CPI da Covid-19: Mensagens detalham lobby para fraudar licitação para compra de testes

‘Passo-a-passo’ foi enviado pelo dono da Precisa Medicamentos a um interlocutor, com o intuito de vender os itens de baixa eficácia ao governo federal

  • Por Jovem Pan
  • 26/08/2021 15h53 - Atualizado em 26/08/2021 17h07
Edilson Rodrigues/Agência Senado'A equipe lá dentro está afinada, aguardando o Bob [Roberto Dias] avocar o processo', diz uma das mensagens

Mensagens em posse da CPI da Covid-19 detalham um lobby feito por Francisco Maximiano, dono da Precisa Medicamentos, junto ao então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, para fraudar uma licitação com o intuito de vender testes de detecção da doença de baixa eficácia ao governo federal. A operação criminosa teve a participação de José Ricardo Santana, que depõe nesta quinta-feira, 26, à comissão, e o advogado Marconny Albernaz Faria, apontado como lobista da Precisa. “Essa é a arquitetura ideal para prosseguir”, diz Maximiano, antes de encaminhar um passo-a-passo a ser seguido pelo servidor da Saúde.

Nas mensagens, do dia 4 de junho de 2020, Francisco Maximiano diz a Albernaz Faria que “a equipe lá dentro está afinada, aguardando o Bob avocar o processo”. “Veja como ficaria o passo a passo”, prossegue o dono da Precisa. Bob é a referência a Roberto Ferreira Dias, que foi saiu preso da CPI da Covid-19. Faria repassou as mensagens a José Ricardo Santana, que, por sua vez, encaminhou o conteúdo das orientações a Dias. Ele só foi exonerado do Ministério da Saúde no dia 29 de junho de 2021, mais de um ano depois, após o policial militar Luiz Paulo Dominguetti denunciar um pedido de propina que teria sido feito por Dias para a compra de 400 milhões de doses da vacina da AstraZeneca. “Como se vê, os negócios da Precisa iam muito além das vacinas”, disse o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). A empresa de Maximiano é peça fundamental no caso Covaxin.

O procedimento consistiria em desclassificar empresas que estavam melhores colocadas na licitação para a compra de testes de Covid-19 para que a Precisa Medicamentos pudesse vender os itens ao governo do presidente Jair Bolsonaro. “A desclassificação com os concorrentes que estão à frente já montamos e está com o time de dentro [do Ministério da Saúde]”, diz Max a Albernaz. Todas essas mensagens foram repassadas a José Ricardo Santana. O conteúdo das conversas causou revolta dos membros da comissão. “Foi essa CPI que demitiu o Bob, senao ele estava lá ainda. Essa CPI que colocou o lorota bank [a FIB Bank] aqui. A CPI trouxe o Ricardo Santana, que estava tomando chopp com o Bob e aparece o Dominguetti, um dos maiores empresários de Minas Gerais, para vender vacinas. Foi desse jeito que o povo brasileiro, as 576 mil vidas perdidas, foram tratadas por algumas pessoas dentro do governo e do Ministério da Saúde. É uma pena que tenhamos que ver esse tipo de comportamento. Sabe para o que eram aqueles testes? Para as pessoas não morrerem. E vocês fraudando, manipulando. Era para vocês todos se juntarem para comprar testes para que o povo brasileiro fosse testado, porque o Brasil é um dos que menos testou no mundo. E sabe por quê? Por causa dessa brincadeira. Nunca foi o valor humano, nunca foi a vida, era o valor que entraria no bolso deles”, disse o senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI. “Vagabundos”, concluiu.

Veja as mensagens exibidas na sessão desta quinta (as imagens abaixo foram retiradas da transmissão da TV Senado no YouTube): 

Mensagens obtidas pela Justiça

Reprodução/TV Senado/YouTube

Mensagens obtidas pela Justiça

Reprodução/TV Senado/YouTube

Mensagens obtidas pela Justiça

Reprodução/TV Senado/YouTube