Ex-chefe do PNI critica campanha anti-vacina e relata pedido para retirada de presos do grupo prioritário

Em depoimento à CPI da Covid-19, Francieli Fantinato também disse que houve ‘politização da vacina por meio do líder da nação’ e colocou o braço direito de Pazuello na mira da comissão

  • Por Jovem Pan
  • 08/07/2021 16h27 - Atualizado em 08/07/2021 17h27
Edilson Rodrigues/Agência SenadoEx-chefe do PNI, Francieli Fantinato depôs nesta quinta-feira, 8

Em seu depoimento à CPI da Covid-19, a ex-coordenadora do Plano Nacional de Imunização (PNI) Francieli Fantinato criticou as declarações que colocam em xeque a eficácia de vacinas, afirmou que o governo do presidente Jair Bolsonaro não investiu em campanhas publicitárias de incentivo à imunização e relatou um pedido feito por Elcio Franco Filho, braço direito do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, para retirar a população carcerária dos grupos prioritários do programa de vacinação. A oitiva também foi marcada por uma decisão do relator, Renan Calheiros (MDB-AL), de retirar a servidora, que pediu exoneração do cargo no dia 30 de junho, da lista de investigados pela comissão– como consequência disso, os senadores suspenderam a quebra dos sigilos telefônico e telemático autorizados no mês de junho.

“Para um programa de vacinação ter sucesso, é simples: é necessário ter vacinas e campanha publicitária efetiva. Infelizmente, não tive nenhum dos dois”. Foi com esta afirmação que Francieli Fantinato encerrou sua fala inicial na sessão desta quinta-feira, 8. A ex-chefe do PNI também disse que houve “politização da vacina por meio do líder da nação”, em alusão às declarações de Bolsonaro contra os imunizantes. Em mais de uma ocasião, Fantinato defendeu que o país adote “uma única forma de comunicação”. “Minha opinião é que precisamos ter uma comunicação em favor das vacinas. Elas são seguras, eficazes. Nós modificamos a nossa história epidemiológica [por causa das vacinas]. Tivemos uma transição epidemiológica na qual as doenças imunopreviníveis reduziram de forma grande por causa de vacinação, não foi por causa de outros elementos. Precisamos ter uma fala favorável à vacina. Isso tem que partir de todas as pessoas. Precisamos de uma informação unificada. Vacinação é um ato coletivo. Se não tivermos uma comunicação unificada, não conseguiremos esse ato coletivo”, disse.

A oitiva desta quinta-feira voltou a colocar o ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde na mira da CPI da Covid-19. Aos senadores, Francieli Fantinato disse que o coronel Elcio Franco Filho, número dois da pasta na gestão de Pazuello, pediu a retirada da população carcerária dos grupos prioritários do PNI. Ela ressaltou que se negou a atender essa demanda, mas destacou que a Secretaria-Executiva estava acima dela e, se quisesse, poderia ter feito a alteração do plano. A servidora também afirmou que sofreu pressão “de diversos setores” para incluí-los na lista de prioridades. Na sessão da quarta-feira, 7, o ex-diretor de logística da pasta Roberto Ferreira Dias declarou que as tratativas para a compra de vacinas, entre elas, a Covaxin, eram uma atribuição de Elcio. Em razão disso, os senadores defenderam a reconvocação do auxiliar de Pazuello. “Precisamos ouvir de novo o Cel. Elcio Franco que mais uma vez foi citado por um depoente na CPI da Covid-19. Suas digitais aparecem em diversos momentos e precisam ser esclarecidas”, escreveu a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), em seu perfil no Twitter. 

O depoimento de Francieli Fantinato também foi marcado por um desafio feito pelo senador Omar Aziz (PSD-AM), que preside a comissão, ao presidente Jair Bolsonaro. Mais cedo, em conversa com apoiadores, na saída do Palácio da Alvorada, o chefe do Executivo federal disse que para acreditar na denúncia de compra superfaturada da vacina Covaxin, só alguém que “desviou R$ 260 milhões de seu estado, como o Omar Aziz”. O senador do PSD reagiu e subiu o tom: “Presidente, nunca te chamei de genocida, nunca lhe chamei de ladrão, nunca disse que o senhor fazia rachadinha no seu gabinete, mas o senhor vai para o cercadinho, onde ficam pessoas que não têm conteúdo para debater a crise nacional, superficialmente jogando ao léu palavras que assacam contra todo mundo. Presidente, eu não prejulgo, não estou prejulgando. Mas hoje, eu, o vice-presidente [Randolfe Rodrigues] e o relator [Renan Calheiros], estamos mandando uma pequena carta ao senhor, para que diga se o deputado Luis Miranda está falando verdade ou se está mentindo. Há 13 dias o senhor não responde, mas passa 50 minutos tentando desqualificar a CPI. É só uma resposta que o Brasil quer ouvir. Senhor presidente, chefe desta grande nação brasileira, por favor, diga para nós que o deputado Luis Miranda é um mentiroso. Diga à nação brasileira que ele está mentindo e que seu líder na Câmara [Ricardo Barros] é um homem honesto. Vossa Excelência está perdendo a oportunidade. Faz 13 dias que, no habitat dele, no cercadinho, o presidente fala à nação de uma forma a assacar contra todo mundo. Presidente, não é o senhor que vai parar esta CPI. A CPI vai se aprofundar”.