Conheça o projeto BINGO, radiotelescópio que está sendo construído na Paraíba

Projetado por parceria entre universidades brasileiras e estrangeiras, equipamento de alta tecnologia buscará informações sobre a matéria e a energia escuras do universo

  • Por Luis Filipe Santos
  • 04/06/2022 17h00
Divulgação Equipamentos do radiotelescópio Bingo: antena parabólica, ainda sem refloretores Radiotelescópio BINGO está sendo construído em Aguiar, na Paraíba

A cidade de Aguiar, no interior da Paraíba, tem apenas 5.567 habitantes, de acordo com estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2016. Apesar de pequeno, o município localizado a 420 quilômetros de distância de João Pessoa, capital do Estado, está prestes a se tornar um pólo para a ciência nacional, com a construção de um radiotelescópio de alta tecnologia que será usado para pesquisas em física e astronomia, com liderança de Elcio Abdalla, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP). O projeto, gestado a partir de 2010, pretende ajudar na construção do saber sobre a matéria e energia escuras, que juntas compõem mais de 95% do universo, e outras questões da física moderna. Por outro lado, também busca ajudar no desenvolvimento educacional da região e servir como um polo turístico.

Denominado BINGO (Baryon Acoustic Oscillations from Integrated Neutral Gas Observations), o projeto visa, de forma simples, mapear a emissão de hidrogênio neutro no universo por meio de oscilações acústicas, e, por consequência, a distribuição de massa no cosmo. Assim, também poderia ser medida a contribuição da matéria e da energia escuras, sobre as quais a humanidade sabe muito pouco, apesar de ocuparem a grande maioria do universo. Descobrir no que consiste a parte escura do universo é um dos grandes problemas da física atual, e chegar a respostas poderia levar a uma reorganização de ideias no campo.

Outro ponto seria descobrir mais informações sobre as FRB (Fast Radio Bursts), grandes emissões de energia geradas a partir de objetos gigantescos muito distantes no espaço, que poderiam ter até massa (peso) de até mil trilhões de gramas – para efeito de comparação, meio grama de massa é capaz de gerar energia equivalente à da bomba atômica de Hiroshima, pela teoria da relatividade de Einstein. Por estarem muito distantes, a energia gerada por esses objetos cósmicos é detectada nos instrumentos humanos como apenas um pico durante milésimos de segundo. Embora até 500 FRBs tenham sido observados até agora, pouco se sabe sobre eles.

Em seu funcionamento, o radiotelescópio contará com duas parabólicas refletoras, uma principal e outra auxiliar, e um painel com dezenas de cornetas. A primeira parabólica captará sinais de rádio do espaço e os refletirá para a segunda parabólica, que os redirecionará para as cornetas – estas traduzirão em dados possíveis de serem analisados pelos cientistas, depois de serem retirados os ruídos ao passar por outros componentes. Outros quatro sistemas menores funcionarão como auxiliares, já que, apesar de terem acurácia menor, ajudarão por estarem em locais diferentes. O sistema eletrônico enviará as informações para pesquisadores ligados ao projeto, que estão espalhados pelo planeta inteiro – além dos da IF-USP, participam do projeto pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), no Brasil; da Yangzhou University e da Shanghai Jiao Tong University na China; da University of Manchester e da University College London do Reino Unido. Outras instituições colaboradoras são de países como França, Coreia do Sul, África do Sul, Itália, Espanha e Alemanha.

Apesar da colaboração estrangeira, boa parte dos componentes são fabricados no Brasil – as cornetas, por exemplo, são produzidas na Vila Ré, em São Paulo. Os instrumentos foram projetados em parceria entre os pesquisadores da USP e da Universidade de Manchester, e alguns dos espelhos em formato de pratos que serão usados na parte ótica, com construção particular, serão enviados da China. A estrutura da armação foi feita por engenheiros civis de São Paulo e por um grupo de engenharia de telescópios de uma companhia estatal chinesa, que tem sido um grupo colaborador do professor Abdalla. O incentivo a criações e à indústria nacional é citado por organizadores como uma das grandes vantagens do projeto.

