Mossul começa a dizer “basta” aos jihadistas do EI

  • Por Agencia EFE
  • 19/02/2015 11h48
  • BlueSky

Yasser Yunis.

Mossul (Iraque), 19 fev (EFE).- Pela primeira vez desde que em junho do ano passado os jihadistas do grupo Estado Islâmico (EI) tomaram Mossul, as paredes desta cidade começaram a enviar mensagens de rejeição aos ocupantes: “Mossul será liberada em breve”, dizia um deles , antes de ser apagado pelos extremistas.

O chefe do Comitê de Segurança da província setentrional de Ninawa, Mohammed al Bayati, contou à Agência Efe que há poucos dias apareceram este tipo de mensagens “antijihadistas” nos muros de algumas ruas pequenas da cidade.

Antes de ser eliminadas pelo EI, outras frases pintadas eram dirigidas aos cidadãos da cidade: “Salvaremos vocês da impureza do EI” e “Cristãos, vocês voltarão em breve a desempenhar seu papel”.

Desta maneira, com tinta sobre parede, começou a rebelião dos habitantes de Mossul ao jugo imposto pelo EI.

Vários vídeos divulgados nas redes sociais por ativistas locais mostram um grupo de jovens encapuzados com broxas nas mãos em pleno ato rebelde.

Os terroristas começaram a procurar os grupos de jovens responsáveis por estas mensagens escritas na região de Al Akidat, na prisão da cidade e na área de Karash Bagdad, no centro da cidade, capital da província de Ninawa.

Com o objetivo de atemorizar os moradores, os jihadistas advertiram que castigarão os responsáveis.

Em outro fato similar, testemunhas locais disseram à Efe que um grupo de pessoas ondeou uma bandeira iraquiana no alto do minarete da mesquita Al Shamam, na área de Al Rashidia, no norte de Mossul.

Além disso, também escreveram nos muros ameaças de morte e castigo contra os moradores da cidade que se uniram ao EI.

Por seu lado, as “Brigadas de Mossul”, organização clandestina que lança ataques contra os jihadistas na cidade, anunciou em comunicado que um de seus membros ondeou a bandeira iraquiana em uma torre de eletricidade em um bairro do leste da cidade.

Enquanto isso, outro membro dessa milícia fez o mesmo em um bairro do sul, e quando um jihadista tentou tirar a bandeira, um franco-atirador do grupo clandestino o matou a tiros, acrescenta a nota.

Em declarações à Efe, o analista político local Abdelghani Jehia classificou esse tipo de ações como “um despertar dos moradores locais de uma prolongada letargia que durou mais de oito meses, após a ocupação jihadista, o derramamento de sangue e a destruição de mesquitas”.

“Apesar da demora dos moradores da cidade em se rebelar contra essa organização, este passo é um bom precedente”, ressaltou.

Segundo sua opinião, os habitantes de Mossul aceitaram em um primeiro momento a chegada do EI, não porque vissem bem a imposição de uma interpretação radical da “sharia” (lei islâmica), mas por causa de uma completa rejeição às autoridades do anterior primeiro-ministro, Nouri al Maliki.

Além disso, o analista considerou que a libertação da cidade “está condicionada a uma rebelião interna de seus moradores” porque os bombardeios aéreos da coalizão internacional e as forças iraquianas e curdas “são inúteis”.

Além disso, adverte que uma eventual ofensiva militar terrestre causaria graves perdas de civis desarmados, já que ainda vivem mais de um milhão de moradores na cidade, que estão retidos pelos jihadistas.

Um deles é Abu Seif, um oficial militar aposentado de 48 anos, que concorda em qualificar estes fatos como um “despertar”, embora tema represálias.

“O que tememos é que isto cause um derramamento de sangue porque essa organização (o EI) é sanguinária. Não tem misericórdia”, advertiu em uma conversa com a Efe.

Apesar desse medo, Abu Seif mostra seu forte desejo de que Mossul seja libertada do controle jihadista.

“Esperamos impacientes a libertação de nossa cidade, já que todos os trabalhos estão suspensos; o desemprego e a pobreza pioraram muito, e seus habitantes enfrentam graves problemas de água potável, eletricidade e de comunicações telefônicas. Vivemos um inferno indescritível”, relatou.

No entanto, além das mensagens e das bandeiras, Abu Seif vê como difícil a chegada de uma verdadeira rebelião contra o EI porque, segundo ele, as autoridades de Maliki expropriaram todas as armas que estavam nas mãos do povo.

“Agora todas as forças políticas nos pedem que façamos uma revolução contra os jihadistas. E eu me pergunto como, se não temos armas. Acabamos nos tornado uma presa fácil para o EI”, concluiu o ex-militar. EFE

  • BlueSky

Comentários

Conteúdo para assinantes. Assine JP Premium.