Chile elege vítima de repressão policial para Senado e leva esquerda e ultradireita ao segundo turno

Manifestações que vitimaram Fabiola Campillai em 2019 regeram eleições presidenciais deste ano; deputado Gabriel Boric e advogado Antonio Kast foram mais votados

  • Por Jovem Pan
  • 22/11/2021 15h54 - Atualizado em 22/11/2021 15h56
EFE/ Diego ReyesCampillai, agora eleita senadora, foi vítima de violência policial enquanto ia ao trabalho em 2019

Horas após irem às urnas neste domingo, 21, chilenos comemoraram a eleição de Fabiola Campillai, candidata independente que ficou conhecida no país após ser vítima de repressão policial durante a onda de protestos registrados no ano de 2019. Na ocasião, ela perdeu a visão, o olfato e o paladar após ser atingida por uma uma bomba de gás lacrimogêneo quando ia ao trabalho em Santiago. Ao todo, foram eleitos 155 deputados (em renovação total do parlamento) para mandatos de quatro anos e 27 senadores (em renovação parcial da Casa legislativa) para mandatos de oito anos. Concorrendo pela região da capital, a candidata de 38 anos, que não tinha qualquer apoio partidário, tinha 15,51% dos votos após 60,19% das urnas serem apuradas, acumulando mais de 230 mil eleitores. Campillai foi às ruas com apoiadores, reconheceu a vitória e enviou mensagem ao candidato de esquerda à presidência, Gabriel Boric, que avançou para o segundo turno com o ultradireitista José Antonio Kast.

No comunicado, a senadora eleita sinalizou que apoiaria o candidato, também membro dos movimentos estudantis de 2019, se ele se comprometesse a perdoar presos políticos no período das manifestações. “Boric tem de se comprometer com a verdade e a liberdade para todos os presos políticos da revolta, se comprometer que haverá justiça, plena reparação, não só para nós, sobreviventes. Caso contrário, não há apoio”, disse a senadora eleita. Além da candidata, outros cinco senadores foram eleitos para a região da capital chilena: Manuel José Ossandón (Renovação Nacional), Rojo Edwards (Republicano), Luciano Cruz Coke (Evópoli), todos de direita, e a esquerdista Claudia Pascual, do Partido Comunista.

Candidatos de esquerda e direita vão ao segundo turno

Com pouco mais de 99,9% dos votos analisados, as tendências mostradas nas últimas pesquisas eleitorais do país se confirmaram: enquanto Kast tinha 27,9% dos votos válidos, Boric apresentava 25,8%. Em pronunciamento a uma multidão de apoiadores, o candidato da direita, que tem 55 anos, citou um compromisso com a “ordem, trabalho e progresso” no país. “Vamos nos libertar da corrupção, do tráfico de drogas e do terrorismo”, disse. O advogado, que é simpatizante de Donald Trump, Jair Bolsonaro e já disse que se o ditador Pinochet fosse vivo votaria nele, é considerado um “extremista” e usou discursos anti-socialistas para seus eleitores. “Não queremos seguir o caminho da Venezuela ou de Cuba. Em 19 de dezembro, não vamos só eleger um presidente, vamos escolher entre a liberdade e o comunismo”, disse Kast, que trabalhou como deputado por 16 anos.

Ex-líder estudantil e deputado eleito nas últimas eleições do país, Kast, que tem 35 anos e venceu candidatos do Partido Comunista para poder representar a Frente Ampla de Esquerda nas eleições, pediu que “a esperança vença o medo” no país. “Hoje recebemos um mandato e uma responsabilidade tremenda, de liderar uma disputa pela democracia, pela inclusão, pela justiça e pelo respeito à dignidade de todos”, disse o ex-líder estudantil. Com a popularidade derretida por um escândalo com offshores e pelas manifestações de 2019, o atual presidente, Sebastián Piñera, não conseguiu emplacar seu candidato ao cargo, Sebástian Sichel, e se pronunciou após a maioria das urnas serem apuradas. “Quero pedir, do fundo da minha alma, que vocês procurem os caminhos da paz, e não da violência. Da unidade, e não da divisão. Da responsabilidade, e não do populismo. Da moderação, e não da polarização”, disse o governante no Palácio de La Moneda. O segundo turno no país ocorrerá no dia 19 de dezembro.