Jair Bolsonaro e Paulo Guedes se amam, mas bastam 30 segundos para o ministro dar no pé

Apesar da troca pública de afagos, ministro demonstra seu descontentamento com a troca no comando da Petrobras e deixa claro que, se o presidente desejar, pode demiti-lo sem ressentimentos

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 03/03/2021 14h13
Gabriela Biló - Estadão Conteúdo - 16/07/2019Paulo Guedes, que já foi chamado carinhosamente de "PG" por Jair Bolsonaro, não gostou da troca na Petrobras

O ministro da Economia, Paulo Guedes, está sempre saindo do governo. Está à beira de um abismo. Um dia ele pula ou sai voando. Qualquer coisa que ocorra, já falam na saída do ministro. Já está costumado e diz ser “demissível em 30 segundos”. Não precisa mais tempo que isso. Basta apenas pedir que ele sai do Palácio do Planalto e vai para casa descansar desta rotina que representa uma tortura que poucos suportariam. Mas tem uma coisa: Guedes só sai se o presidente Jair Bolsonaro mandar. Não adianta um bom número de desafetos que tem dentro do próprio governo fazer pressão. Nesta terça-feira, 1º, o economista participou de várias cerimônias, todas documentadas em vídeos com horários garantidos na televisão. Em todas, ele arriscou dizer que conta com a confiança de Bolsonaro, mas que existem, sim, muitos fatos para ele deixar o governo.

Nesta mesma terça-feira o ministro falou à Jovem Pan, no programa “Os Pingos nos Is”. Mostrou-se tranquilo. Até falou sobre um assunto indigesto que quase o fez deixar o governo: a troca do presidente da Petrobras. Foi duro engolir, mas engoliu. Disse que o efeito econômico foi péssimo, mas que o presidente tem suas preferências e é preciso respeitá-lo. Paulo Guedes adiantou que avisou o próprio Bolsonaro que a petrolífera continua uma empresa estatal e que o preço dos combustíveis é internacional. Mas, para o povo, a culpa será sempre dele. O Posto Ipiranga afirmou que a economia e a saúde andam juntas, por isso ele defende o repasse de verbas para que o país possa realizar sua vacinação em massa contra a Covid-19. Estava ali um ministro tranquilo, dono de sua palavra. No entanto, é um funcionário que está pronto para sair do governo a qualquer momento. Na verdade, essa conversa já se transformou numa ladainha de lamentações sem fim.

Seja como for, Guedes deve saber que tudo tem um limite. O ministro observa que, enquanto sentir que está ajudando o Brasil, vai continuar fazendo as coisas em que acredita, acentuando que “ofensas não o tiram do cargo”. Assinala ainda que o vento, a chuva, o medo, o combate, nada disso fará com que se afaste do governo. Melhor dizendo: se Bolsonaro quiser, ele sai em 30 segundos sem criar problema com ninguém. Essas intrigas já vêm de longe. O ministro já foi ofendido pelo presidente publicamente várias vezes, mas basta um afago que tudo fica bem. Por isso que o amor é lindo. Guedes adianta que nunca empurrará o Brasil para o caminho errado. Se tiver que fazer isso, prefere ir embora. O chefe da Economia se refere à decisão de Bolsonaro anunciar que o general Joaquim Silva e Luna será o novo presidente da Petrobras no lugar de Roberto Castello Branco, que foi uma indicação do ministro. Claro, o mercado colocou um pé atrás no que diz respeito à política de preços da empresa. E Bolsonaro, do alto de sua sabedoria, vai combater o que ele chama de aumentos abusivos dos combustíveis. Mas o Paulo Guedes ainda tem liberdade de dizer, dentro do governo, que do jeito que as coisas andam no Brasil, bastam seis meses para virar uma Argentina e um ano e meio para se transformar numa Venezuela. E mais: Quer virar uma Alemanha ou os Estados Unidos? Nesse caso serão necessários de 10 a 15 anos. Basta escolher a direção.

Logicamente que essa não é uma conversa agradável para Bolsonaro. Com sua maneira de ser, o presidente gostaria mesmo de responder naquela base já bastante conhecida dos brasileiros. Pior é que Bolsonaro promete mais mudanças sem consultar seu ministro da Economia. Uma frase de Michel De Montaigne (1533-1592) serve bem para ilustrar este texto: “Só os loucos têm certeza e não mudam de opinião”. É assim mesmo. Palavras mágicas. O ministro Paulo Guedes, por seu lado, não esconde de ninguém que se sente decepcionado com alguns projetos que não foram para frente, especialmente o das privatizações. Diz sempre que tudo que está aí é coisa do passado. O pais precisa se renovar. Na questão da presidência da Petrobras, sabe-se que Guedes sentiu o golpe e demonstrava somente pela cara. O dia que discutir, será o dia do adeus.

Bolsonaro e Guedes não chegam a ser inimigos cordiais. Eles se amam. Tanto que o presidente chamou o ministro carinhosamente de “PG”. Não é para qualquer um. E o economista se sente à vontade ao dizer que, se precisar deixar o governo, “é coisa para 30 segundos”. Claro que é um recado de leve. E claro que o presidente sabe, mas finge que não. Numa reunião ministerial recente, o chefe do Executivo tocou no assunto da Petrobras dizendo que o ministro reagiu com “galhardia”. E assim a coisa vai seguindo, aos tropeços. Bolsonaro não respeita ninguém. Mesmo assim, tem sempre uma palavra de simpatia por Paulo Guedes, um agrado, como dar um doce a uma criança. E o ministro, surpreendentemente, aceita esse jogo. Por enquanto, na beira desse abismo que é o governo, ele não sabe se pula ou se sai voando.