Ida de Ciro Nogueira para a Casa Civil não melhorou relação do governo com o Senado, dizem senadores

Na avaliação dos parlamentares, Palácio do Planalto privilegia Câmara dos Deputados porque cabe privativamente a Arthur Lira (PP-AL) deliberar sobre a tramitação de um pedido de impeachment

  • Por André Siqueira
  • 05/09/2021 18h28 - Atualizado em 05/09/2021 18h37
MATEUS BONOMI/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Quando o presidente Jair Bolsonaro escolheu o senador Ciro Nogueira (PP-PI) como ministro-chefe da Casa Civil, auxiliares presidenciais apostavam que a ida de um dos principais líderes do Centrão para o coração do governo conteria os arroubos do chefe do Executivo federal e melhoraria a relação do Palácio do Planalto com os senadores. Um mês depois da posse de Nogueira, parlamentares ouvidos pela Jovem Pan avaliam que nada mudou – a situação, inclusive, se deteriorou. Apesar do desgaste, os congressistas afirmam que, atualmente, o titular da pasta está mais empenhado em reconstruir as pontes entre os presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), em razão da troca de farpas recente entre os chefes do Legislativo, do que aproximar Bolsonaro e seus ministros dos integrantes da Casa Alto do Congresso Nacional.

“Nunca houve essa ilusão de que haveria mudança na relação do governo com o Senado. Não seria a presença do senador Ciro Nogueira na Casa Civil que alteraria esse cenário de Centrão no comando. Os resultados são os mesmos de antes. O governo se fragiliza e encontra cada vez mais dificuldade. O governo é fraco, as pesquisas indicam, e isso dificulta o comando. De nada adianta buscar um parlamentar para ocupar a Casa Civil, se o presidente é o mesmo. Os arroubos contribuem, sem dúvida, para esse desgaste. A distribuição seletiva de recursos impõe facilidade para um lado [Câmara] e dificuldade do outro [Senado]. Há uma rejeição a esse tipo de procedimento por parte da grande maioria dos senadores”, disse à Jovem Pan o senador Alvaro Dias (Podemos-PR), líder do partido. Como a Jovem Pan mostrou, a animosidade entre Planalto e Senado tem causado um efeito prático: a base de apoio a Bolsonaro na Casa está minguando. “Até pouco tempo, diria que tínhamos 70% dos senadores alinhados às propostas do governo. Caiu para 55%, 50%. A base reduziu pela falta de diálogo. Pode voltar ao que era, mas depende da boa vontade do governo”, afirmou à reportagem o senador Carlos Viana (PSD-MG), vice-líder do governo no Senado.

A insatisfação do Senado com o governo federal não é uma novidade: há meses, o Palácio tem sido cobrado a liberar emendas e dar mais espaço aos senadores na Esplanada dos Ministérios. Foi com base nesta reivindicação, por exemplo, que Bolsonaro passou a cogitar nomear o senador Jorginho Mello (PL-SC) para o Ministério do Turismo. A eventual escolha de Mello também representaria um afago ao Partido Liberal (PL), presidido por Valdemar Costa Neto. Nas últimas semanas, parlamentares intensificaram as críticas ao governo, mas, ao menos por ora, o desembarque está descartado. Para três senadores ouvidos reservadamente pela reportagem, Bolsonaro privilegia Lira e um grupo restrito de deputados porque cabe privativamente ao presidente da Câmara deliberar sobre a tramitação de um pedido de impeachment – atualmente, há mais de 130 peças na gaveta do deputado do Centrão.