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Política

‘Terceira via nasceu pulverizada e está fadada ao fracasso’, diz Carla Zambelli

Para a deputada federal, a disputa presidencial de 2022 ficará polarizada entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula, mas descarta a vitória do petista em primeiro turno

André Siqueira

Ferrenha defensora do governo Bolsonaro no Legislativo, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) acredita que a disputa pela Presidência da República ficará polarizada entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas coloca em xeque o resultado das pesquisas eleitorais divulgadas pelo Datafolha e pelo Ipec no início do mês de dezembro. Os dois institutos apontam que, se a eleição fosse hoje, o petista venceria em primeiro turno. Para a parlamentar, a terceira via nasceu “pulverizada” e está “fadada ao fracasso”. À Jovem Pan, Zambelli também afirmou que o orçamento secreto é uma “narrativa” e atribuiu a rejeição ao nome do ex-juiz da Operação Lava Jato e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro ao fato de o ex-magistrado ter deixado o governo federal “pela porta dos fundos”. Confira abaixo os principais trechos da entrevista: 

O ano de 2021 foi marcado por uma série de episódios machistas no Congresso: na CPI, uma senadora foi chamada de descontrolada. Numa comissão da Câmara, um deputado disse para uma deputada ficar ‘quietinha e pianinha’. Como uma mulher parlamentar como a senhora enxerga isso? Eu também fui muito atacada e desrespeitada, mas não encaro esses episódios como um desrespeito por ser mulher. No meu caso, desrespeito acontece por ser conservadora. O Congresso é mais masculino, mas não machista. É desrespeitoso, mas não só como mulher. Não encaro como ambiente machista. Fui desrespeitada diversas vezes, mas em muitas vezes por mulheres. O maior ataque que recebi foi da Joice [Hasselmann, deputada que irá se filiar ao PSDB], que é mulher. Para ser respeitada, tenho que respeitar. Não gero ação grosseira, mas se uma pessoa for grossa comigo, tenho o direito de ser triplamente grosseira na resposta. Quando uma parlamentar começa a querer utilizar como argumento o fato de ser uma autoridade feminina ou feminista, ela tem que estar preparada para ser tratada como política. Quero respeito por ser uma pessoa.

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Integrantes do PP diziam que havia um acerto para que a senhora e o deputado Eduardo Bolsonaro fossem os grandes puxadores de voto do partido. Para qual partido a senhora irá? Não bati o martelo porque ainda está muito cedo. A janela partidária ainda não abriu, então não é necessário antecipar essa decisão. A decisão de para onde vou tem que estar intrinsecamente ligada ao que é bom para o presidente Bolsonaro. Se ir para o partido dele for bom, ótimo. Se tiver uma composição para beneficiá-lo em tempo de televisão, estarei à disposição. Recebi convites do PL, do PTB, do PSC e do PP, mas não decidi nada ainda. 

Como a senhora explicará para o seu eleitor esta aliança com o Centrão? Já em 2017, na campanha, Bolsonaro dizia que não seria ditador e que, para governar, tinha duas opções: eleger uma bancada tão ampla a ponto de não depender tanto de outros partidos ou compor com outras siglas. Penso da mesma forma. Quando dizem que fui eleita na onda antipolítica, eu discordo. Sou contra a corrupção dentro de qualquer partido. Além disso, não existe nenhum partido de direita no Brasil. Tentamos criar o Aliança pelo Brasil, mas a pandemia e o fechamento dos cartórios nos inviabilizou e o sonho de criarmos um partido 100% limpo foi por água abaixo. Para governar, temos que conversar com todos, não dá para chegar com o pé na porta. Tem que haver diálogo.

Pesquisas do Datafolha e do Ipec mostram que, se a eleição fosse hoje, Lula venceria em primeiro turno. De acordo com o primeiro instituto, a rejeição a Bolsonaro chegou aos 60%… Segundo as pesquisas de 2018, Bolsonaro não passaria do primeiro turno. Nas simulações de segundo turno, Bolsonaro perderia para todos os candidatos. Depois de 2018, desconfio das premissas dessas pesquisas e vou além: acho que há interesse financeiro em cima dessas pesquisas. Pegam um perfil de pessoas para o resultado que eles querem ter. Sabe por que não acredito nessa rejeição? Recentemente, o presidente esteve no interior da Bahia, onde o PT reina há anos. Bolsonaro foi recebido por milhares. O governador [Rui Costa, do PT] passou por lá e foi xingado. O “Datapovo” é mais eficiente que o Datafolha. Não dá para colocar a mão no fogo por nenhuma pesquisa, porque elas são nichadas. Só vamos saber a real nas ruas e na hora da votação.

