de Justiça mostram que um em cada três afro-americanos passará em algum momento de sua vida pela prisão, destacou Vanesa Cárdenas, vice-presidente do Projeto 2050, que estuda as mudanças demográficas e raciais nos Estados Unidos.
Além disso, segundo a especialista, o sistema de justiça reserva punições mais duras pelos mesmos crimes aos afro-americanos do que aos brancos.
Por exemplo, no Distrito de Columbia, de 600 mil habitantes, onde metade da comunidade é negra, mais de 45 mil afro-americanos são detidos a cada ano e mais de 96% destas detenções são por crimes não violentos.
É o caso também de Ferguson, onde, além de perseguição policial, a população afro-americana sofre com a pobreza, a segregação e uma das taxas de desemprego mais altas do estado, segundo dados do Escritório do Censo dos Estados Unidos.
Os números revelam que Ferguson sofreu uma transformação espetacular, pois os brancos que em 1980 formavam 85% da população foram substituídos pela comunidade afro-americana, que já era 67% da população entre 2008 e 2012.
O fenômeno da gentrificação, que empurra as pessoas negras e pobres para fora das cidades e as desloca para os arredores, é uma das causas da tensão racial, mas não a única, segundo Sadanandan.
De fato, as tensões raciais em Ferguson estão enraizadas em índices de pobreza crescentes, com um desemprego de 13% (o dobro da média nacional), que incide especialmente na população negra, 14 mil dos 21 mil habitantes da cidade.
Segundo dados do censo, em 2012, uma em cada quatro pessoas vivia abaixo do índice de pobreza, de US$ 23.850 anuais para uma família de quatro membros, e deles 44% deveria sobreviver com a metade dessa receita.
As desigualdades não pararam de crescer, pois o número de pessoas abaixo desta linha passou de entre 4% e 16% em 2000, para 20% depois da crise de 2008.
Um relatório do Brookings Institution explica que este tipo de concentração de pobreza, como a que se produz no sudeste de Ferguson, está se tornando comum em outras regiões suburbanas dos Estados Unidos.
De acordo com seus dados, nas cem maiores áras urbanas do país, as periferias com mais de 20% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, dobrou entre 2000 e 2012.
Desta forma, em Saint Louis e nas áreas periféricas do norte, como Ferguson, a pobreza e a população afro-americana estão concentradas em comparação com as periferias do sul e do oeste, onde vive uma classe média e alta majoritariamente branca.
O resultado é a segregação territorial e uma representação desigual também dentro das instituições, segundo os analistas.
Apenas três dos 53 agentes de Ferguson são negros, uma desproporção com os dois terços da população afrodescendente, desigualdade que se repete em outras cidades da nação.
O relatório do Brookings Institution ressalta que as mudanças demográficas destas áreas suburbanas/periféricas não foram acompanhadas por uma melhora dos recursos, além de ainda haver uma administração deficiente na polícia, nos órgãos sanitários e nos centros de ensino. EFE
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