Calor extremo e tempestades podem virar adversários da Copa do Mundo de 2026

Além do desconforto, cientistas alertam que eventos climáticos extremos estão se tornando mais frequentes e podem afetar diretamente o cronograma do torneio

  • Por Eliseu Caetano
  • 29/05/2026 08h29
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CHARLY TRIBALLEAU / AFP MetLife Stadium O New York New Jersey Stadium (temporariamente renomeado de MetLife Stadium) é visto antes da Copa do Mundo FIFA de 2026 em East Rutherford, New Jersey, em 26 de maio de 2026. (Foto de CHARLY TRIBALLEAU / AFP)

A bola ainda nem rolou, mas a próxima Copa do Mundo já tem um adversário apontado por especialistas: o clima. A combinação entre calor intenso, umidade elevada, tempestades elétricas e até fumaça de incêndios florestais pode provocar atrasos, interrupções e desafios inéditos para jogadores, torcedores e organizadores durante o torneio que será disputado entre 11 de junho e 19 de julho em Estados Unidos, Canadá e México.

O problema não é novo para quem conhece o verão norte-americano. Em várias cidades que receberão partidas, temperaturas acima dos 30°C costumam ser rotina — muitas vezes acompanhadas por níveis altos de umidade que aumentam significativamente a sensação térmica e dificultam a recuperação física.

Além do desconforto, cientistas alertam que eventos climáticos extremos estão se tornando mais frequentes e podem afetar diretamente o cronograma do torneio.

Paralisação por horas

Nos Estados Unidos, protocolos esportivos determinam interrupção automática de eventos ao ar livre quando há registro de raios dentro de um raio aproximado de 13 a 16 quilômetros do local da partida.

A regra prevê uma pausa mínima de 30 minutos. O problema é que cada novo raio reinicia essa contagem — o que pode transformar uma interrupção rápida em horas de atraso.

O alerta ganhou força depois do que aconteceu no Mundial de Clubes de 2025, considerado um teste operacional para a Copa: seis partidas sofreram atrasos relevantes por causa das condições meteorológicas.

Especialistas temem que episódios assim se repitam com mais frequência. Segundo a pesquisadora climática Kelsey Malloy, o aquecimento global ainda não permitiu identificar uma tendência definitiva no comportamento dos raios, mas existe expectativa de aumento em determinadas regiões.

Ela explica que temperaturas mais elevadas costumam intensificar correntes ascendentes de ar e aumentar o volume das chuvas — condições que favorecem maior eletrificação das nuvens e, consequentemente, mais descargas elétricas.

Outro ponto de atenção é que o risco nem sempre é visível. Mesmo sem chuva sobre o estádio, raios podem atingir áreas localizadas a vários quilômetros da tempestade principal.

Estádios fechados

Para diminuir os riscos, a FIFA selecionou alguns estádios com cobertura retrátil, climatização ou ambos. Entre eles estão arenas em Atlanta, Dallas, Houston, Los Angeles e Vancouver.

Mas boa parte dos jogos continuará sendo disputada em estádios totalmente abertos — o que mantém o torneio exposto ao clima.

Também existe preocupação com a qualidade do ar. Incêndios florestais recorrentes em partes do Canadá e do oeste americano já afetaram grandes eventos esportivos nos últimos anos e podem voltar a gerar restrições.

Desempenho e saúde

Se as tempestades preocupam pela logística, o calor preocupa pelo impacto físico. Durante o Mundial de Clubes do ano passado, diversas partidas aconteceram com temperaturas superiores a 32°C e sensação térmica ainda maior por causa da umidade.

Um estudo recente de cientistas climáticos concluiu que cerca de um quarto dos jogos da Copa pode ocorrer sob condições classificadas como de “calor extenuante”. Entre eles estaria inclusive a decisão do torneio, marcada para o MetLife Stadium.

Para tentar reduzir riscos, a FIFA prevê pausas obrigatórias para hidratação em cada tempo das partidas. Mesmo assim, o médico e pesquisador Chris Mullington alerta que alguns atletas talvez não consigam manter o nível de intensidade física habitual.

Para o público, o cenário pode ser ainda mais delicado. Torcedores expostos ao sol por horas — especialmente aqueles que consumirem bebidas alcoólicas — podem apresentar maior risco de desidratação, tontura, fadiga, queda de pressão e agravamento de condições médicas pré-existentes.

Recentemente, um grupo de jogadores profissionais e ex-atletas liderado por Morten Thorsby entregou uma petição à FIFA pedindo mudanças nos protocolos de estresse térmico para a Copa de 2026. No documento, eles afirmam que o calor extremo pode provocar confusão mental, exaustão, cãibras e, em casos mais graves, emergências médicas.

A preocupação vai além do futebol: a Copa do Mundo de 2026 pode acabar se tornando um dos maiores testes já realizados para eventos esportivos em uma era de mudanças climáticas.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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