O que os senadores esperam do depoimento de Nise Yamaguchi à CPI da Covid-19

Enquanto os governistas querem ouvir a imunologista sobre o chamado tratamento precoce, o G7, grupo majoritário da comissão, quer avançar sobre o gabinete paralelo

  • Por André Siqueira
  • 01/06/2021 08h22 - Atualizado em 01/06/2021 08h24
Edilson Rodrigues/Agência SenadoNise Yamaguchi é apontada como integrante do gabinete paralelo, que atuava à margem do Ministério do Saúde no enfrentamento à pandemia

Na abertura do segundo mês de trabalhos da CPI da Covid-19, os senadores ouvem, nesta terça-feira, 1º, a médica Nise Yamaguchi. A sessão está marcada para às 09h. O depoimento é considerado fundamental pelo G7, grupo majoritário formado pelos parlamentares independentes e de oposição, uma vez que a imunologista é apontada como integrante do chamado gabinete paralelo que assessorava o presidente Jair Bolsonaro à margem do Ministério da Saúde. Para os governistas, porém, a médica poderá defender o uso da cloroquina, medicamento ineficaz para o tratamento do coronavírus.

Segundo apurou a Jovem Pan, Nise Yamaguchi será questionada pelos senadores sobre a tentativa de mudança da bula da cloroquina. Em seu depoimento à CPI, o diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, afirmou que partiu da médica a ideia para alterar o bulário do fármaco, a fim de recomendá-lo para o tratamento da Covid-19. Antes, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse que, em uma reunião no Palácio do Planalto, teve contato com uma minuta de decreto presidencial que autorizava a mudança. Para o G7, porém, o chamado “tratamento precoce” é “um assunto pacificado”.

Os senadores do grupo majoritário querem utilizar a sessão desta terça-feira para avançar sobre outros integrantes do gabinete paralelo, chamado pelo relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), como “Ministério da Doença”. Segundo o calendário de reuniões divulgado pelo senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente do colegiado, serão ouvidos, ainda em junho, Arthur Weintraub, ex-assessor da Presidência da República e irmão do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, Carlos Wizard Martins, o empresário que atuou como consultor do Ministério da Saúde na gestão de Eduardo Pazuello, e Filipe Martins, assessor da Presidência da República para assuntos internacionais. Os três são apontados como integrantes do grupo de assessoramento paralelo. “Não, não vamos fazer perguntas sobre cloroquina. É página virada. O foco é gabinete paralelo, é o assessoramento paralelo”, disse o senador Otto Alencar à Jovem Pan.

A oitiva de Nise Yamaguchi atende a pedidos dos senadores Marcos Rogério (DEM-RO) e Eduardo Girão (Podemos-CE), integrantes da tropa de choque governista na CPI. “Gostaria de ouvir a doutora Nise sobre a experiência dela com o tratamento precoce, que salva vidas, segundo análise e depoimentos de muitos médicos, e a preocupação com relação a esta postura negacionista, que não quer a prescrição de medicamento que não tenha indicativo na bula para Covid-19. Nenhum medicamento tem. Se ficar aguardando este indicativo, vamos continuar perdendo muitas vidas para a pandemia”, afirmou à Jovem Pan o senador Marcos Rogério. De acordo com o vice-líder do governo no Senado, “essa conversa [de gabinete paralelo] chega a ser hilária e ridícula”. “O presidente ouve quem quer, consulta quem quer. Todo chefe de Estado tem os seus conselheiros. Se ele se aconselhou com alguém, não constitui crime algum”, acrescentou.