Entenda o caso do homem que teve regressão de câncer após contrair Covid-19

Casos semelhantes são centenários, mas não devem servir como incentivo para pessoas se infectarem

  • Por Camila Corsini
  • 31/01/2021 08h00
Reprodução/British Journal of HaematologyHipótese dos pesquisadores é de que a Covid-19 desencadeou o que os especialistas chamam de "resposta imune antitumoral"

Um homem de 61 anos recém diagnosticado com linfoma não-Hodgkin, um tipo de câncer que atinge o sistema linfático, teve remissão da doença após contrair a Covid-19. O processo não significa cura, mas é caracterizado pela ausência de sinais nos exames físicos e laboratoriais. O paciente já tinha comorbidades: recebia hemodiálise para insuficiência renal já em estágio terminal após um transplante mal sucedido do órgão. O câncer diagnosticado estava em estágio III, em uma escala que vai até IV. O caso foi publicado no British Journal of Haematology. Após o diagnóstico, ele foi internado no Royal Cornwall Hospital, na província de Cornuália, na Inglaterra, com falta de ar e chiado no pulmão. O diagnóstico de pneumonia por Covid-19 foi confirmado pelo exame RT-PCR. O homem ficou internado por 11 dias em enfermaria e, durante os dias no hospital, não recebeu corticosteroide ou imunoquimioterapia para tratamento do linfoma. Depois de quatro meses, exames de rotina para o câncer constataram que os nódulos teriam desinchado e a doença entrado em remissão. A hipótese dos pesquisadores é de que a Covid-19 desencadeou o que os especialistas chamam de “resposta imune antitumoral”.

De acordo com Phillip Scheinberg, onco-hematologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo, casos como esse são centenários. “O Dr. William Coley, um dos pais da imunoterapia contra câncer, descreveu há 130 anos casos de tumores que regrediram após uma infecção bacteriana. A observação levantou a hipótese de que o sistema imune da pessoa, que estava atacando a infecção, poderia também atacar o tumor. Nas décadas seguintes, casos similares foram registrados após outras infecções.” Ele conta que, com o advento das vacinas, casos de regressão tumoral após vacinação passaram a ser descritos. “Muitas pesquisas foram realizadas para entender e explorar esse fenômeno que formou a base para a imunoterapia moderna e vários prêmios Nobel foram entregues pelas descobertas. A infecção da Covid-19 pode ser nova, porém, a observação de regressão tumoral após uma infecção, é centenária.”

Câncer e Covid-19

Apesar da boa notícia, é importante alertar que isso não é uma liberação ou incentivo para contrair infecções na esperança de uma remissão. Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no início da pandemia, após análise de dados oficiais da China, indicaram que a taxa de mortalidade geral do coronavírus é de 2,3%. Nos pacientes com câncer, ela fica em 5,6% . “Os pacientes oncológicos correm o mesmo risco de contrair coronavírus, mas o risco de desenvolver as formas graves da doença ocorrem para quem tem o tumores avançados e que estão em tratamentos que diminuam a imunidade. Cada caso precisa ser analisado com o médico e o paciente não deve interromper o tratamento por contra própria”, completa o onco-hematologista Phillip Scheinberg.

Um estudo preliminar divulgado pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) mostra ainda que pacientes com tumores em órgãos sólidos (pulmão, fígado, intestino, etc) podem formar anticorpos contra a Covid-19. “A grande questão são os portadores de doenças hematológicas (linfoma, leucemia, etc), principalmente aqueles com doenças nos linfócitos B. Essas são células muito importantes para a produção dos anticorpos, mas são estudos ainda muito preliminares e essas pesquisas precisam de mais investigações”, alerta o oncologista Manoel Carlos Leonardi, integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil terá, no período entre 2020 e 2022, cerca de 625 mil novos casos de câncer a cada ano. Desses, uma média de 12.030 serão casos de linfoma não-Hodgkin por ano.

Os dados ainda mostram que, depois do câncer de pele não-melanoma (177 mil casos novos), os mais incidentes serão: os de mama e de próstata (66 mil cada); cólon e reto (41 mil); pulmão (30 mil) e estômago (21 mil). Entre os principais fatores de risco, estão: obesidade, fumo, consumo de bebidas alcoólicas, sedentarismo e dieta pobre em vegetais, que também aumentam o risco de pelo menos 10 tipos da doença. Entre as mulheres, os mais incidentes são os tumores de mama (29,7%), cólon e reto (9,2%), colo do útero (7,4%), pulmão (5,6%) e tireoide (5,4%). Já entre os homens, são: próstata (29,2%), cólon e reto (9,1%), pulmão (7,9%), estômago (5,9%) e cavidade oral (5,0%).