‘Bolsonaro pode ir ao segundo turno, mas não leva presidência em 2022’, aposta Mandetta

Em entrevista à Jovem Pan, ex-ministro lembrou tensão com o presidente e avaliou a atual gestão da pandemia após um ano do primeiro caso de Covid-19 no Brasil: ‘Pazuello é apenas um militar cumprindo ordens’

  • Por Giullia Chechia Mazza
  • 04/03/2021 08h00
José Dias/PRMandetta afirmou, em entrevista à reportagem, que 'jamais pediria demissão' do governo federal

Há cerca de um ano, na manhã de 26 de fevereiro de 2020, os olhos dos brasileiros se voltaram aos noticiários para acompanhar a confirmação do primeiro caso de Covid-19 em território nacional. Na ocasião, em entrevista coletiva, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, comunicou à população o início da contaminação no Brasil. Iniciou-se, segundo ele, um processo de localização das pessoas que tiveram contato com o infectado para conter o espalhamento do vírus. No entanto, o novo coronavírus se fez mais eficiente, disseminando-se rapidamente, atingindo 10.718.630 brasileiros e causando 259.271 mortes até esta quarta-feira, 3, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde. Um ano após comunicar o primeiro caso da doença no país, acompanhar a evolução do número de contaminados e ser substituído na pasta, Mandetta, em entrevista à Jovem Pan, lembrou o início da pandemia e analisou a gestão do governo federal durante o período. Segundo ele, o presidente Jair Bolsonaro “jogou a favor do coronavírus”.

Confira a entrevista com o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta:

Qual a primeira memória que o senhor tem sobre a pandemia?
A primeira memória que eu tenho é a do Wanderson, meu antigo secretário, entrando no gabinete e dizendo: “Ministro, há ruídos sobre um novo vírus na China. Temos que questionar a OMS para que ela nos dê informações”. Isso ocorreu no início de janeiro, antes de a China reconhecer a existência do vírus, antes de a Organização Mundial de Saúde afirmar a emergência da situação. Eu o respondi: “Então que façamos isso”. Essa cena me marcou muito porque o Brasil foi um dos primeiros países do mundo a questionar a OMS sobre a circulação de um novo vírus na China. Essa também foi a primeira vez em que ouvi falar sobre o novo coronavírus.

Se ainda fizesse parte do corpo ministerial, como trabalharia e o que faria de diferente no governo?
Para fazer diferente, eu precisaria ter um presidente diferente. Quando Bolsonaro me chamou para ser ministro, me pediu um trabalho técnico. Tanto que minha equipe era 100% técnica, formada por profissionais que tinham experiência com a saúde pública. Então, quando chegou a hora de fazer o trabalho técnico, ele queria um trabalho político de baixa qualidade. Se ainda estivéssemos no governo e o presidente colaborasse, ele teria que aderir à nossa política, pedindo a união dos brasileiros, orientando as pessoas a ficarem em casa para não propagar a contaminação e ajudando a Saúde a fazer o papel que ela tinha que fazer. Objetivamente, do ponto de vista técnico, eu teria comprado todas as vacinas.

Em qual momento foi pedido que, como ministro da Saúde, o senhor adotasse uma postura política?
Só percebemos este pedido quando vimos que enfrentaríamos um grande problema pela frente, da mesma forma que apenas precisamos de um líder quando damos de cara com uma grave situação. Antes da pandemia, eu resolvia os problemas da saúde brasileira com as armas disponíveis no meu ministério, portanto tinha pouquíssimo contato com o presidente. Resolvia as questões dentro do gabinete, não precisava dele para conduzir a política de saúde. No entanto, assim que surgiu a pandemia e eu precisei do presidente e da nação, Bolsonaro foi a pessoa que mais se posicionou contra meus projetos. Há um ano, quando ele viajou aos Estados Unidos e encontrou Trump, voltou ao Brasil com uma cloroquina nas mãos e o mesmo discurso do presidente norte-americano na boca. Ali eu vi que não poderia contar com o presidente.

Há alguma cena de bastidor que te marcou por exemplificar sua crítica à postura do presidente na pandemia?
Existem várias. Por exemplo, quando levantou-se o assunto da posse de Regina Duarte da Secretaria Especial da Cultura, já no período da pandemia, me preocupei com a faixa etária dela e dos ministros, me preocupei com a própria segurança física dos presentes e do presidente. Sugeri: “Vamos montar um protocolo para a posse, orientando as pessoas a manterem distância entre si, usarem máscaras de proteção e álcool em gel. Além disso, podemos fazer uma cerimônia menor, já que a Regina Duarte é uma figura que puxa a presença do público, o que é perigoso neste momento”. Mesmo assim, eles não me ouviram. De repente, durante a cerimônia de posse, vi as pessoas se levantando, cumprimentando Regina com abraços e batendo selfies. Pensei: “Eles não entenderam nada”.

Como sua divergência de posicionamento com o presidente foi sentida no governo?
Não eram os cargos ou minha permanência no governo que estavam em jogo, por isso Bolsonaro sabia que eu não abriria mão do caminho da ciência. O que estava em jogo era a possibilidade de aceitarmos passivamente ele mandando os cidadãos trabalharem, se aglomerarem e tocarem suas vidas de forma normal, com o sistema de saúde despreparado para receber a grande demanda de infectados. Naquele momento, não tratava-se mais de política, mas de uma fase republicana, de pensar na vida das pessoas. Não tinha que existir, por exemplo, a distinção entre governadores do PT ou do PSDB, para mim governador era governador e prefeito era prefeito. Todos tinham que estar cientes de suas responsabilidades, trabalhando em conjunto e ajudando uns aos outros.

