Pequenas culpas do dia a dia
Já meditou hoje?
É inevitável: todo mundo carrega alguma culpa na vida. Afinal, seres humanos erram e, eventualmente, se arrependem.
Mas, se você prestar atenção, existem pequenas culpas que nos assolam todos os dias e nos dão a sensação de que estamos sempre devendo. Você sabe como é e eu posso provar.
Você escova os dentes do jeitinho que seu dentista te ensinou? Passa o fio dental após cada refeição, sem esquecer do lanche? Não, né? Nem eu. Aí, durante uma limpeza nos dentes, seu dentista solta: “Você está com bastante tártaro, tem que melhorar a escovação”. Ao final da faxina, ele leva uma escova suíça à própria boca e, com as cerdas secas, faz movimentos simples, porém complexos (uma das incoerências da vida). Você vai pra casa, tenta reproduzir, desloca o pulso e, pouco tempo depois, desencana. A partir daí, toda vez que você lixar os dentes depois do almoço, no fundo, saberá que não está fazendo do jeito “certo” e que, se sua boca for dominada por placas bacterianas, a culpa será sua. Então, cuidado, porque se esse pensamento te dominar, você vai ter até vergonha de se olhar no espelho.
E os cremes? Não estou falando de passar um hidratantezinho no corpo depois do banho, isso a gente já se conformou. Estou falando de não esquecer de passar o creme para as olheiras, para o pescoço, para os cotovelos, para as mãos e até para os pés (reparador de calcanhar). Sem contar os “antis”: anti-rugas, anti-manchas, anti-idade, anti-vida. O pior é que, muitas vezes, eles só servem para nos melecar. Aí você chega em casa cansada (ou bêbada) e se joga na cama. Antes de se entregar a Morfeu, você se lembra de que tem que passar os benditos – ou malditos – cremes. Você visualiza a cara da dermatologista e ainda pensa no preço dos produtos. Até que toma uma difícil decisão: liga o foda-se e capota. Fez muito bem, mas pode saber: mais uma culpinha foi passada na sua alma.
Se fazer exercício fosse fácil, se chamava massagem. Não tem nada que gere mais culpa num ser humano do que faltar à academia. Quanto mais a gente arruma justificativas – “Ih, acho que estou ficando gripada, é melhor deixar o corpo descansar” ou “Meu ombro acordou doendo, é bom não fazer esforço” – mais o diabinho sopra na nossa mente: “Eu e você sabemos que é preguiça, né?”. O resultado é que a culpa domina até nossos músculos.
No meu caso, a coisa perdeu o controle: tenho que fazer exercícios para evitar a labirintite (depois não reclama se ficar tonta), exercícios respiratórios para fortalecer o pulmão (ou quer ter asma?) e para a ATM (nome chique para o maxilar). Tudo isso três vezes ao dia. Quando eu estava pensando como dar conta dessa maratona, o doutor completou: no mínimo, tá?
Desculpe o trocadilho, mas alimentação é um prato cheio para culpa. Exagerou no churrasco? Culpa. Comeu um docinho na quarta à tarde? Culpa. Pastelzinho na feira? Culpa. Até aí, está fácil de entender: fugiu da dieta, olhou pro pneu, pesou a consciência (e a balança). Mas o que está pegando agora são orientações nutricionais específicas que nos fazem acreditar que, se não forem seguidas, vão gerar consequências praticamente fatais. Exemplifico: leite? Inflama. Glúten? Inflama. Salsicha? Dá até pus. Então, você passa a fazer supermercado no Mundo Verde (e sua conta passa a ficar no vermelho). Aí, um dia você está passeando em NY, cola num food truck e manda um hot dog with extra cheese. Quando já está quase se sentindo em carne viva por dentro, pensa baixo: estou de férias, que se dane. Ótimo, mas já sabe: mais uma culpinha foi marcada no seu passaporte.
Só pra te dar uma culpadinha final: tem usado o Invisalign 27 horas por dia? Tomou o Ômega 3 junto com uma refeição gordurosa? Qual foi o último livro que você leu? E o mais importante: já meditou hoje?
O fato é que, mesmo que a gente tenha que ir mais frequentemente ao dentista, que uma noite sem o creme anti-idade antecipe alguma ruga (o que eu duvido) ou que tenha que caprichar na dieta na volta das férias, o importante é não esquecermos da hora de relaxar. Nem que seja preciso botar um alarme pra nos lembrar.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.
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