Apesar das festas clandestinas e aglomerações, não há o que comemorar no Carnaval da pandemia

Prefeitos colocaram policiamento nas ruas para evitar eventos ilegais; para complicar o problema, ritmo da vacinação é lento no Brasil, e explicações do governo são estapafúrdias

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 15/02/2021 10h37 - Atualizado em 15/02/2021 13h23
Prefeitura do Rio de JaneiroSapucaí ficou iluminada em homenagem às vítimas da Covid e às escolas de samba

De qualquer maneira hoje, 15, segunda-feira, é Carnaval. Está no calendário. Mas onde estão os blocos de São Paulo, do Rio de Janeiro e de muitas cidades, nos quais milhares de pessoas se juntavam numa alegria que muitos dizem ser de mentira? Eu também acho, em parte. É como se tivéssemos um dia para ser feliz. Um dia oficial da felicidade. Mas não é assim. Este é o Carnaval da pandemia. O que há para comemorar? Comemorar a doença? Comemorar a tristeza de milhares de famílias que perderam alguém para a Covid? Não há o que comemorar. Mesmo assim, muitos fizeram festas neste final de semana, exaltando uma alegria que não existe. Uma alegria superficial, quase fingida. Em parte eu acredito nisso. Neste final de semana houve muitas aglomerações nos bares, clubes, praias. Qualquer lugar serviu. Onde está o Galo da Madrugada de Recife? Onde estão os bonecos de Olinda? E o Cristo Redentor colorido de braços abertos no Rio de Janeiro? O carnaval da pandemia é diferente. De qualquer maneira, hoje, 15, é dia do Carnaval que termina nesta terça-feira, 16. Depois, a Quarta-feira de Cinzas, quando as pessoas vão purificar suas almas dos pecados cometidos. Não dá para explicar isso. Na sexta-feira, 12, quando começou o Carnaval, a prefeitura do Rio de Janeiro mandou iluminar o sambóbromo onde todos os anos se realiza o maior espetáculo de música e dança do mundo. Uma iluminação permanecerá até sábado, 20, quando haveria o desfile das Escolas de Samba campeãs. A Marquês de Sapucaí e a Praça da Apoteose ficarão iluminadas em homenagem à memória dos mais de 230 mil mortos pela Covid no Brasil. A cada 10 segundos, a iluminação muda de cor, representando cada Escola de Samba do Rio. Foi uma cerimônia singela, triste e comovente também. O prefeito passou a chave da cidade do Rei Momo, cercado por suas princesas. E, a seguir, o Rei Momo, entregou a chave a duas enfermeiras representando os profissionais da saúde que lutam todos os dias contra a doença.

O prefeito Eduardo Paes afirmou que este Carnaval será dedicado a salvar vidas e prometeu que em 2022 o Rio de Janeiro realizará o maior Carnaval de toda sua história. Não houve aplauso. Nem caberia. Não há Carnaval, é verdade, mas mesmo assim o prefeito mandou policiar toda a cidade do Rio para evitar aglomerações especialmente nos bares. Em São Paulo, o Carnaval estava marcado para ser realizado no fim de maio, início de junho. Mas no sábado, 13, o prefeito Bruno Covas cancelou tudo. Um jornalista perguntou a Covas como seria a segurança em São Paulo, mesmo não havendo Carnaval, já que organizadores de muitos blocos prometeram que iam desfilar com pandemia ou sem pandemia. Covas foi rápido: “Isso é problema do governo do Estado, não da prefeitura”. Trinta mil policiais estão trabalhando na cidade para evitar aglomerações, com apoio de aeronaves, cavalaria e viaturas. Infelizmente isso se faz necessário, porque grande parte da população não colabora com nada. Pessoas que organizarem desfiles de blocos serão detidas e depois multadas pela Justiça. O Brasil ainda sofre os efeitos das festas de Natal e de Ano Novo. Epidemiologistas temem que ocorra o mesmo com o Carnaval. Sempre haverá aqueles que ignoram tudo, especialmente as determinações da ciência, expondo-se ao perigo e depois contagiando outras pessoas, preocupação de praticamente todo o país. Como ocorreu neste sábado, 13, numa praia no Rio Grande do Sul, onde mais de mil pessoas se reuniram para um carnavalzinho particular que acabou quando a polícia chegou. Para complicar, some-se a isso tudo o ritmo lento da vacinação no Brasil, uma coisa sem pé nem cabeça, com explicações estapafúrdias do governo que sinaliza sempre querer distância do problema.

O Programa Nacional de Imunizações do Brasil, reconhecido mundialmente, foi desmoralizado pela conduta daqueles que deviam agir com responsabilidade no enfrentamento à doença e não o fizeram. Pelo contrário. Em São Paulo, depois de seis meses em queda, os enterros de vítimas da Covid voltaram a subir, conforme dados sobre sepultamentos em cemitérios públicos, particulares e cremações do Serviço Funerário da Prefeitura de São Paulo. A Prefeitura paulistana contratou 30 novos sepultadores, além de dez carros a mais para ajudar no traslado. E neste domingo, 14, iniciou-se a segunda etapa da campanha “Vacina Sim!”, num vídeo no Fantástico, da TV Globo, com objetivo de conscientizar as pessoas sobre a importância da vacinação contra a Covid. Além de filmes, a campanha prevê utilizar também as mídias impressa e digital, além de postagens nas redes sociais. É uma maneira de enfrentar o negacionismo oficial que desacredita a vacina e  provoca medo na população. Coisa de gente que não presta. No Brasil, tem até campanha de vacinação, só não tem vacina. De qualquer maneira, hoje, 15, é segunda-feira de Carnaval. Mas não há Carnaval. Mesmo assim, nunca deixe de ter uma fantasia.