‘Não me incomoda; o PT é democrático’, diz Jilmar Tatto sobre apoio de petistas a Boulos

Patinando nas pesquisas de intenção de voto, candidato do PT aposta no legado do partido na cidade e na força de Lula como cabo eleitoral

  • Por André Siqueira
  • 10/10/2020 10h15 - Atualizado em 10/10/2020 10h17
José Cruz/Agência BrasilEx-secretário de Transportes promete reduzir desigualdade social na cidade

Mesmo sem decolar nas pesquisas de intenção de voto para a Prefeitura de São Paulo, o candidato do PT ao posto, Jilmar Tatto, mantém o otimismo não só pela ida ao segundo turno, mas também por uma vitória do partido que já governou a cidade por três vezes, com Luiza Erundina de 1989 a 1992, Marta Suplicy, entre 2001 e 2004, e Fernando Haddad, de 2013 a 2016. Em entrevista à Jovem Pan, Tatto afirmou que as propagandas em rádio e TV, iniciadas nesta sexta-feira 9, representam o “início do jogo”, analisou as críticas feitas à sua candidatura e apresentou o carro-chefe de sua campanha: o combate à desigualdade social, acentuada pela crise do novo coronavírus. “Um candidato que quer vencer não pode escolher adversário, mas posso dizer duas coisas: estou preparado para enfrentar quem quer que seja e uma das vagas no segundo turno será ocupada pelo PT”, diz. “Vamos para o segundo turno e vamos ganhar a eleição. Esta vai ser a fotografia do dia seguinte: PT sai fortalecido das eleições municipais e vai disputar voto a voto a Presidência da República em 2022”, sentencia.

Para Jilmar Tatto, que foi secretário de transportes da cidade por mais de seis anos, deputado estadual e federal, a estratégia para mitigar o quadro de desigualdade social se sustenta em três pilares: implementação da renda básica de cidadania, investimento na construção de moradia e criação de uma frente para geração de empregos. “Vamos verificar o que acontecerá com o auxílio emergencial. O fato é que, enquanto houver pandemia, vamos garantir os R$ 300 na cidade de São Paulo. Depois disso, no cenário de pós pandemia, garantiremos a renda básica de cidadania. A outra frente é mudar o padrão de contratação em algumas áreas, ou seja: criar cooperativas de costureiras, de reciclagem, de coleta do lixo, confecção de uniformes. Tudo isso pensando em fortalecer o micro e pequeno empresário. Por fim, construção de, no mínimo, 40 mil casas em quatro anos de mandato, sendo 10 mil no primeiro ano. Você garante moradia e ainda gera empregos no setor de construção”, diz o petista. A estratégia adotada pelo petista para alavancar a candidatura visa defender o legado do partido na cidade de São Paulo, além de destacar reiteradamente alguns feitos da sigla no município, como a criação do Bilhete Único, a construção e ampliação das ciclofaixas e das faixas exclusivas para ônibus, e pregar que a gestão tucana, primeiro com o atual governador do estado, João Doria, que trocou a Prefeitura pelo Palácio dos Bandeirantes em menos de dois anos, e depois com Bruno Covas, atual prefeito, eleito como vice em 2016, retirou benefícios da população.

Veja algumas propostas defendidas pelo candidato do PT à Prefeitura de São Paulo:

Saúde: Fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS)

Para Jilmar Tatto, um dos desafios do próximo prefeito de São Paulo será administrar as filas de exames e procedimentos cirúrgicos geradas em razão da pandemia do novo coronavírus. Para isso, o ex-secretário de transportes promete fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) e investir na assistência a pacientes de baixa renda. “O SUS é necessário, está sendo necessário nesta pandemia e vai ser ainda mais no pós-coronavírus. O fortalecimento do SUS passa pela contratação de profissionais, pela criação de mais leitos e pela compra de equipamentos para atender pessoas que não conseguem e não conseguiram ser atendidas durante a pandemia. Vamos criar um mutirão, uma frente da saúde para diminuir essas filas. Será necessário aportar recursos. Além disso, pessoas que têm hora marcada mas não possuem recursos para o deslocamento, vamos instituir o transporte gratuito. Tudo isso aliado a uma operação de guerra para vacinar toda a população da cidade de São Paulo”, diz.