Bolsonaro foi eleito como principal voz da pregação antissistema, mas se filiou ao PL, do Centrão. Na campanha, prometeu combater a corrupção, mas foi acusado pelo então ministro Sergio Moro de tentar interferir politicamente na Polícia Federal. O que o presidente tem a oferecer ao eleitor? Bolsonaro nunca foi antipolítica, era anticorrupção. A pauta anticorrupção foi cuidada no sentido de colocar técnicos nos ministérios. O presidente é honesto e correto, fala o que pensa. Reclamam da forma que ele pensa, mas não podem dizer que não sabem o que ele pensa. As promessas de campanha foram cumpridas. Ele quebrou o paradigma da aliança com o Centrão, mas não foi picado pela mosca azul. Não adianta votar só no presidente. Se não tivermos deputados, senadores e governadores que o apoiem, teremos problema.

O que a senhora pensa do agora presidenciável Sergio Moro? É natural que tenha pessoas que acreditem nele. Mas olhe para a forma como ele saiu do governo. Isso reduz o seu alcance. Ele saiu pela porta dos fundos e traindo pessoas. Não defendeu quem merecia e precisava ser defendido. Enquanto esteve no Ministério da Justiça e Segurança Pública, ele não bateu de frente com o sistema muitas vezes.

Ainda falando de 2022, como a senhora vê a possível chapa entre Lula e Alckmin? É totalmente plausível, visto que PT e PSDB, por muitos anos, atuaram em tesoura para fazer parecer que são oposição, mas nunca foram oposição uns aos outros. Em geral, petistas e tucanos pensam de forma idêntica. Um é social democrata e outro é socialista. Quando o PT fez aliança com banqueiros no governo Lula, ele mostrou que tem um pensamento parecido com o dos tucanos. Isso só serve para mostrar que Alckmin sempre foi mais do mesmo. 

A terceira via é uma iniciativa natimorta? Essa movimentação da terceira via é interessante. Espaço, tem. Mas esses candidatos não têm força para ganhar nem de Lula nem de Bolsonaro. A terceira via nasceu fragmentada, pulverizada, está fadada ao fracasso. É interessante pelo debate, porque, na democracia, todo debate é interessante, mas não vejo muito futuro para esses candidatos.

O orçamento secreto não é uma distorção do sistema político brasileiro? Não existe orçamento secreto. Esse tipo de emenda sempre existiu, mas em valores menores. Aumentou por decisão do Congresso e por desapego do presidente no sentido de controlar o Orçamento. Quem sabe melhor o que é melhor para aquelas pessoas que estão lá na ponta da linha: o presidente ou quase 600 parlamentares que têm contato permanente com suas bases? O problema está na narrativa de dizer que é secreto. Só falam que é secreto porque estamos no governo Bolsonaro. Eu sou contra emenda parlamentar. O deputado e o senador não deveriam ter poder de ordenamento de despesa. O recurso não deveria sair da ponta e vir para Brasília. Tinha que ficar na ponta para que o prefeito pudesse investir onde é necessário, mas, já que vem para Brasília, o deputado não pode indicar o melhor caminho?

Mas veículos de imprensa já noticiaram supostos esquemas de desvio desses recursos… A corrupção vai existir com aquele deputado que é ladrão e vai dar um jeito de roubar. Quando indico emenda, eu divulgo tudo. Agora, que tem deputado que pega 10%, 20% ou combina algo com quem vai receber o valor, a gente sabe que tem.

No Twitter, o ex-ministro Ricardo Salles disse que o ministro Tarcísio escolheu o empresário Paulo Skaf como seu candidato ao Senado. Este arranjo está definido? Salles se precipitou quando escreveu que o Tarcísio teria escolhido o Skaf. Quando o presidente Bolsonaro veio para São Paulo cumprir aquela agenda na Fiesp, fiquei ao lado deles [Skaf e Tarcísio] o dia todo. Tarcísio estar com Skaf na Fiesp não indica que ele será o candidato do governo ao Senado. Pode vir a ser? Pode. Vai ser o candidato dos bolsonaristas? Não, isso não foi dito em nenhum momento e em lugar nenhum. Ele também se precipitou quando disse que eu escolhi a Janaina Paschoal [como candidata ao Senado]. Os jacobinos perderam quando começaram a brigar entre si. Nós, os conservadores, não tivemos a oportunidade de ocupar espaço de poder no Brasil. Agora que temos essa chance, essa tentativa de brigar em público, infelizmente, só nos atrapalha. O que diria ao Salles? Vamos aguardar. Falta um ano para a eleição, temos mais três meses para ajustes partidários.