Guerra da Síria, 10 anos: Conflito devasta território, abala a infância de uma geração e assombra o mundo

Em março de 2011, o país mergulhava em uma batalha que deixou 387 mil mortos e 11 milhões de refugiados; entenda as consequências da crise

  • Por Bárbara Ligero
  • 14/03/2021 08h00 - Atualizado em 14/03/2021 15h31
EFE/STRPessoas circulam em meio aos escombros da cidade de Alepo, que teve 70% do seu território destruído por bombardeios

Em março de 2011, a Síria mergulhou numa guerra civil que assombraria o mundo. Os números falam por si só: em dez anos de violência, 11 milhões de sírios se tornaram refugiados, 387 mil morreram, 75 mil desapareceram e o país foi quase completamente destruído. Só em Alepo, a maior cidade do país, uma área total de 133 km², o equivalente a 70% do seu território, foi devastada pelos bombardeios. É como se toda a Zona Oeste de São Paulo fosse dizimada junto com o seu patrimônio histórico-cultural, seus hospitais, escolas, templos religiosos e casas. O custo deste conflito na última década equivale a US$ 1,2 trilhão em PIB perdido, segundo relatório da World Vision, ONG de ajuda humanitária que atua em quase cem países. E mesmo se a guerra acabasse hoje, até 2035 as repercussões econômicas equivaleriam a um adicional de US$ 1,4 trilhão. Ironicamente, a responsabilidade de reconstruir a Síria ficará nas mãos de uma geração inteira de crianças e adolescentes que tiveram dez dos seus primeiros anos de vida roubados pela violência. “Meninos e meninas de cinco anos de idade podem identificar todos os tipos de explosivos pelo som, mas raramente conseguem soletrar seus nomes corretamente, um sinal do efeito desse conflito em sua educação e oportunidades”, afirma Johan Mooji, diretor de Resposta da World Vision na Síria. Atualmente, estima-se que 2,8 milhões de crianças estejam fora da escola. Infelizmente, muitos meninos eram recrutados para participar ativamente no conflito, sendo que 82% deles eram colocados diretamente em funções de combate. Já as meninas viviam sob o medo de serem estupradas, abusadas sexualmente ou submetidas ao casamento infantil. Não à toa, a expectativa de vida das crianças foi reduzida em quase 13 anos ao longo da última década.

Uma pesquisa encomendada pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) apontou que, entre os jovens sírios de 18 a 25 anos que ainda vivem no país, metade teve pelo menos um parente ou amigo próximo morto por causa da guerra. Ainda dentro dessa faixa etária, 57% perderam um ou mais anos escolares. Nessas condições, a dificuldade em conseguir emprego é grande. Um em cada seis homens e uma em cada três mulheres não possuem nenhuma fonte de renda. Isso faz com que os sírios esgotem todas as suas economias antes de começarem a vender os poucos objetos pessoais que lhes restam e, então, começarem a se submeter a trabalhos degradantes. Como não poderia ser diferente, a soma desses fatores influenciaram negativamente na saúde mental: nos últimos 12 meses, 73% dos jovens sírios tiveram episódios de crise de ansiedade e 58% tiveram depressão.

O Alto-Comissariado da Organização das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) aponta que desde 2011, mais de 6,6 milhões de sírios cruzaram as fronteiras do país, o equivalente a quase toda a população da cidade do Rio de Janeiro. Isso faz com que a Síria seja um dos principais países de origem de refugiados atualmente. A maioria deles se dirige às nações vizinhas do Oriente Médio, como a Turquia (3,6 milhões), o Líbano (856 mil) e a Jordânia (664 mil), mas há também um número significativo vivendo na Alemanha (572 mil) e na Suécia (113 mil). O Brasil, por sua vez, lançou em 2013 uma portaria que flexibiliza a entrada de cidadãos da Síria e, desde então, 3.800 sírios reconhecidos como refugiados vivem no país.

