Precisamos de alguém para nos sentirmos alguém?

De repente, fiquei confortável em ser eu

  • Por Bia Garbato
  • 20/02/2026 08h30 - Atualizado em 10/04/2026 22h23
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Myke Simon/Unsplash cinema

Eu nunca gostei de ficar sozinha. Um tempo atrás, me divorciei. Ficar solteira aos 40 anos tem algumas peculiaridades. A primeira é que a gente fica mais perdida do que daminha de honra em pista de casamento. É um misto de emoções e questionamentos: “O que eu gosto? Pra onde eu vou? Pra quem eu ligo uma hora dessas? Como é que funciona esse tal de Tinder mesmo?”. O mais dolorido é o inevitável medo de ficar sozinha.

Depois de um período de adaptação – tentando lembrar que eu me chamava Bia e descobrir o que ela queria – veio a fase da curtição. Como não fui a única a me separar depois da pandemia, não me faltaram amigos avulsos para tomar um chopp na quarta-feira, quando meu filho está no pai, e ainda terminar no forró.

Em determinado momento, comecei a trocar o bar por Emily em Paris, experimentei e não gostei do aplicativo de namoro e, finalmente, me deu vontade de ver o Wagner Moura brilhar no cinema, dividindo a pipoca amanteigada com alguém que eu ainda não sabia quem era.

Em noites solitárias, batia papo com as minhas amigas no viva-voz enquanto arrumava a gaveta de Tupperware. Pedi ao iFood combinados apenas de salmão maçaricado e, finalmente, assisti mais uma vez Cinquenta Tons de Cinza, em vez de Star Wars.

Fui arrastada para festas onde não dava para distinguir casais, homens com outras preferências e solteiros disponíveis. O problema das baladas é que a paquera funciona à base da aparência, por isso, atrás de lindos olhos azuis pode ter uma alma duvidosa, e no fundo de olhos castanhos “normais”, uma personalidade fascinante.

Foi sentada no sofá, numa consulta on-line para labirintite, que meu otorrino, 15 anos mais velho, me passou uma “cantada” (era assim que se falava no tempo dele). Eu resisti, mas o cara era simpático, médico, atlético e tudo de bom que rimava com “ético”. Começamos a namorar.

Descobri que relacionamentos maduros vêm com alguns desafios: além da nossa maneira de ser já estar consolidada e as adaptações ficarem mais difíceis, filhos e ex-cônjuges entram na equação. Durou o tempo que tinha que durar e, talvez pela minha inexperiência amorosa naquele momento (depois do divórcio a gente vira pré-adolescente de novo), fiquei mal. Até borrei o rímel enquanto comia Bacio di Latte no pote (chega uma idade que Chicabon não é mais o caso). A verdade é que o que doeu mesmo foi o medo de ficar sozinha, que voltou ainda mais forte.

Um dia, fui buscar meu filho na escola e dei carona para seu amigo novo. Como o pai dele também era separado, os dois armaram de nos juntar, com a ideia de ganhar um “irmão” para jogar videogame. O pai era interessante, apesar de só termos em comum o gosto por música sertaneja. Mas uma coisa que não está nem aí pra razão se sobrepôs às diferenças: a paixão. Começamos a namorar. Sabe Deus quantas crônicas e poemas apaixonados escrevi pra ele.

É claro que não foi o fato de eu adorar sushi e ele preferir churrasco. Ou de ele amar moto e eu morrer de medo de andar de bicicleta. A verdade é que, de improváveis, fomos ficando incompatíveis. Acabou.

Me dei conta de que, desde o fim do meu casamento, fiquei muito pouco sozinha. E, quando fiquei, o tal receio da solidão me acompanhou.

Outro dia ouvi que eu estava com um brilho diferente no olhar. A questão não é que os relacionamentos me apagavam. A novidade é que, pela primeira vez, não preciso mais me enxergar no reflexo de outros olhos para existir. O medo de ficar sozinha virou vontade de experimentar estar comigo mesma.

Domingo agora, fui ao cinema com apenas um ingresso na mão e descobri que posso ser uma ótima companhia. Confirmei que a vida tem mesmo muito mais graça quando estamos apaixonados. E essa pessoa pode estar mais perto do que você pensa: no espelho do seu banheiro.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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