A previsão é de que o radiotelescópio entre em comissionamento, ou seja, em fase de testes, até o fim de 2022, e de que os primeiros dados possam ser analisados a partir de meados de 2023. Segundo Abdalla, o projeto tem cinco etapas na questão científica, além das etapas de construção e de fabricação dos instrumentos: “A fase zero é a eletrônica, de projetar os equipamentos para os dados desejados, que já foi feita. A fase um são os dados crus, recebidos a partir do espaço. A dois será a análise desses dados. A três são a construção e análise de mapas do céu, para saber se é algo conhecido ou novo. A quatro é puramente teórica, a partir da contribuição real”, explica o físico. As eventuais descobertas devem ser publicadas em revistas científicas. Abdalla ainda espera que o telescópio seja capaz de varrer toda a extensão do céu, a partir de uma técnica já projetada. Assim, o projeto BINGO se aproximaria de outro parecido, o SKA, o maior telescópio do mundo, que fica na África do Sul e na Austrália, e se diferencia do CHIME, do Canadá.

Abdalla conta que o projeto foi para Aguiar, na Paraíba, após vários locais serem cogitados. “Queríamos uma latitude alta [ou seja, mais ao sul] para ter eliminação de ruídos. Buscamos no Uruguai, mas seria muito caro. Então, por decisão minha, tentamos no Brasil, e foram vistos locais em São Paulo, Rio Grande do Sul, e Brasília, onde não fomos por ruído de celular, e na Bahia e no Norte, onde desistimos por serem muito longe. Por fim, fomos para a Paraíba, onde encontramos locais sem ruído eletromagnético, e contamos com apoio institucional, primeiro da Universidade Federal da Paraíba, depois do governo estadual”, conta. O projeto também recebe apoio de instituições de fomento à pesquisa como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do governo de São Paulo, da Fapesq-PB, do governo paraibano, e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

OUTROS BENEFÍCIOS

O projeto também poderá ter importância econômica, através do turismo, educacional, e estratégica. Por monitorar o céu, o BINGO pode detectar fenômenos e realizar a observação de estrelas, pulsares e satélites, dando uma ideia mais detalhada do que está no espaço sideral acima do país; outra parte é focada em sensoriamento remoto, que visa obter informações da superfície terrestre a partir da radiação eletromagnética. Em relação ao turismo, Abdalla revela um pedido do governo paraibano. “Foi conversado com o governo para termos um local de visita. O telescópio de Arecibo, em Porto Rico, chegou a aparecer em séries e filmes e era bastante visitado [o prédio desabou em 2020]. É uma preocupação que está no escopo do projeto paraibano, e, de fato, o BINGO principal vai ter o tamanho de um estádio de futebol”, comenta o pesquisador.

No entanto, além da utilização científica, o cientista demonstra empolgação principalmente pela parte educacional. “A ideia é termos educação e ciência juntas, que é algo que o Brasil carece. Pretendemos alçar grupos locais a grupos de divulgação de ciência especialmente dentro de escolas de ensino médio na região da Paraíba, mas não só ali. Também teremos museus em funcionamento, com o que tem sido feito [no projeto] e levaremos essa ciência para as escolas. Tivemos uma conversa franca e produtiva com o secretário de educação da Paraíba [Claudio Furtado] para desenvolver esse tipo de educação. Terá todos os padrões de qualidade propostos pela Unesco”, projeta Abdalla. O físico ainda ressalta a importância da ciência para o desenvolvimento do Brasil. “Hoje, pessoas comuns vivem melhor que o Rei Luís XIV, da França [monarca absolutista que reinou no século XVII e XVIII] por causa da ciência. Vivemos mais e melhor por causa do desenvolvimento científico. Por isso, projetos científicos e educacionais são cruciais para o desenvolvimento do país, porque desenvolvem a cabeça do jovem para descobertas”, avalia.