Área social: 40 mil moradias populares em quatro anos

O petista diz que o combate à desigualdade social será o carro-chefe de seu governo e afirma que seu programa terá três pilares essenciais: instituir a renda básica cidadã, construção de moradias populares e criação de uma frente para a geração de empregos. Tatto, inclusive, se compromete a construir, no mínimo, 40 mil casas em seu mandato. “Só no primeiro ano serão 10 mil. Esse tipo de política garante moradia e ainda gera empregos no setor da construção civil”, resume. Sobre a renda básica, o candidato do PT diz que irá aguardar uma sinalização do governo federal quanto ao futuro do auxílio emergencial. “Me parece que o auxílio irá acabar. Por isso, enquanto houver pandemia, vamos garantir os 300 reais na cidade de São Paulo. No pós-pandemia, vamos garantir a renda básica de cidadania”, afirma. Na avaliação do ex-secretário de Transportes, apesar da crise causada pelo coronavírus, a prefeitura possui recursos necessários para a implementação de projetos dessa natureza. “A Prefeitura está saneada, ela foi saneada pelo Haddad. Hoje, há R$ 18,5 bilhões em caixa. O que quero dizer com isso? Você pode, sim, gastar nesse plano emergencial enquanto dura a pandemia, mas também depois dela. Isso é prioridade total, afinal, a desigualdade aumentou bastante”, acrescenta.

Educação: Plano pedagógico pensando em 2021 

Jilmar Tatto é categórico ao afirmar que a situação da educação na cidade é “uma tragédia” e dá o ano letivo de 2020 como “perdido”. Se eleito, porém, pretende implementar um plano pedagógico que permita à prefeitura mapear os impactos do ensino à distância no aprendizado dos alunos. “Este plano permite que seja verificado o nível de conhecimento dos alunos, mensurar quem está atualizado, mais avançado, e quem não tem acesso à tecnologia. Fazer esse mapeamento é fundamental para o início do ano que vem, pensando em como dividir os alunos por sala, para mensurar se será necessário contratar novos professores para reforços, por exemplo. Temos que ter, também, um plano de internet na casa dos alunos: o uso da tecnologia já era necessário antes, agora é vital. Quem não tiver, não conseguirá acompanhar”, defende. O candidato do PT também reconhece que voltar às aulas de forma presencial será arriscado, enquanto não houver vacinação, e diz que investirá na infraestrutura das unidades de ensino para garantir segurança sanitária a alunos, professores e colaboradores. “Do ponto de vista físico, a volta as aulas precisa trazer segurança: testagem na entrada e saída das escolas, investimento em higiene, ampliação das salas de aulas, mais espaçamento. Ampliaria o transporte escolar com um programa de higienização do transporte. Os professores precisarão de novos conhecimentos, fazer lives, gravar vídeos, exige atualização e temos que permitir que ele faça cursos de especialização. Isso é fundamental para esse novo normal na interação do profissional com a sociedade. A cidade de São Paulo sempre foi vanguarda, ela precisa ser vanguarda. E podemos, sim, ocupar novamente esse espaço no novo normal”, explica.

Críticas à candidatura e apoio de petistas a Boulos 

Desde a confirmação de seu nome para a disputa da Prefeitura de São Paulo, Tatto convive com críticas sobre as chances de o PT sequer ir ao segundo turno. Além disso, convive com o fantasma da candidatura de Guilherme Boulos pelo PSOL. Apontado por muitos como uma espécie de sucessor do ex-presidente Lula, o líder do MTST estreitou relações com o líder máximo do PT e conquistou, inclusive, apoio importante de lideranças graúdas do partido. Na terça-feira 6, Wadih Damous, um dos advogados de Lula, e uma voz influente dentro da sigla, afirmou, em sua conta no Twitter, que “o apoio do PT a Boulos em São Paulo seria um gesto de maturidade e inteligência políticas”. Tatto, ao menos publicamente, diz não se incomodar com declarações desta natureza e diz que o PT vence o pleito em São Paulo. “As pessoas, por falta de conhecimento do que é o PT na cidade de São Paulo, e aquilo que ele representa, fazem esses comentários. O PT é muito forte aqui, já ganhou três vezes. Isso não me incomoda. O PT é democrático, as pessoas têm direito à opinião. Essa reflexão pode caber fora de São Paulo, mas aqui o PT tem enraizamento na periferia, não é o PT de Ipanema, do Leblon. É o PT dos pobres, dos militantes de base, da igreja, das mulheres negras. Vamos para o segundo turno e vamos ganhar a eleição. Esta vai ser a fotografia do dia seguinte: PT sai fortalecido das eleições municipais e vai disputar voto a voto a Presidência da República em 2022”, sentencia.