Nova onda rosa? Dos 12 países da América do Sul, só quatro tem governantes de direita

Vitória de Petro na Colômbia colocou a esquerda novamente em ascensão no continente; eleição no Brasil pode ser decisiva para coroar essa presença, dizem especialistas

  • Por Sarah Américo
  • 25/06/2022 19h00
Juan BARRETO / AFP - nna Moneymaker / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP - Patrick T. FALLON / AFP Esquerda da América Latina Líderes de esquerda da América do Sul: Gustavo Petro, presidente da Colômbia, Alberto Fernández, presidente da Argentina e Gabriel Boric, presidente do Chile

A vitória de Gustavo Petro no domingo, 19, na eleição presidencial colombiana ligou um alerta na América do Sul: estamos vendo o ressurgimento de uma nova onda rosa? Dos 12 países da região, apenas quatro, incluindo o Brasil, tem um governante de direita. Os demais são liderados pela esquerda. O cenário remete a um passado recente, a primeira década dos anos 2000, quando boa parte dos países tinham esquerdistas como presidente. Entretanto, apesar da história parecer se repetir, especialistas ouvidos pela Jovem Pan alertam que as recentes vitórias estão mais associadas a um giro da oposição do que as próprias pautas políticas. 

Arthur Murta, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC), explica que a chamada onda rosa ficou conhecida por ser um conjunto de governos de esquerda, centro-esquerda e progressista que estavam “usando o dinheiro arrecadado com as commodities para empreender políticas sociais e de redistribuição”, mas aponta que apesar dos candidatos esquerdistas estarem saindo vitoriosos dos últimos confrontos, ele não vê “uma população latino-americana com anseios de esquerda”. Para Murta, o que existe hoje na América Latina e na América do Sul é “uma população insatisfeita com o governo atual e dando preferência para a oposição”. O professor de Relações Internacionais do Insper, Leandro Consentino, concorda e explica que esse descontentamento “abre caminho para o avanço da esquerda”. 

Mapa político da américa latina

Contudo, esse não é o único ponto que precisa ser considerado. O agravamento da crise econômica, em decorrência da pandemia de Covid-19, permitiu que os candidatos de esquerda se aproveitassem desse cenário para fazer promessas de “uma vida mais tranquila de uma redistribuição de recursos maiores”, explica Consentino. Essa pauta social foi um “caminho pavimentado para esquerda ascender”. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) projeta um crescimento de 1,8% para América Latina e o Caribe em 2022, apesar de um aumento da pobreza (de 29,8% em 2018 a 33,7% em 2022) e da pobreza extrema (10,4% em 2018 a 14,9% em 2022), especialmente no México, Colômbia, Brasil e Paraguai.

Em entrevista à Agence France-Presse (AFP), Jason Marczak, do Centro Adrienne Arsht para a América Latina, nos Estados Unidos, declarou que a eleição de Petro “é um reflexo da frustração do povo com a classe política tradicional e a preocupação do povo de que a democracia não está respondendo às necessidades e desejos mais básicos” e que “esta preocupação foi ampliada pela pandemia e pelas consequências da guerra na Ucrânia” que resultou no “aumento dos preços dos alimentos, dos combustíveis e a inflação”, afirmou Marczak.

A volta da esquerda  

Petro, primeiro presidente colombiano de esquerda, foi eleito com a promessa de fortalecer o Estado para melhorar a saúde e a educação, aumentar os impostos aos ricos, além de priorizar as energias limpas. Contudo, antes da Colômbia, a esquerda retornou ao poder na Argentina, Bolívia, Chile, Peru e México. Na maioria dos casos, inclusive, distante da ala mais radical seguida por Cuba, Nicarágua e Venezuela. Ainda que o fenômeno ecoe a “onda rosa” que coloriu o mapa regional há duas décadas, analistas apontam diferenças.

esquerda no poder

Alberto Fernández, presidente da Argentina e Gabriel Boric, presidente do Chile, na Cúpula das Américas

Consentino explica que, atualmente, existem duas esquerdas: a nova e a continuísta. “No caso do Chile, é a mais moderna com DNA diferente, já no Brasil e Argentina é igual ao que era”. Em entrevista a AFP, Rodrigo Espinoza, analista político da Universidade Diego Portales do Chile, afirma que “é uma esquerda diferente daquela que se instalou na América Latina a partir da vitória de Hugo Chávez em 1998, Lula (2002), Ricardo Lagos (1999), Michelle Bachelet (2006) no Chile e os Kirchner (2003) na Argentina”. Murta, por sua vez, pondera que essa é uma boa oportunidade para “as esquerdas conseguirem mostrar que podem responder essa demanda” apresentada pelos eleitores. 

Os analistas, no entanto, ponderam que os governantes enfrentarão uma situação bem diferente daquela vista no início dos anos 2000. “Em 2010, havia muito dinheiro entrando na América do Sul por conta da demanda das commodities”, explica Murta, lembrando que a procura pelos produtos seguiu alta na região. “Os países emergentes eram interessantes para os investidores externos”, diz o professor da PUC. “A economia não está boa e não há indícios de recuperação rápida”, acrescenta. O docente também cita outro problema: o fato de os países estarem “mais divididos do que estavam nos anos 2000”. Outro desafio, em sua visão, é ter que lidar com “uma direita cada vez mais autoritária, governos que flertam com a extrema-direita e está cada vez mais democrática”.

Brasil vai coroar ou não ascensão da esquerda?

A eleição presidencial do Brasil será decisiva para ascensão da esquerda, pois se trata do país mais importante da região. Segundo os especialistas, se Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotar o presidente Jair Bolsonaro (PT) em outubro, como indicam as pesquisas de intenção de voto divulgadas até o momento, será coroada a ideia de que há uma nova onda rosa. Arthur pondera que a narrativa será quebrada em caso de vitória de Bolsonaro, porque “o Brasil é uma peça-chave e tem uma importância central para pensar a política da América do Sul”. Segundo pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira, 23, o ex-presidente Lula tem 47% das intenções de voto, ante 28% de Bolsonaro, o que indica uma diferença de 19 pontos percentuais entre os pré-candidatos que polarizam a disputa presidencial e uma possibilidade de vitória no primeiro turno. Consetino aponta que, se Lula vencer, “pode haver mudanças significativas e seria uma dinâmica distinta a ser observada”. Contudo, é preciso esperar a decisão presidencial do Brasil para saber o que vai acontecer no curto e médio prazo.

Bolsonaro e Lula

Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva são os candidatos mais cotados para vencer a eleição presidencial no Brasil │NELSON ALMEIDA / AFP – EVARISTO SA / AFP

Apesar das constantes vitórias da esquerda, uma coisa que se percebe é uma população dividia, porque em nenhuma eleição o candidato ganhou com uma grande margem em relação ao adversário. Consetino explica que estamos vivendo “um momento de polarização aguda”. Mesmo com a ascensão esquerdista e o fortalecimento da extrema-direita, os especialistas não acham que a América do Sul está caminhando no sentido oposto do restante do mundo, uma vez que Emmanuel Macron derrotou Marine Le Pen, na França, e Joe Biden foi eleito contra Donald Trump, nos Estados Unidos. Os dois derrotados eram extremistas. Com o avanço da desigualdade social e o aumento nos índices de pobreza, os candidatos de esquerda se destacam e ficam mais próximos de chegar ao poder, uma vez que os eleitores têm buscado postulantes que defendam pautas progressistas, em defesa de direitos sociais, da comunidade LGBTQIA+, das mulheres e do meio ambiente.