Taxa de câmbio pode elevar exportações de automóveis a patamares dos anos 2000

  • Por Agência Brasil
  • 12/01/2015 16h59

A taxa de câmbio é considerada fator essencial para que o Brasil retome o patamar de 1 milhão de carros exportados por ano, registrado ao longo dos anos 2000, disse nesta segunda-feira (12) à Agência Brasil o coordenador do MBA em Gestão Estratégica de Empresas da Cadeia Automotiva, da Fundação Getulio Vargas (FGV), Antônio Jorge Martins. “É um patamar plenamente alcançável pela indústria automotiva brasileira”. De acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), as exportações de autoveículos brasileiros caíram 40,9% no ano passado, totalizando 334.501 unidades, ante 566.299 em 2013.

Jorge Martins acredita que a  alteração que vai ocorrer no câmbio afetará positivamente o setor automotivo, “principalmente no que concerne à possibilidade de maior volume de exportações”.

O coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ), David Kupfer, salientou que se a taxa cambial  permanecer em torno de R$ 2,70, “é provável que as exportações retomem e possam cobrir um pedaço desse mercado interno que se contraiu ou estará contraído este ano”.

Jorge Martins preferiu não fazer prognósticos em relação à faixa ideal para o câmbio, tendo em vista que o nível de competitividade das empresas é diferente. “Para umas, pode ser R$ 2,90, para outras, R$ 3,10. É difícil falar do setor como um todo”. Argumentou, porém, que quanto mais próximo de R$ 3 ficar a cotação do dólar, melhor para viabilizar as exportações.

“Existem estudos que mostram que a correção do câmbio somente pelo índice de inflação chegaria a um patamar de R$ 3,20. Quanto mais próximo você puder chegar do índice de defasagem, tanto melhor, porque não existe um câmbio único para todas as empresas. Cada uma tem um grau de competitividade melhor que a outra”. Martins concordou com David Kupfer que isso poderá compensar parte do mercado doméstico que está contraído, devido à redução das vendas, no ano passado, e da falta de crescimento da demanda.

Insistiu, entretanto, que a retomada das exportações  vai ser fundamental para o setor automotivo, porque as empresas precisam abrir novos destinos de exportação, e não ficar restritas a determinados países na América do Sul. Citou estudos de grandes consultorias internacionais que indicam que a base Brasil, devido à experiência de mais de 50 anos do setor, poderá ser bem utilizada para a exportação, inclusive para o México e os Estados Unidos.

Martins disse que já está claro para essas montadoras que o mercado brasileiro por si não é suficiente. “Elas vão precisar de uma base de exportação, no sentido de viabilizar a capacidade produtiva do nosso setor”. Martins informou que é preciso que as matrizes permitam que essas exportações sejam efetuadas. Por isso, indicou que tem que haver pressão do governo, no sentido de fazer com que essas empresas, “além de atenderem ao mercado interno, consigam também um volume maior de exportações”.

Pelo fato de a demanda do mercado não estar nos mesmos níveis que motivaram o crescimento do setor nos últimos anos, Martins acredita que possivelmente muitas indústrias vão adequar o seu quadro de funcionários à nova realidade de mercado, o que sinaliza para mais demissões pelas montadoras instaladas no país. Na última terça-feira (6), a Volkswagen anunciou a demissão de 800 funcionários da fábrica de São Bernardo do Campo (SP). O  movimento tende a ser acompanhado por outras empresas.

O economista  David Kupfer concorda que 2015 não deve ser um ano de crescimento das vendas do setor automotivo. Ele disse à Agência Brasil que o processo foi iniciado no final do ano retrasado, quando as vendas “primeiro, pararam de crescer e, depois, apresentaram recuo”. Lembrou que, de modo geral, as montadoras passaram por um período de expansão, mas parte importante desse crescimento foi associada a incentivos recebidos da política pública.

Kupfer ponderou, porém, que isso acabou servindo para antecipar substituição de carros e não tanto criação de demanda efetivamente nova. “É evidente que, com o crédito mais caro e mais difícil, a propensão a trocar de carro reduziu, o que é típico de bens duráveis”. Daí, o economista imagina que 2015 será um ano de reequilíbrio da demanda e da oferta de automóveis. Na prática, indicou que isso vai significar a necessidade de o setor “digerir” os estoques acumulados e, depois, ajustar a produção para um nível menos aquecido de demanda.