Em algum momento, o senhor pensou em deixar o governo ?
Nunca, sempre deixei claro que, enquanto eu estivesse no cargo de ministro, faria um trabalho técnico. A responsabilidade do cargo é do presidente, ele nomeou, portanto ele que tire. Não pedi demissão e não pediria nunca.

Qual foi seu último contato com o presidente Jair Bolsonaro?
Sempre fui muito educado com todos do governo, mas desde que deixei o Ministério da Saúde, não houve conversa com o presidente. Quando passei o cargo, cheguei a desejar boa sorte para Nelson Teich e me despedi de todos. “Presta atenção, vivemos um quadro muito grave no Brasil. Muitas vidas estão em risco.” Essas foram minhas últimas falas com Bolsonaro. Pedi que ele refletisse muito bem sobre suas atitudes porque é preciso ser muito preparado para mexer com as famílias e com as vidas das pessoas.

Considerando suas críticas, Bolsonaro deve pagar pela forma como conduziu a pandemia no país?
Bolsonaro não deve levar a culpa pela doença, já que trata-se de uma pandemia, existem mortes em todos os países do mundo. A culpa que Bolsonaro deve levar é a de não ajudar a diminuir o impacto desta doença. Ele jogou a favor do coronavírus, mas quem pode julgá-lo é sua consciência, seu travesseiro e os livros de história. A pandemia é um marco na história da humanidade, portanto seu governo será lembrado. Quando as crianças estudarem sobre o século XXI nas escolas, o que aconteceu em 2020 estará gravado nas páginas e todos os agentes serão julgados. A OMS, a sociedade, a imprensa, o tribunal da internet e os líderes mundiais, como Trump, Boris Johnson, Angela Merkel e Jair Bolsonaro, serão avaliados à luz da história. Ele será responsável pelos atos que cometeu. No entanto, considero muito relativo pensar se suas atitudes serão desdobradas, objetivamente, em alguma sentença.

O Congresso Nacional atrapalhou o desempenho do governo federal durante a pandemia?
Não, pelo ao contrário, o Congresso agiu como um facilitador. Ali os orçamentos foram liberados, aprovou-se o orçamento de guerra, o auxílio emergencial e acabaram até com as leis de licitação. O Parlamento, do ponto de vista da pandemia, ajudou muito a gestão. Observamos uma péssima condução do presidente durante o período de pandemia, por isso o pós-pandemia exigirá uma liderança muito maior para reconstruir o estrago provocado na educação, cultura, entretenimento, esporte e saúde do país. Teremos um tsunami de problemas pela frente, e o Congresso terá que desempenhar um papel muito importante para auxiliar o Brasil a sair do caos em que entrou.

Como avalia a gestão do ministro Eduardo Pazuello à frente da pasta da Saúde?
A Saúde está acéfala, hoje não há nenhum cérebro pensando a saúde brasileira. Eis apenas uma pessoa ocupando o lugar de ministro, mas que não tem condição nenhuma de falar pela saúde do país. Pazuello passou a ser um zero à esquerda. A gente não leva em consideração nada do que ele fala. Perdemos a credibilidade, o Ministério da Saúde, o SUS, a unidade do sistema e o pacto federativo. Não tem como avaliar um ministro que nunca foi ministro. Pazuello é apenas um militar que cumpre ordens.

Podemos esperar que o fim da pandemia ocorra em breve no Brasil?
Ainda teremos muitas mortes, muito sofrimento. Acredito que os casos de coronavírus devem começar a diminuir no segundo semestre porque estamos vacinando os cidadãos lentamente e gradativamente. Lá para setembro teremos informações mais concretas, o que nos ajudará muito, por exemplo, a entender as variantes do vírus e compreender a eficácia das vacinas. Quando chegarmos a vacinar 70% a 80% da população, veremos uma queda sustentável da Covid-19 no Brasil.

Apesar das críticas apontadas pelo senhor, Bolsonaro ainda mantém apoio de parte de seu eleitorado. Por que?
Bolsonaro fala coisas que uma parcela da população quer ouvir. Essa parcela é iludida, acredita que as doenças surgem e acabam em um passe de mágica, propaga fake news e confia em cloroquina. Cada vez mais, o presidente vai ficando com o apoio dos radicais. Os radicais sempre ficam. Por exemplo, se observarmos o PT, mesmo com todas as provas das roubalheiras cometidas por Lula, 20% das pessoas ainda acreditam em sua inocência, confiam que tudo não passa de uma fantasia. Por isso, o mais importante não é analisarmos quanto apoio Bolsonaro tem, mas quanto ele não tem. Mais de 60% da população já afirmou que, em hipótese alguma, votará nele em 2022. Ele está confiando em seu teto de 40% dos votos. Com essa quantidade, Bolsonaro pode ir ao segundo turno, mas não leva a presidência em 2022, por conta de suas decisões equivocadas. Ainda assim, a tendência é que sua rejeição aumente cada vez mais. O homem moderado, que possui bom senso, detesta gritaria, não deseja ver agressões contra a imprensa ou ouvir palavrões saindo da boca do presidente e precisa de paz para trabalhar, já deixou de apoiar o governo.

Pretende disputar a cadeira presidencial nas eleições de 2022?
Muitas pessoas estão falando sobre isso porque, nesses tempos de política, todos tiram as conclusões que bem entendem. Vamos ver, o futuro a Deus pertence.

Lembre a confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Brasil: