Após oito meses da saída de Moro do governo, aliados enxergam no ex-ministro um adversário político

Deputados da base aliada ouvidos pela Jovem Pan admitem que acusações sobre interferência na PF geraram desgaste nas redes sociais e afirmam que, hoje, ex-juiz da Lava Jato é ‘oponente’ de Bolsonaro

  • Por André Siqueira
  • 24/12/2020 14h00
Cleia Viana/Câmara dos DeputadosMoro anunciou sua saída em coletiva de imprensa no dia 24 de abril de 2020

A manhã do dia 24 de abril de 2020 começou com uma bomba vindo diretamente de Brasília: símbolo do combate à corrupção, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, anunciava sua saída do governo Bolsonaro após 16 meses à frente da pasta. Em uma coletiva de imprensa transmitida para todo o país, acusou o presidente Jair Bolsonaro de tentar interferir politicamente na Polícia Federal. Segundo o então ministro, o chefe do Executivo estaria preocupado com inquéritos em curso no Supremo Tribunal Federal e gostaria de ter no posto de diretor-geral da PF um homem de sua confiança, alguém para quem pudesse pedir relatórios de inteligência. As declarações resultaram na abertura de um inquérito que apura a veracidade dos fatos e na eclosão de uma das principais crises políticas do ano. As primeiras horas que sucederam o pronunciamento de Moro foram marcadas por uma enxurrada de críticas nas redes sociais e na atuação de parlamentares bolsonaristas que entraram em cena para evitar que as consequências à imagem do governo fossem as menores possíveis.

Personagem central do episódio, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) disse em entrevista à Jovem Pan que, no primeiro momento, ela e outros aliados de Bolsonaro no Congresso não acreditavam na iminente saída de Moro. “Não acreditávamos porque, no dia anterior à coletiva, a equipe do ministro nos disse que era mentira, que ele ficaria. Também não acreditávamos porque não era a primeira vez que se ventilava a possibilidade dele sair. Ficou difícil de acreditar que ele sairia. Mas foi a coisa certa para todos, porque era um casamento que não tinha mais liga. Foi decepcionante porque achávamos que seria algo duradouro, mas foi o melhor para todos os envolvidos”, conta. Zambelli tentou demover Moro da ideia de deixar o governo e trocou algumas mensagens com o ministro, na tentativa de construir um consenso entre o ex-juiz da Operação Lava Jato e o presidente Jair Bolsonaro. Horas depois, naquele mesmo dia, trechos da conversa foram divulgados pela imprensa. A parlamentar cita a possibilidade de o magistrado ser indicado ao STF e recebe como resposta: “Prezada, não estou à venda”.

Zambelli também afirma que, em um primeiro momento, a repercussão nas redes sociais foi muito ruim para a base aliada de Bolsonaro. Ela ressalta, no entanto, que o presidente passou a reverter a situação com o pronunciamento feito na tarde do dia 24 de abril. “Foi um dia bastante intenso e terminou de maneira muito ruim. Para entender o momento que vivíamos, fizemos uma metragem dos comentários nas redes. Quando ele fez o anúncio de que sairia, mais de 80% dos nossos seguidores demonstravam apoio ao ministro e questionavam o presidente. Às 17h, quando presidente fez aquela coletiva, que fiz questão de participar, a onda virou: notamos que os comentários estavam em 50% a 50%, um pouco mais para o lado de Bolsonaro. O ministro já perdia fãs. Quando os prints de uma conversa privada foram divulgados sem que tivéssemos direito de resposta, no Jornal Nacional, que faz questão de bater no governo, notamos um 85% a 15% pró-Bolsonaro. Foi ali que as pessoas passaram a entender que a postura dele era algo planejado”, disse a deputada à Jovem Pan.

Diagnóstico semelhante é feito pelo deputado federal Capitão Augusto (PL-SP), presidente da Frente Parlamentar da Segurança Pública, conhecida como bancada da bala. Augusto foi relator do pacote anticrime de Moro na Câmara dos Deputados. À Jovem Pan, ele afirmou que, até aquele momento, bolsonaristas não tinham experimentado um “desgaste tão grande”. “Pela primeira vez, vimos as redes sociais se voltarem contra o governo. Nunca tinha visto uma avalanche de mensagens negativas. A forma como ele saiu, com aquela coletiva, acusando o presidente, foi o grande problema do episódio”, afirma. O deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ) reconhece, também, que as primeiras horas após a coletiva de Moro foram “muito ruins” para o governo. “A coletiva foi um momento muito ruim, foi o mais apreensivo para nós da base. Ficamos realmente preocupados com o futuro do governo e do presidente, porque o ex-ministro saiu surrupiando símbolos do combate à corrupção de forma momentânea. As pessoas esperavam de nós um posicionamento nas redes. Vi muitas pessoas pulando para fora do barco, mas eu tomei a decisão de permanecer fiel, e tenho certeza de que fiz a escolha certa”, disse à reportagem.

A saída de Moro do governo Bolsonaro causou uma reviravolta na narrativa dos aliados mais próximos ao presidente da República, que passaram a enxergar no ex-ministro um adversário político. Zambelli diz que o legado de Moro como juiz deve ser preservado, mas ressalta que, agora, ele será visto como opositor. “A figura do juiz Sergio Moro é muito importante, isso não podemos esquecer. Ele tomou decisões importantíssimas para o país. Enquanto ministro, ele também fez boas coisas, apesar de ter cometido alguns erros, como estar em um governo armamentista e ser contra o armamento da população de bem. Eu o vejo agora como um personagem da política que está em um recorte oposto ao nosso. Ele passa a ser oponente”, diz. Jordy cita a contratação de Moro pela Alvarez & Marsal, empresa que presta consultoria a empreiteiras que estiveram na mira da Operação Lava Jato, para afirmar que o ex-ministro é “oportunista”. “Estes desdobramentos, essa contratação, mostram que ele não é tão intransigente assim no combate à corrupção. Quando coordenou a Lava Jato, ele batia de frente com as empreiteiras, com os esquemas. Quando sai do governo, passa a atacá-lo, se alia a figuras como Luciano Huck e agora presta serviços a uma empresa ligada a alvos da Lava Jato, outrora condenadas por ele. Você se questiona se ele realmente tinha a intenção de combater a corrupção ou se ele foi tendencioso ou parcial”, afirma. Questionada sobre a ida de Moro para a Alvarez & Marsal, Zambelli diz que, uma vez fora do governo, o ex-juiz federal passa agora a ser visto como ser humano. “Ele precisa sobreviver, pagar suas contas. Analisando este recorte histórico desde a saída dele do governo, diria que ele perdeu a capa de herói e voltou a ser ser humano como outro qualquer.”