‘Sensação é que você já vai para lá julgada e condenada’, diz Mayra Pinheiro sobre CPI da Covid-19

Secretária do Ministério da Saúde que prestou depoimento à comissão na última semana deu entrevista ao programa ‘Os Pingos Nos Is’, da Jovem Pan, nesta segunda-feira, 31

  • Por Jovem Pan
  • 31/05/2021 20h12 - Atualizado em 31/05/2021 21h14
MATEUS BONOMI/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO - 25/05/2021Mayra Pinheiro foi entrevistada pelo programa 'Os Pingos Nos Is'

A secretária de Gestão do Trabalho e Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, foi entrevistada no programa “Os Pingos Nos Is”, da Jovem Pan, nesta segunda-feira, 31, e falou sobre alguns dos pontos abordados pelo relator da CPI da Covid-19, Renan Calheiros, como “mentiras” durante seu depoimento a senadores na última semana. “Eu acho que houve um entendimento, até pelo ambiente da CPI, que é extremamente tóxico, as pessoas acabam, às vezes, dando uma informação que não corresponde a aquilo que de fato aconteceu”, afirmou a médica. Questionada sobre os pontos divergentes acerca do aplicativo “TrateCov”, que, segundo o ex-ministro Eduardo Pazuello, teria sido hackeado, ela lembrou que a plataforma sofreu a ação de um indivíduo que fez uma extração de dados, explicação que pode ter sido dada de forma equivocada pelo ex-ministro para explicar a leigos. “Na verdade, ele extraiu os dados que a gente chama, segundo o laudo pericial técnico, da plataforma, a capa dela, e ele fez um ‘ctrl c’ e ‘ctrl v’ na página dele e passou a utilizar os dados, mas não chegou a entrar no sistema. Ele ficou brincando de utilizar os dados de forma irresponsável, indevida. Porque essas plataformas médicas, que a gente chama de calculadoras médicas, já existem mais de 300 no mundo e elas são usadas especificamente pelos médicos como auxílio diagnóstico, é o que a gente queria fazer em Manaus”, explicou. A médica afirmou que aquela era uma plataforma que deveria ter sido utilizada para salvar muitas vidas em Manaus e foi pensada como um auxílio ao diagnóstico.

A secretária disse que esteve na cidade de Manaus em dois momentos: do dia 3 ao dia 5 de janeiro, quando não registrou ocorrência da falta de oxigênio, e a partir do dia 10, quando retornou com outros secretários e ministros ao local. “No dia 11 nós fizemos o lançamento das ações estratégicas do governo do Estado do Amazonas com o Ministério da Saúde e foi quando começaram os rumores da falta de oxigênio. Qual é o grande problema dessas informações? Quando eu voltei para Brasília, o ministro perguntou ‘Mayra, por que é que no período em que você foi fazer essa avaliação e a confecção dos relatórios você nunca me reportou sobre a falta ou escassez do oxigênio?’ E eu respondi: ‘Porque enquanto eu estive lá, nunca fui notificada disso’”, recordou. Segundo a médica, ela falou diretamente com o secretário de Saúde do Amazonas, Marcellus Campelo: “Ele falou: ‘Mayra, eu recebi um e-mail no dia 8 da empresa que fornecia o oxigênio, White Martins, dando conta de que havia um problema na rede. Eu pedi a cópia desse e-mail e ele me mandou a mensagem gravada de WhatsApp e essa mensagem foi entregue ao ministro. Daí a falha de comunicação. A falha foi passada para a secretaria Estadual de Saúde do Amazonas no dia 8, mas nós do ministério não recebemos essa informação no dia 8”, explicou. Segundo Mayra, um erro interno ocorrido quando o Ministério da Saúde prestou informações ao Tribunal de Contas da União sobre a pandemia fez com que a data do e-mail enviado para a secretaria do Amazonas fosse confundida com a notificação do ministério. “Isso tudo foi comprovado através dos documentos e acho que ficou bem esclarecido para os órgãos de controle.”

Para ela, a sensação de depor à CPI foi “muito ruim” e houve uma tentativa de desconstrução da sua imagem, honra e reputação, que podia ser notada ao longo de toda semana que antecedeu o depoimento. “Os jornais já reportavam que eu estava sendo levada para a CPI por uma prática de improbidade, então já havia uma condenação prévia. E a outra coisa lamentável é que se criou um apelido pejorativo, ‘Capitã Cloroquina’, porque como médica eu já tinha me posicionado a favor da instituição precoce de uma terapia em uma doença grave com um desfecho incerto.” Ela narrou que os ataques partiram não só do Estado do Ceará, onde ela nasceu, mas também de outras partes do Brasil. “A sensação é que você já vai para lá julgada e condenada”, recordou. Ela também se solidarizou com a comunidade judaica pela fala de Renan Calheiros e afirmou que acredita que ele tenha tentado fazer uma associação com médicos brasileiros e supostos testes de medicamentos na população sem comprovação. “Foi muito ruim, mas da mesma forma que é ruim, deixa exposto o objetivo da CPI, que não é apurar para a população brasileira o que foi feito ou deixou de ser feito em relação à doença, mas sim uma campanha de motivação para fazer oposição sistemática à presidência da república e ao governo federal”, disse. A médica ressaltou, ainda, que é reconhecida por pessoas na rua e recebeu apoio de colegas médicos e de outras categorias após seu depoimento.

Mayra também falou sobre as ações de logística para adquirir vacinas na pandemia e sobre as “ações de guerra” para transportar pessoas doentes em Manaus no mês de janeiro. Questionada sobre uma possível terceira onda, ela disse que o futuro não é previsível, mas que o Brasil precisa de líderes capacitados para lidar com a pandemia. “A gente tem que ter capacidade de planejamento para enfrentar a doença sem que a gente cause mais danos à população. E aí um dano que a gente não contabiliza são as doenças mentais decorrentes dessa doença. O que a gente vem fazendo de alarme, de pânico e de medo nas pessoas”, observou. Ex-filiada ao PSDB, a médica não sabe se voltará à política no futuro. “Se você me perguntar na data de hoje se eu tenho pretensões políticas eu vou dizer que não. O que a gente tem vivido no combate à Covid é um desgaste físico, emocional muito grande, o distanciamento da família, cada vez mais eu me vejo como médica e técnica. Mas é uma possibilidade. Meu Estado precisa de uma liderança, eu acho que o Brasil precisa de liderança, de pessoas competentes”, afirmou. Segundo ela, a composição atual do Senado mostra que o Brasil precisa de parlamentares de qualidade. A médica lembrou, por fim, que mesmo os vacinados têm um risco de contaminação e apontou a necessidade de lavar as mãos, usar máscaras e praticar o distanciamento social com planejamento estratégico.

Confira o programa “Os Pingos No Is” desta segunda-feira, 31, na íntegra: