E o Jair? Direita discute papel do ex-presidente na campanha de Flávio Bolsonaro

Preso, capitão da reserva não poderá participar de eventos ou se manifestar na internet, mas deve ganhar protagonismo em propagandas e discursos

  • Por Matheus Alleoni
  • 20/04/2026 10h00 - Atualizado em 20/04/2026 12h39
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Valter Campanato/Agência Brasil f E o Jair? Direita discute papel do ex-presidente na campanha de Flávio Bolsonaro

Principal canhão de votos da direita, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) terá participação limitada na campanha do filho mais velho, Flávio Bolsonaro (PL), na disputa pelo Planalto. Preso por tentativa de golpe de estado, o capitão da reserva não poderá ir a atos de campanha. Ele também está proibido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), de se manifestar nas redes sociais, onde engaja milhões de eleitores.

O ex-presidente, no entanto, deve ganhar protagonismo nas peças de campanha de Flávio. Mais importante do que um aceno aos eleitores de Jair, a ideia será colocar Bolsonaro numa posição de perseguido político e antagonizar tanto o STF quanto Lula. O deputado Eduardo Bolsonaro, autoexilado nos Estados Unidos, terá papel semelhante. Civis condenados pelo 8 de Janeiro também serão figuras frequentes na campanha da oposição.

No entanto, a missão da campanha do PL é mais delicada do que parece: explorar a imagem do capitão para agradar apoiadores fiéis e gerar mais insatisfação com o atual governo, mas, ao mesmo tempo, vender Flávio como um candidato viável para os indecisos que rejeitam Jair Bolsonaro. A suavização da imagem do senador é um dos principais objetivos dos aliados do Centrão e da direita moderada.

Mais pragmático que os irmãos, Flávio chegou ao Congresso em 2019 e tem bom diálogo com colegas do centro e até mesmo da esquerda. No entanto, durante o governo do pai, endureceu o discurso e surfou na onda bolsonarista. Agora, tenta fazer o caminho oposto. Considerado também, especialmente nos ciclos de direita, o menos carismático do clã, o senador também se inspira no pai para passar uma imagem de espontaneidade, mas sem a intransigência associada ao capitão.

O entendimento do entorno de Flávio é que vale a pena desagradar parte da direita para ir atrás de outros públicos: para eles, os votos dos ultraconservadores e bolsonaristas já estão garantidos, independentemente de posicionamentos do candidato. Isso não significa, no entanto, que ex-presidente ficará escondido: a popularidade do ex-presidente com eleitores de direita e políticos conservadores de outros países obriga a campanha do PL a quebrar a cabeça para encontrar a dose ideal de Bolsonaro em uma campanha encabeçada por um membro da própria família. No entorno, o projeto é chamado de “bolsonarismo light”.

Dentro dos indecisos, um público em especial é bastante cobiçado pelo pré-candidato do PL: os jovens. A demografia se tornou uma dor de cabeça para Lula e, em algumas pesquisas, mostrou uma resistência ao presidente até mesmo maior que a dos evangélicos.

Principal adversário do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio foi escolhido como sucessor pelo pai apesar de muita desconfiança interna. Boa parte da direita preferia o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Além de sustentar a imagem de moderado, o ex-ministro da Infraestrutura também é bem quisto pelo empresariado brasileiro e tem rejeição menor do que a família Bolsonaro, de acordo com as pesquisas.

No entanto, Bolsonaro foi categórico ao escolher o primogênito. O ex-presidente quer se manter como o principal nome da direita brasileira e teme ser esquecido caso outro conservador tome para si o protagonismo.

Tanto Lula quanto Flávio têm outros adversários poderosos: os votos brancos, nulos e abstenções. Foram 5,7 milhões entre bancos e nulos, além de 32,2 milhões de eleitores que não foram votar no pleito de 2022. Convencer parte desse eleitorado a ir às urnas seria essencial em na disputa apertada que se desenha para outubro.

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