Deputados e senadores fingem ser representantes do povo, mas só representam a si mesmos

Em tempo de pandemia, parlamentares estão mais preocupados com as eleições no Congresso Nacional do que com os problemas da população

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 26/01/2021 14h45 - Atualizado em 26/01/2021 15h08
Luis Macedo/Câmara dos Deputados - 11/08/2020Atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (à esq.) quer impedir que Arthur Lira (à dir.) o suceda

Dizia-se antigamente que no Congresso Nacional estão os representantes do povo. Pelo menos é o que se dizia. Não sei ao certo se ainda é assim. Pelo que me parece, não é. O Congresso é uma coisa e o povo é outra. O povo sempre é outra coisa. Pode-se ver agora o tratamento que recebe neste tempo angustiante. É lamentável. Mas isso dá bem a ideia de quem são os chamados “representantes do povo”. Não são nada. Na maioria das vezes, são oportunistas profissionais, função que, no Brasil, passa de pai para filho (e a outros parentes). Me digam: o que as dificuldades do povo brasileiro interessam aos deputados e senadores da República neste tempo de pandemia? Nada. É como se não existisse pandemia nenhuma. Pior: é como se não existisse povo. Agora, os senhores parlamentares brasileiros estão preocupados única e exclusivamente com as eleições para a presidência do Senado e da Câmara Federal. Só isso, mais nada. É como se os brasileiros não existissem. Já se sabe que os candidatos apoiados pelo presidente Bolsonaro vencerão. Mas é preciso garantir esse resultado, e isso demanda muito trabalho, muitas conversas, jantares, reuniões, conchavos, manobras. Tudo isso dá muito trabalho. Sobre a pandemia, os dois candidatos do governo se limitam a dizer somente que os erros na pandemia são desculpáveis. Seriam, digamos, erros normais que ocorreriam em qualquer época. E só. A pandemia e o sofrimento do povo estão em segundo plano. O que está valendo mesmo é a política e os acordos de sempre para assegurar o poder. Por isso, já se diz abertamente em Brasília que esses erros cometidos, alguns grotescos, serão ignorados pelo Congresso Nacional em caso de alguma acusação contra o governo federal.

Pelo que consta, o Brasil ainda pertence ao mundo e conta com mais de 215 mil mortes por Covid-19. Mas isso não significa nada. Nem ao governo e muito menos ao Congresso Nacional, uma fábrica de negociação de favores e vantagens, oferecendo votos em troca de belos cargos. Somando, são 594 deputados e senadores. Qual deles está verdadeiramente preocupado com o que está ocorrendo na saúde pública do país? Qual? Já houve algum discurso da tribuna sobre isso? Os parlamentares mais interessados nesse jogo de poder são os do centro, centro-direita e da extrema direita. Basta dizer que, por interesses próprios, até o PT, que dizem ser o partido líder da esquerda no Brasil, se aliou a Bolsonaro. Por aí pode se medir o tamanho do interesse dessa gente. É absolutamente incrível que, mesmo com o descaso com que tratou e trata a pandemia, Bolsonaro elegerá seus candidatos e terá maioria no Congresso, que o livrará de qualquer circunstância adversa. Há ainda quem diga que Rodrigo Maia, atual presidente da Câmara, aceitará um pedido de impeachment antes de deixar seu cargo. Mas ainda não se tem certeza disso. No entanto, seria mais ou menos o que ocorreu com a presidente Dilma Roussef, quando o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cansado de apanhar do governo petista, colocou os pedidos de impeachment na mesa. E deu no que deu. Mas, nesse assunto, Rodrigo Maia é um túmulo. 

O Congresso tenta se defender das acusações de sua inércia. Recentemente, o senador Paulo Rocha, do PT, elogiou o trabalho do Senado e da Câmara durante a pandemia. Disse que os senadores e os deputados vêm aprovando projetos de lei que obrigam o governo federal a executar políticas adequadas para este momento de crise. Assinalou que o país é uma Federação que só funciona se o governo central funcionar. Observou que os projetos já aprovados no Congresso respondem à emergência em todos os setores. Citou como exemplo o auxílio emergencial, o apoio às pequenas e microempresas e aos profissionais liberais, além do socorro aos estados e municípios, aos profissionais da cultura e aos povos indígenas e quilombolas. O petista lembrou, também, o decreto de calamidade pública do Palácio do Planalto, que foi aprovado no Legislativo sem discussões. Com a decisão, a União ficou autorizada a elevar os gastos públicos e a não cumprir a meta fiscal prevista para 2020. 

O Congresso fez nada mais do que sua obrigação. A Câmara e o Senado são povoados, em sua maioria, por uma gente de outra casta. Esse assunto entrou na coluna porque as coisas todas se ligam hoje no Brasil. Os congressistas estão preocupados apenas com eles mesmos, com seus cargos e os cargos que darão de presente para seus apadrinhados. Para eles, a pandemia é coisa desconhecida. A votação na Câmara e no Senado é algo muito mais importante para o futuro do país, não é mesmo? Ou o futuro do governo? Na verdade, o que se vê é um quadro deprimente. E os deputados e senadores parecem viver em outro planeta, sempre fazendo manobras e pouco se importando com o país. Mas, no fundo, o exemplo vem de cima. Basta dizer que na sexta-feira, 22, diante de todas essas sombras, Jair Bolsonaro foi assistir e participar do treino do Flamengo no estádio Mané Garrincha, em Brasília. O presidente se divertiu muito. E assim vamos indo. Há, ainda, muito caminho a seguir.