Reunião de Bolsonaro com embaixadores pegou mal, virou manchete internacional e gerou reação do mundo político

Grupo de mais de 40 procuradores pediu ao procurador-geral da República, Augusto Aras, que o presidente seja investigado por ‘afrontar e aviltar a liberdade democrática’

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 19/07/2022 18h15
Alan Santos/PR - 18/05/2022 Jair Bolsonaro Reunião do presidente Jair Bolsonaro ocorreu na segunda-feira, 18, e teve transmissão da estatal TV Brasil

Pegou mal. Desta vez foi além do que se podia imaginar, mesmo diante de tudo que já se viu e está se vendo neste país. A política é mesmo um jogo sujo. Pegou mal. A fala do presidente Jair Bolsonaro (PL) aos embaixadores, na segunda-feira, 18, criticando as urnas eletrônicas, desta vez virou até manchete internacional. Além da mesma conversa contra as urnas, o chefe do Executivo federal emendou seu palavreado contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Aquela coisa de sempre. O jornal britânico “The Guardian” escreveu que o sistema de votação no Brasil é utilizado desde 1996 e nunca ninguém reclamou de nada, assinalando que as críticas do líder da extrema-direita brasileira são infundadas e põem em risco as eleições de outubro. O “The New York Times”, por seu lado, classificou a conversa com os diplomatas como uma estratégia pela a eleição que ele vai perder, como dizem as pesquisas eleitorais. O jornal americano ainda comparou a conduta de Bolsonaro à de Donald Trump, que desacreditava as eleições nos Estados Unidos. Já o “The Washington Post” publicou que Bolsonaro não apresentou nenhuma evidência de suas afirmações, indicando que o presidente está preparando um clima para rejeitar o resultado da eleição.

Pegou mal. Desta vez foi demais. O presidente convidou os diplomatas estrangeiros para falar mal do país que ele preside. Mais de 40 membros do Ministério Púbico Federal (MPF) afirmaram no início da noite desta terça-feira, 19, que Bolsonaro pode ter cometido crime eleitoral e abuso de poder. Pediram à Procuradoria Geral da República (PGR) uma investigação sobre a conduta do mandatário do país. Mas todo mundo sabe que coisas assim não significam nada, já que o procurador-geral, Augusto Aras, põe tudo na gaveta. Não é flor que se cheire. A maior parte dos embaixadores que participaram da reunião não ficou convencida com as acusações de Bolsonaro. Quase todos farão um relatório aos seus governos dizendo que Bolsonaro fala, fala, volta a falar, repete, critica, critica, mas não apresenta nenhuma prova de tudo que vem dizendo. Muitos diplomatas que falaram ao jornal O Globo chegaram a dizer que estão preocupados com a democracia no Brasil e que o presidente deixou claro que vai questionar o resultado da eleição presidencial, caso perca para Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Afirmaram, ainda, que essa desavença de Bolsonaro com o STF e o TSE tem um forte componente político. Por fim, assinalaram que os ataques do presidente chegaram a causar profundo constrangimento, especialmente as críticas nominais aos ministros Edson Fachin, Luis Roberto Barroso e Alexandre de Moraes. Resumindo a história, os embaixadores presentes à reunião afirmaram que Bolsonaro representa uma ameaça para a democracia brasileira.

As declarações do presidente Jair Bolsonaro foram consideradas um desastre completo. As palavras mais usadas depois da reunião foram “mentiras” e “golpismo”. Durante a reunião, Bolsonaro negou que esteja preparando um golpe. Se está, evidentemente ele não falaria. Ao mesmo tempo, parlamentares da oposição avaliam que o presidente cometeu o crime de “abolição violenta ao Estado Democrático de Direito”. E diante disso, já pediram que o STF  investigue Bolsonaro. Chega de criticar o processo eleitoral e as urnas eletrônicas. Ninguém sabe ao certo o que de fato está por trás dessa conduta. A oposição diz que essa reunião com os embaixadores representa um “crime de lesa-pátria ou de traição contra seu povo”. Alguns deputados afirmam que desta vez a fala de Bolsonaro foi muito além do suportável, expondo seriamente a imagem do Brasil no cenário internacional. Já a equipe da campanha está desistindo de fazer Bolsonaro a abandonar seu discurso de ódio. Não se trata de uma invenção de opositores. As pesquisas mostram isso abertamente. Só o presidente não vê e insiste nessa linguagem, inflamando cada vez mais o clima que já produziu um crime político em Foz do Iguaçu. Cada palavra de Bolsonaro é um incentivo a essa violência que se acentua cada vez mais a cada dia. Pegou mal.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.