Na falta de uma liderança nacional para lidar com a pandemia, cabe à população cuidar de si mesma

Enquanto os números da Covid-19 se agravam em todo o mundo, cientistas afirmam que as pessoas se cansaram; mortes parecem não preocupar mais ninguém, além daqueles que perderam seus familiares

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 22/12/2020 12h49 - Atualizado em 22/12/2020 12h58
ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDOAglomeração no centro de São Paulo

O Comitê da Saúde do governo de São Paulo vai se reunir nesta terça-feira, 22, para decidir que rumo tomar com os números preocupante dos doentes vítimas da Covid-19 que aumentam cada vez mais. E agora até as crianças estão sendo atingidas. Não se fala, ainda, que a situação está fora de controle. Mas não é preciso pensar muito para chegar-se a essa conclusão, infelizmente. Será uma batalha pedida? Quem, em sã consciência, poderá dizer que não? Seja como for, resta-nos a vacina, que, no Brasil, como tudo, tem merecido discussões que não terminam nunca, com as tais autoridades tantas vezes se revelando distante de uma questão tão grave. Não poderia ser diferente num país em que os que deveriam comandar a população fazem questão de demonstram profundo descaso com a doença e com a vida. Agora só se fala na vacina. Vacina, vacina, vacina. Mas, onde está a vacina que não chega nunca.

Desde o início da pandemia, o Brasil registra a maior média de novos casos da Covid-19, chegando a quase 48 mil infecções por dia. E nesse número não estão computados os diagnósticos de São Paulo e Goiás. Esses dados foram informados pelas secretarias estaduais de Saúde, fornecidos ao consórcio de veículos de imprensa do país. Em outras palavras, o Brasil parece ter começado tudo de novo dentro da própria pandemia. É um dado assustador. A média de mortes por dia no Brasil chegou a 765, o que significa 27% a mais em comparação de 14 dias atrás. Isso indica que esse número vai aumentar mais, com as festas de fim de ano. A população parece ter esquecido da pandemia. Nos centros de compras em São Paulo, por exemplo, milhares de pessoas se juntam sem qualquer preocupação com distanciamento social e mesmo com o uso da máscara. Além do Distrito Federal, apresentam alta nas infecções pelo vírus os estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Pará, Roraima, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Sergipe, São Paulo e Goiás. O Brasil conta hoje mais de 187 mil mortos.

Tudo indica que nada valem os alertas feitos a todo momento nos veículos de comunicação, apelando para que a população não se aglomere, a maneira mais fácil de ser contaminado pelo vírus. Nada adianta. Basta ver o comércio de rua com o de São Paulo. As pessoas mal conseguem se mover, espremidas umas às outras. E as praias? Citando somente as do Rio de Janeiro e São Paulo vê-se a que ponto chegou população. Um palmo de areia é disputado até com discussões. Talvez a população queira dizer que não é maricas. Sai para se divertir mesmo. E some-se a isso os bares, tomando por base São Paulo. É impossível imaginar que naquela baderna alguém se lembre que estamos vivendo uma pandemia perigosa que mata. A ordem é mesmo se divertir e beber à vontade. E as festas com mais de 600 pessoas aglomeradas bebendo distante de qualquer receio? Festas em todo lugar. E está exatamente aí o aumento dos casos diagnosticados com o vírus. Quase ninguém quer ser perturbado no seu lazer. Convém lembrar que o verão começou nesta segunda-feira, 21, prometendo um período esplendoroso, não fosse a pandemia. Pandemia? Isso pouco importa. O que importa mesmo é que o verão começou. As praias do país terão um esquema de segurança para proteger as pessoas na estação mais quente do ano, com o mar à frente. Mesmo com o aumento do número de mortes, neste final de semana as praias estavam lotadas em todo o país. Quem ficará em casa com um verão desse tamanho batendo na janela? Quem? Contam-se nos dedos. A maioria vai mesmo sem cuidado algum, colocando sua vida e a vida de outros em risco. É o prazer do imediatismo. Tudo tem que ser agora.

O verão da pandemia promete, infelizmente, muitos dissabores. Psicólogos arriscam dizer que a população cansou da quarentena. E cansou também de ouvir, ler e ver na televisão tanta notícia sobre a pandemia, todas elas sombrias, não há como escapar. Estudo recente desenvolvido por cientistas espanhóis serve bem para ilustrar a paisagem brasileira no verão. Os especialistas encontraram uma relação entre as altas temperaturas e uma menor propagação do vírus. Mas, apesar dessa relação, o verão não terá força suficiente para travar a pandemia. Esperava-se que o calor iria diminuir a resistência do vírus. A Agência Estatal de Meteorologia da Espanha, depois de longos estudos, entregou os pontos, tendo por base os antecedentes históricos e o que está ocorrendo atualmente na Europa e no resto do mundo. Em outras palavras, o verão não tem condições de barrar o vírus que continuará a fazer vítimas no mundo inteiro. E pior: a umidade do ar pode influenciar a transmissão da doença, dependendo do lugar onde estejam as pessoas aglomeradas.

A verdade é que a doença se agrava. E se agrava muito. No Brasil e no mundo. Países europeus estão tomando medidas radicais para conter o vírus que a cada dia atinge mais pessoas e, quase todas, em aglomerações e na falta do uso da máscara. Em São Paulo está acontecendo o pior: crianças de zero a nove anos estão sendo hospitalizadas em um número preocupante, até porque estimava-se até há pouco que a criança estaria livre da doença. Tem razão o infectologista Marco Safadi que falou à Jovem Pan que o aumento de casos da Covid-19 em crianças reflete a alta registrada na população. Disse que, se há um aumento no número de casos e no número de hospitalizações, isso significa que todos os grupos correm perigo de infecção. Sendo assim, não será diferente em relação às crianças.

Para se ter uma ideia mais precisa, basta dizer que em um mês, o número de mortes pela Covid-19 em São Paulo aumentou 34%. Nesse mesmo período, os casos de contaminação cresceram 54% e as internações subiram 13%. O Comitê de Saúde do governo de São Paulo vai se reunir nesta terça-feira, 22, para analisar esses números que preocupam. O Secretário da Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn fala que a população tem que respeitar a quarentena. Afirma que todos estão esgotados, mas a pandemia continua firme fazendo vítimas todos os dias. Em média, as mortes em todo o Estado somam atualmente 155 por dia. E a ocupação de leitos de UTI tem aumentado progressivamente. E assim tem sido praticamente em todo o país. A população parece mesmo ter se afastado das medidas de proteção e se expõe cada vez mais. A doença parece ter caído no descrédito, apesar de todo o noticiário mundial a respeito. Cientistas de todo mundo afirmam que as pessoas cansaram. O período de Natal e de Ano Novo seria uma prova significativa para medir o comportamento da população. O que está se vendo é o caos. O número de mortes parece não preocupar mais ninguém, fora da família da vítima. Aquele sentimento de alguma solidariedade não existe mais. É cada um por si mesmo. E assim, tudo indica, caminhamos em direção ao abismo. A batalha contra o vírus é todos os dias. E tudo indica que a batalha está sendo perdida. Na falta de uma liderança nacional para lidar com essa guerra, cabe à população cuidar de si mesma. Mas, infelizmente, a população parece estar distante dessa discussão sobre a vida de cada um.