Hang nega disparo de fake news e admite que atestado de óbito de sua mãe omitia Covid-19

Em sessão tumultuada da CPI, empresário bolsonarista foi questionado sobre ‘tratamento precoce’ e sua relação com o ‘gabinete paralelo’ de assessoramento ao governo federal

  • Por Jovem Pan
  • 29/09/2021 17h16 - Atualizado em 29/09/2021 17h30
Edilson Rodrigues/Agência SenadoEmpresário Luciano Hang depôs nesta quarta-feira, 29, à CPI da Covid-19

Em um depoimento truncado, marcado por uma série de tumultos e por uma suspensão de aproximadamente 40 minutos, o empresário Luciano Hang negou que tenha financiado notícias falsas sobre a pandemia do novo coronavírus, mas admitiu que possui contas no exterior e “duas ou três” empresas offshore. “Temos contas no exterior, offshore no exterior, devem ser duas ou três, todas declaradas na Receita Federal”, disse. De acordo com o presidente da CPI da Covid-19, senador Omar Aziz (PSD-AM), a comissão possui “indícios de que essas empresas fora do Brasil impulsionavam publicações” que disseminavam informações que contrariam as recomendações de autoridades sanitárias. “Há uma desconfiança muito grande de que [as empresas] tenham financiado fake news, tratamento precoce”, afirmou o parlamentar do PSD.

A forma como Luciano Hang chegou ao Senado, na manhã desta quarta-feira, 29, prenunciava o clima que tomaria conta da audiência. Ladeado por senadores governistas, como Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), Luis Carlos Heinze (PP-RS), Jorginho Mello (PL-SC), Marcos Rogério (DEM-RO) e Marcos do Val (Podemos-ES), o empresário se dirigiu a um púlpito destinado a entrevistas coletivas acenando para jornalistas, batendo palmas e pulando. A presença do filho do presidente Jair Bolsonaro na CPI, inclusive, ajuda a explicar como a oitiva era importante para o Palácio do Planalto. Alçado ao posto de suplente do colegiado após a ida do senador Ciro Nogueira (PP-PI) para a Casa Civil, Flávio raramente comparece aos depoimentos. Em agosto, ele assistiu à inquirição do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). Ao longo da sessão de hoje, o filho Zero Um trocou farpas com os senadores Omar Aziz, Humberto Costa (PT-PE), Eliziane Gama (Cidadania-MA) e Alessandro Vieira (Cidadania-SE).

Como a Jovem Pan mostrou, a convocação de Luciano Hang dividiu os senadores, que temiam que o empresário utilizasse a comissão como palanque político. Logo no início de sua fala inicial, o dono das lojas Havan exibiu um vídeo de propaganda de sua empresa e causou o primeiro tumulto. “Com todo respeito, senhor presidente. Isso é propaganda da empresa do depoente”, afirmou Fabiano Contarato (Rede-ES). Aziz disse que não gostaria de cercear o direito de ninguém, justamente, para evitar conflitos. Pouco depois, o dono da rede de lojas da Havan exibiu duas placas com os dizeres “liberdade de expressão” e “não me deixam falar” – o material foi retirado do plenário por ordem da direção. Na sequência, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) disse ter sido ofendido por um dos representantes de Hang e pediu a sua retirada da sessão. Entre troca de acusações e gritos dos parlamentares, a sessão foi suspensa por 40 minutos. Para os membros do G7, o depoente agiu premeditadamente e tentou descredibilizar as investigações. Em uma de suas intervenções, o relator do colegiado, Renan Calheiros (MDB-AL), chamou Hang de “bobo da corte”. Em outro momento, o senador Omar Aziz (PSD-AM) disse que “palhaços” estavam no plenário para dar palco ao depoente. Minutos antes, Flávio Bolsonaro afirmou que compareceu à sessão porque queria prestigiar “o circo”.

Outro momento tenso do depoimento ocorreu quando Luciano Hang foi questionado sobre a morte de sua mãe, Regina. Infectada com a Covid-19, ela morreu, aos 82 anos, no Sancta Maggiore, hospital da Prevent Senior. O empresário admitiu que sua genitora recebeu o diagnóstico na unidade de atendimento hospitalar, mas não havia menção à Covid-19 em seu atestado de óbito. “Achei estranho de não estar no óbito, mas eu sou leigo. Segundo eles, quem preencheu o atestado de óbito foi o plantonista”, disse. Ainda de acordo com a versão de Hang, a operadora de saúde retificou a informação “no dia seguinte”. “Pode ter acontecido um erro do plantonista ao preencher o documento”, justificou. Para confrontar a afirmação do depoente, o senador Renan Calheiros exibiu o termo original, que omite a doença como causa da morte. Questionado, Luciano manteve seu posicionamento. “Não vejo interesse do hospital em mentir sobre a morte da minha mãe”. De acordo com um dossiê enviado por 12 médicos e ex-médicos da Prevent, ao qual a Jovem Pan teve acesso, o prontuário de Regina Hang foi manipulado.