Uma dessas pessoas é Ghazal Marambo, de 38 anos. Antes do conflito, ela vivia uma vida “boa e tranquila” como dona de casa em Damasco, capital da Síria, onde criava dois filhos. Seu marido era um engenheiro mecânico que ganhava o suficiente para garantir que a família tivesse um apartamento com carro na garagem. Com o início da guerra, no entanto, a estabilidade acabou. “Todo mundo tinha medo de sair de casa e não voltar”, conta. Esse medo acabou se concretizando: seu marido foi preso por engano porque possuía o mesmo nome de um outro homem procurado pelas autoridades sírias. Depois de passar três meses e meio encarcerado injustamente, ele finalmente foi libertado e decidiu se mudar para o Líbano com a família. Eles passaram um ano no país vizinho, mas a dificuldade em encontrar emprego os levou a pensar em um plano B. Em uma semana, o casal conseguiu tirar o visto na Embaixada do Brasil no Líbano, onde um funcionário recomendou que eles fossem morar no Brás, em São Paulo, que já possuía uma comunidade árabe significativa.

O porta-voz da ACNUR no Brasil, Luiz Fernando Godinho, explica que não existe um programa especialmente dedicado aos refugiados sírios no país porque a sua população é numericamente pequena. No entanto, eles são acolhidos pela instituição juntamente com refugiados de outras origens, que define um pacote de ajuda junto com outras organizações parceiras. “Além das aulas de português para se inserirem devidamente na sociedade brasileira, eles recebem assistência jurídica, psicossocial e auxílio para encaminhar as crianças para a escola”, afirma. Apesar disso, Ghazal defende que ela e o marido tiveram pouca ajuda para começar uma nova vida quando chegaram ao Brasil, em dezembro de 2013. “Tem algumas ONGs que ajudam um pouco, mas só dando cestas básicas”, afirmou.

Como não conseguiram um emprego fixo, eles já trabalharam na Feira da Madrugada do Brás, fizeram bicos como motoristas de Uber e agora vendem comidas árabes por encomendas no Facebook. “Lá na Síria, antes da guerra, minha vida era mais fácil. Aqui só fico em casa o dia inteiro trabalhando, fazendo esfirras e quibes”, conta. Com isso, sobra pouco tempo para estudar português. Ghazal só começou a ter aulas cinco meses atrás, na Mesquita do Brás. A situação apertou ainda mais com a pandemia do novo coronavírus. “Antes as vendas eram boas, mas agora estão muito ruins. Esse mês eu não sei o que vou fazer, não consegui pagar o aluguel da casa. Na Síria, eu poderia falar com meu pai que ele me ajudava, mas aqui não tem para quem pedir dinheiro”, diz. Apesar das dificuldades e da saudade da família, Ghazal não tem intenção de voltar para a Síria. O casal teve uma terceira filha no Brasil e os três já falam bem o português. “Gosto muito mais das pessoas brasileiras”, completa.

O porta-voz da ACNUR no Brasil avalia que o fato do país possuir uma comunidade árabe significativa contribui para a integração dos sírios. No entanto, Luiz Fernando Godinho reconhece que a pandemia apresentou desafios extras a essas pessoas. “O que a gente nota no diálogo, no contato regular com a população síria refugiada, é que essas pessoas sempre tiverem uma grande capacidade de adaptação. São pessoas que tem uma resiliência muito grande para tocar a vida. Isso tem facilitado a inserção deles no Brasil, mas a Covid-19 também tem colocado dificuldades à medida que as oportunidades econômicas reduziram muito”, afirma. Nesse sentido, ele relata que os parceiros da ACNUR possuem projetos que incentivam o empreendedorismo. “É uma solução sempre louvável e interessante porque mostra essa capacidade dos refugiados de enfrentarem os problemas. Aula de português é um componente fundamental, mas há também programas de microcrédito, de capacitação profissional e de reconhecimento de diplomas. Mas é claro que tudo isso depende do compromisso e do envolvimento da própria pessoa, porque não há recursos para financiar um grande negócio, o que a gente consegue é fazer com que as pessoas tenham essa assistência inicial”, explica.

