PCC e CV: a disputa silenciosa que começou depois da classificação dos EUA

Por trás de todas as reaçõe públicas, uma transformação menos visível começou a acontecer

  • Por Eliseu Caetano
  • 29/05/2026 08h55
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Reprodução da Internet Faixas do PCC

Quando os Estados Unidos anunciaram a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, a reação imediata foi previsível.

Parte da classe política comemorou. Outra parte criticou. Especialistas passaram a discutir os critérios jurídicos da decisão. Diplomatas analisaram as consequências para as relações entre Brasil e Estados Unidos.

Mas, por trás de todas essas reações, uma transformação menos visível começou a acontecer.

A partir do momento em que Washington decidiu enquadrar PCC e Comando Vermelho dentro da estrutura internacional de combate ao terrorismo, abriu-se uma disputa que vai muito além das facções criminosas. É uma disputa sobre quem define a natureza do problema.

Durante décadas, o Brasil construiu sua estratégia de enfrentamento ao PCC e ao Comando Vermelho dentro da lógica do combate ao crime organizado. Essa abordagem influenciou leis, instituições, operações policiais, investigações financeiras e mecanismos de cooperação internacional.

A ideia central era relativamente simples: tratava-se de organizações criminosas que buscavam lucro, controle territorial e expansão de mercados ilícitos. Os Estados Unidos passaram a utilizar uma definição diferente.

Ao enquadrar essas facções dentro do universo do terrorismo internacional, Washington não está apenas adotando um novo rótulo. Está adotando uma nova estrutura de interpretação. E estruturas de interpretação costumam produzir consequências práticas.

Quando um problema é definido como crime organizado, determinadas instituições assumem protagonismo. Quando o mesmo problema é definido como terrorismo, outras instituições ganham espaço.

Novos instrumentos legais surgem. Novos mecanismos de cooperação internacional são ativados. Novas prioridades passam a orientar a atuação dos governos.

Por isso, a questão mais relevante talvez não seja apenas saber se PCC e Comando Vermelho se encaixam ou não em uma determinada definição jurídica. A questão é entender como essa nova classificação poderá influenciar o modo como o problema será tratado daqui para frente.

Essa discussão se torna ainda mais importante porque PCC e Comando Vermelho já não são fenômenos exclusivamente brasileiros.

As investigações dos últimos anos mostraram a presença das facções em rotas internacionais de tráfico, esquemas de lavagem de dinheiro, redes logísticas transnacionais e operações que atravessam fronteiras. Isso significa que o desafio deixou de ser apenas nacional.

O enfrentamento dessas organizações depende cada vez mais de cooperação internacional. Ao mesmo tempo, toda cooperação internacional envolve uma negociação permanente entre interesses nacionais e interesses externos.

É justamente nesse ponto que surge uma questão estratégica para o Brasil. Como ampliar a cooperação contra organizações criminosas transnacionais sem abrir mão da capacidade de definir suas próprias prioridades?

Não existe uma resposta simples.

Nenhum país combate sozinho redes criminosas globais. Mas também é raro que Estados aceitem passivamente interpretações construídas por outros governos sobre problemas considerados centrais para sua segurança interna.

Por isso, o anúncio americano talvez represente mais do que uma nova etapa no combate ao PCC e ao Comando Vermelho. Ele pode marcar o início de uma nova fase nas discussões sobre segurança, cooperação internacional e soberania.

Porque, no fundo, a classificação das facções como organizações terroristas não altera apenas a maneira como os Estados Unidos enxergam esses grupos.

Ela também obriga o Brasil a refletir sobre uma pergunta mais ampla: Quem define as categorias usadas para explicar as ameaças contemporâneas? A resposta para essa pergunta pode ter efeitos que vão muito além do PCC e do Comando Vermelho. Pode influenciar a forma como o país se relaciona com seus parceiros internacionais, organiza suas políticas de segurança e constrói sua própria visão sobre os desafios que enfrenta.

E é justamente por isso que a discussão iniciada agora provavelmente continuará relevante muito depois de desaparecer das manchetes.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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