Vereador do PSOL ultrapassa Carlos Bolsonaro como mais votado no Rio; conheça Tarcísio Motta

Filiado ao Partido Socialismo e Liberdade desde a sua fundação, Tarcísio Motta afirma que ‘bolsonarismo se enfraqueceu’ e que primeiro mandato dele foi bem aceito pelos cariocas

  • Por Lorena Barros
  • 17/11/2020 09h55 - Atualizado em 17/11/2020 13h28
Mandato Coletivo Tarcísio Motta / Divulgação / Creative CommonsVereador teve 86,2 mil votos nas eleições de 2020

Ocupando posição que nas últimas eleições foi de Carlos Bolsonaro (Republicanos), o vereador Tarcísio Motta, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) foi o mais votado para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro em 2020. Com 86,2 mil votos no meio de uma eleição com 32,7% de abstenções, Tarcísio obteve menos adesão do que em 2016, mas ficou em primeiro lugar entre eleitos, ultrapassando o filho de Jair Bolsonaro por mais de 15 mil votos. A carreira de militância do professor de história, que começou na Pastoral da Juventude, um organismo de ação social católica, se estendeu pelo Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro e fez com que ele fosse um dos primeiros filiados ao PSOL ainda na fundação do partido, em 2005. Tornou-se publicamente político no ano de 2014, quando ainda apontado como “desconhecido” pleiteou a vaga de governador do estado. Carregando como lema “a certeza que o Rio de Janeiro tem jeito”, ele termina os quatro primeiros anos de mandato como líder da bancada do PSOL na Câmara e avalia a aprovação do seu trabalho como responsável pela reeleição.

“Participei de uma CPI muito importante aqui que foi a CPI dos ônibus e que a gente desmascarou uma série de coisas de contrato da prefeitura com os empresários de ônibus. Enfrentamos essa máfia. Depois presidi uma CPI sobre a responsabilidade da prefeitura na questão da prevenção de enchentes, onde a gente conseguiu mergulhar fundo nesse tema que envolve moradia, que envolve meio ambiente, contenção de encostas, Defesa Civil e etc. São os dois pontos altos do nosso mandato, isso mesmo sendo minoria. Essas duas CPIs e uma série de outras coisas fizeram com que nosso mandato fosse muito respeitado dentro da câmara, até mesmo pelos vereadores de direita, até mesmo por muitos veadores da base do Crivella”, afirma o vereador em entrevista à Jovem Pan. Ele atribui o trabalho na Câmara somado a uma ideia de “desilusão” bolsonarista como pilares importantes para que tomasse o primeiro lugar entre os mais votados no ano de 2020.

“Muitos fatores devem ser considerados, um deles é que o bolsonarismo como todo se enfraqueceu nesse processo eleitoral, em decorrência, na minha opinião, da decepção de parte dos eleitores que viram que o bolsonarismo não é a mudança que eles esperavam. Parte dos eleitores que votou nesses candidatos bolsonaristas porque acreditou que eles eram antissistema se decepcionou”, analisa, citando as alianças do presidente com o centrão e a investigações de funcionários fantasmas como fatores que desidrataram o nome de Bolsonaro na capital carioca. “Não só o Carlos perdeu muitos votos. A Rogéria Bolsonaro, por exemplo, sequer foi eleita”, pontua.

Motta também compara os dois mandatos dentro da Câmara ao falar da preferência de eleitores. “Não houve um único assunto importante da cidade do Rio de Janeiro que nosso mandato não tenha atuado de alguma forma. Educação, cultura, transporte, moradia, meio ambiente, IPTU, a questão tributária… Em todos esses assuntos, o nosso mandato atuou. Quando você olha para o mandato do Carlos Bolsonaro, é um mandato medíocre desse ponto de vista. Não atuou em nenhum desses pontos. Não há uma atuação relevante do mandato dele na Câmara dos Vereadores em nenhum assunto da cidade”, afirma. O vereador ainda lembra que a alta taxa de abstenção, assim como de votos nulos e brancos, fez com que todos os eleitos tivessem menos votos do que nos anos anteriores.

Tentativas de ser governador

Tarcísio Motta, que tem 45 anos, vive com a esposa e tem três filhos. Ele é doutor em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF) – mesma instituição de ensino pela qual fez graduação e mestrado – e passou metade da vida lecionando na rede pública de ensino do estado. Antes de assumir o primeiro cargo, o vereador era professor da escola de referência D. Pedro II. Ele tentou ser governador do Rio de Janeiro duas vezes: na primeira, em 2014, ficou em quinto lugar, com 712 mil votos; na segunda, em 2018, quando já era vereador, ficou em terceiro lugar na disputa, com 819 mil votos.

Política e segurança pessoal

Em 2016, Tarcísio foi eleito vereador ao lado de outros cinco políticos do PSOL, como Marielle Franco. Pouco menos de dois anos após assumir o cargo, soube do assassinato da colega de Câmara, até hoje não completamente elucidado, e precisou, assim como muitas outras figuras públicas do partido, redobrar a segurança para precaver-se de ameaças direcionadas à legenda. Para ele, as agressões partem daqueles que têm “interesses poderosos”, como milicianos, grandes empresários de redes de transporte público e especuladores imobiliários.

“A questão é que esses que assassinaram Marielle tentaram nos causar medo. Não conseguiram. Por mais que a gente tenha que ficar preocupado muito mais com a nossa segurança do que estávamos antes do assassinato de Marielle, a nossa resposta sempre foi não nos calarmos. Não darmos um passo atrás”, afirma. Como resposta dos próprios eleitores, o professor lembra que Mônica Benício, viúva de Marielle, e Thais Ferreira, mulher preta de 32 anos e vinda do subúrbio carioca, engrossam a voz do partido dentro da Câmara Municipal.

Questionado sobre os planos para os próximos quatro anos na Câmara, o vereador afirma que foca em dois pilares para o começo do novo mandato: a realização do plano diretor da cidade, que vai traçar as prioridades de recursos orçamentários para políticas públicas, e a educação pós-pandemia, com articulações para recuperação da estrutura das escolas públicas da capital. “Serão quatro anos de muita luta, luta em favor do direito das pessoas”, analisa, e garante que a bandeira de “semear a esperança”, levantada desde seus primeiros anos como professor, é algo que vai guiar o mandato.