Entenda a Guerra da Síria

A família al-Assad, que ocupa a presidência da Síria desde 1971, sempre foi vista com bons olhos pelo Ocidente. O cientista político Márcio Coimbra, da Faculdade Presbiteriana Mackenzie de Brasília, explica que apesar de liderarem com mão de ferro, Hafez al-Assad e o seu filho, Bashar al-Assad, eram bem aceitos pela comunidade internacional porque se diferenciavam dos demais governos da região. Ao invés de se renderem ao fundamentalismo islâmico e à teocracia, eles defendiam as minorias cristãs, continham o avanço do Estado Islâmico e tinham boa desenvoltura no jogo geopolítico, agradando aos interesses dos Estados Unidos e da Europa ao mesmo tempo em que mantinham uma proximidade com a Rússia. No entanto, a população síria começou a expressar o seu descontentamento com essa forma de ditadura velada durante a Primavera Árabe, no final de 2010. Ao observar que governantes vizinhos estavam sendo depostos dos seus cargos e até mortos em consequência dos protestos, Bashar al-Assad reprimiu violentamente as manifestações civis. Um marco dessa brutalidade foi o ataque químico com gás Sarin nos arredores de Damasco, em 2013.

Em pouco tempo, o que antes era “apenas” um combate entre o governo de Bashar al-Assad com a oposição, representada pelo Exército Livre da Síria, se tornou uma complicada disputa de interesses entre outros grupos internacionais. Aproveitando-se do caos que se instaurou na região, o Estado Islâmico atravessou a fronteira do Iraque e começou a atuar na Síria com o objetivo de criar um califado sunita que englobasse os dois países. A Rússia entrou em cena para proteger o governo de Bashar al-Assad, combatendo tanto o Exército Livre da Síria quanto o próprio Estado Islâmico. Os Estados Unidos também entraram na guerra para combater o Estado Islâmico, mas se opunham à Rússia porque apoiavam o Exército Livre da Síria na tentativa de depor Bashar al-Assad. Segundo Márcio Coimbra, a guerra foi dada como acabada após a derrota do Estado Islâmico em 2019. “A gente nunca pode dizer que o Estado Islâmico deixou de existir, mas sua força despencou. Não é possível aniquilá-lo 100%, mas os riscos foram mitigados de forma sensível”, argumenta.

Enquanto a Rússia se contentou em ter conseguido manter Bashar al-Assad no poder, os Estados Unidos se deram por satisfeitos apenas com a derrota do Estado Islâmico. O especialista em ciência política explica que, para a Casa Branca, o presidente sírio é um “mal conhecido”. “Uma democracia não se sustentaria por muito tempo na Síria. Caso os Estados Unidos tivessem conseguido instalar ali um regime democrático, seria muito provável que o candidato eleito fosse deposto por um ditador ainda pior”, ilustra. Ainda assim, a situação continua delicada para Bashar al-Assad. “Ele sempre vai viver na sombra de um iminente ataque do Estado Islâmico ou um ataque interno de grupos que ainda queiram tomar o poder. Além disso, é uma posição muito delicada não ser bem visto pelos Estados Unidos”, completa Coimbra. No entanto, é inegável que os civis foram os maiores prejudicados pelo conflito. O Exército Livre da Síria não conseguiu alcançar o seu objetivo de formar um novo governo e a população relata ainda ser atormentada por combates, conflitos e perseguições. O secretário-geral da ONU, António Gutérres, admitiu nesta quinta-feira, 11, que a situação do país continua sendo um “pesadelo vivo”. Com o país sem qualquer perspectiva de reconstrução, a Guerra da Síria continua.