Suprema Corte dos EUA mantém acesso à pílula abortiva e impõe derrota a conservadores
O caso atual começou após uma ação movida pelo estado da Louisiana
A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu preservar o acesso à mifepristona, medicamento utilizado na maioria dos abortos realizados nos Estados Unidos. A decisão impede, por enquanto, que entrem em vigor restrições defendidas por estados conservadores e mantém válidas as regras atuais da Food and Drug Administration, que permitem a distribuição do remédio por farmácias e pelo correio, sem necessidade de consulta presencial.
Na prática, mulheres continuarão podendo receber a medicação via telemedicina ou delivery farmacêutico enquanto o caso segue na Justiça, uma disputa que pode durar meses e voltar novamente à Suprema Corte em 2027.
A decisão tem impacto nacional porque a mifepristona se tornou peça central do acesso ao aborto nos Estados Unidos desde a derrubada da histórica decisão Roe v. Wade, em 2022.
Hoje, segundo dados do Instituto Guttmacher, cerca de 63% dos abortos realizados no país são medicamentosos – a maior taxa já registrada nos Estados Unidos. Em 2024, foram estimados mais de um milhão de abortos no país, e a maioria utilizou a combinação de mifepristona e misoprostol.
A mifepristona foi aprovada pela FDA no ano 2000 e é considerada segura e eficaz por entidades médicas americanas e internacionais. Estudos citados pela própria agência reguladora mostram que complicações graves ocorrem em menos de 1% dos casos.
Mesmo assim, o medicamento virou alvo de uma intensa disputa política e jurídica liderada principalmente por estados republicanos e grupos antiaborto após a Suprema Corte revogar a proteção federal ao aborto há quase quatro anos.
O caso atual começou após uma ação movida pelo estado da Louisiana, que tenta derrubar regras federais criadas para facilitar o acesso ao medicamento.
Entre as medidas questionadas estão:
• prescrição por telemedicina;
• envio pelo correio;
• retirada em farmácias credenciadas;
• e redução de exigências presenciais para pacientes.
O governo da Louisiana argumenta que essas flexibilizações enfraquecem as leis estaduais antiaborto e colocam mulheres em risco. O estado também afirma que o modelo dificulta controle médico e fiscalização.
Do outro lado, a FDA, organizações médicas e grupos de defesa dos direitos reprodutivos sustentam que a ciência já comprovou repetidamente a segurança do medicamento ao longo de mais de duas décadas de uso.
Segundo a Associação Médica Americana e o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, a taxa de complicações da mifepristona é menor do que a de diversos medicamentos vendidos rotineiramente nos Estados Unidos.
A disputa jurídica sobre a pílula abortiva já passou por diferentes tribunais federais e se tornou um dos maiores embates judiciais sobre aborto desde o fim da Roe v. Wade.
Em 2023 e 2024, juízes federais conservadores chegaram a suspender partes das regras da FDA, enquanto cortes de apelação restauraram temporariamente o acesso. A Suprema Corte já havia intervindo anteriormente para evitar mudanças imediatas enquanto os recursos avançavam.
Agora, a nova decisão mantém o cenário atual e evita impacto imediato em milhões de mulheres, especialmente em estados onde clínicas de aborto fecharam após as restrições estaduais aprovadas nos últimos anos.
Desde 2022, pelo menos 21 estados americanos aprovaram proibições totais ou severas ao aborto. Em resposta, o aborto medicamentoso via telemedicina cresceu rapidamente e passou a ser uma das principais alternativas para mulheres em estados restritivos.
Dados do WeCount, projeto nacional que monitora acesso ao aborto nos EUA, mostram que o número de prescrições via telemedicina aumentou significativamente após a queda da Roe v. Wade, principalmente em estados do sul e do meio-oeste americano.
A batalha jurídica também tem forte peso político. O tema do aborto voltou ao centro da eleição presidencial americana de 2026, com democratas defendendo proteção federal ao acesso reprodutivo e republicanos pressionando por mais restrições estaduais.
Enquanto isso, o futuro da mifepristona segue indefinido. O caso continuará tramitando nas cortes inferiores antes de eventualmente retornar mais uma vez à Suprema Corte americana – que hoje possui maioria conservadora de seis votos a três.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.
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