Pela primeira vez desde independência, Ucrânia elege parlamento pró-ocidental
Virgínia Hebrero.
Kiev, 26 out (EFE).- Os ucranianos votaram neste domingo por um parlamento pró-ocidental, oito meses após a mudança de poder motivada pela revolta popular, e, segundo as primeiras estimativas, relegaram aos representantes do antigo regime pró-Rússia, pela primeira vez desde a independência da URSS em 1991, a menor presença.
Segundo as pesquisas de boca de urna divulgada no fechamento dos colégios, os partidos europeístas conquistaram mais de 70% das cadeiras nestas eleições legislativas, que tiveram participação de pouco mais de 50% dos eleitores.
A escolha dos eleitores ucranianos reforça o atual poder de Kiev, partidário da integração na UE e a Otan e imerso em um conflito armado há seis meses contra o separatismo pró-Rússia que já deixou quatro mil mortos e 800 mil pessoas deslocadas.
As projeções, no entanto, se referem à metade dos 450 cadeiras do parlamento escolhidos por listas de partidos, e não à outra metade, disputada em circunscrições e cujos resultados demorarão mais a serem divulgados.
O presidente, Petro Poroshenko, e o primeiro- ministro, Arseni Yatseniuk, teriam conseguido cerca de 45% das cadeiras, com 23% para o bloco do primeiro e 21,3% para a Frente Popular do segundo.
Esta maioria seria reforçada pela ampla representação obtida pelo partido Autoayuda de Andrei Sadovi, prefeito de Lviv, a principal cidade do oeste da Ucrânia e a mais europeia do país, com 13,2% de apoio.
Um membro do bloco de Poroshenko, Yuri Lutsenko, declarou que uma coalizão de governo poderia ser formada entre estes três partidos e o Batkivschina (Pátria), movimento da ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko, que teria alcançado representação com 5,6%.
Tymoshenko, que perdeu as presidenciais em maio para Poroshenko, demonstrou hoje sua intenção de colaborar com os partidos majoritários para formar uma nova coalizão de governo.
“Nosso partido ajudará com todas suas forças e com todos os meios este poder formado pelo povo”, disse.
Na nova Rada Suprema (Legislativo) também estará presente, com 6,4%, o Partido Radical do populista Oleg Liashko, partidário de mais dureza com os pró-Rússia sublevados no Donbass, a bacia de Donetsk e Lugansk.
E embora não as pesquisas não tenham apontado, os ultranacionalistas de Svoboda (Liberdade), obteriam 6,3%. Marcadamente antirrusso, o movimento se destacou durante as manifestações do Maidan por sua ocupação de edifícios oficiais.
O Bloco Opositor, criado por antigos membros do desmantelado Partido das Regiões de Viktor Yanukovich, o presidente derrubado em fevereiro e atualmente exilado na Rússia, teria ficado relegado a 7,6% dos assentos.
Seu líder, o ex-ministro Yuri Boiko, reagiu acusado de não ter havido “eleições tão sujas em toda a história da Ucrânia”.
Outro de seus membros, Nestor Shufrich, disse que tirava o chapéu para os eleitores de Donetsk que foram votar apesar do frágil cessar-fogo que rege na zona desde finais de setembro.
De acordo com estes resultados não oficiais, os comunistas, tradicionais aliados de Yanukovich, não obtiveram os 5% da cláusula de barreira.
Mais de 36 milhões de ucranianos convocados, embora, devido ao boicote dos separatistas, mais da metade dos cinco milhões de eleitores das regiões de Donetsk e Lugansk não tenham votado direito ao voto.
O presidente Poroshenko, em um gesto muito simbólico, se apresentou na região de Donetsk onde, vestido com roupas de camuflagem, encorajou os soldados no antigo reduto rebelde de Kramatorsk, recuperado pelo exército no meio do ano.
Ao saber da vitória, Poroshenko afirmou que ganharam os partidos que apoiam o plano de paz para o leste pró-Rússia e perderam os que defendem a guerra como meio de solução do conflito.
“Não pode nos alegrar com o fato de que a maioria dos eleitores apoiaram as forças políticas que respaldam o plano de paz presidencial”, disse.
Poroshenko e Yatseniuk – que poderia se repetir como chefe de governo dados seus bons resultados eleitorais- pretendem formar uma coalizão europeísta para introduzir reformas estruturais e solicitar a entrada na União Europeia em 2020, tudo isso em meio a tensão com a Rússia pelo preço do gás e seu suposto apoio militar aos separatistas.
“Para realizar as reformas é necessário ter maioria na Rada, uma maioria reformista, e não corrupta; uma maioria pró-ucraniana e pró-europeia, e não pró-soviética”, disse o presidente ao votar.
A nova Rada terá que aprovar reformas e duras medidas de ajuste para satisfazer as exigências do Fundo Monetário Internacional, que concedeu à Ucrânia, quase em falência, um crédito de US$ 17 bilhões.EFE
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