O pesadelo não tem fim
O mundo assistiu estarrecido à invasão do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023. Há exatamente um ano, mais de 1.200 pessoas inocentes perderam as próprias vidas em um dos ataques mais nefastos já registrados na história contemporânea. A crueldade demonstrada pelos criminosos já indicava o tamanho da retaliação que viria pelo caminho. As circunstâncias que permitiram que o Hamas entrasse no território israelense com tamanha facilidade e ainda levasse mais de 200 reféns para a Faixa de Gaza, porém, ainda precisam ser esclarecidas. Tudo aponta para uma grave falha da inteligência do governo de Israel, que permitiu que o grupo se armasse e preparasse a ofensiva. Um prato cheio para os teóricos da conspiração.
Mas os fatos são incontestáveis: no dia seguinte, a invasão na Faixa de Gaza já era certa. O exército israelense deu início a uma sangrenta e violenta operação no território, com o pretexto de caçar e eliminar todos os responsáveis pelo ataque feito na véspera. O desastre que veio a seguir é tão estarrecedor quanto sua origem. Desde o início, a grande preocupação da comunidade internacional era de um espraiamento do conflito, ainda mais com a possibilidade de envolvimento do Irã. O Hezbollah prestou solidariedade e iniciou uma troca de fogo até então moderada com Israel na fronteira norte, no Líbano. Os Houthis no Iêmen também dispararam. Um ano depois, os novos flancos da guerra estão mais fortes do que nunca.
Os números mostram aquilo que é impossível esconder. Mais de 41 mil pessoas morreram no território palestino. Se os dados das Forças de Defesa de Israel estiverem corretos, 17 mil eram terroristas — ou seja, pelo menos 24 mil civis sem nenhuma relação aparente com o terror acabaram morrendo nos últimos 365 dias. As próprias FDI, por sua vez, também tiveram mais 720 baixas e não sem polêmicas: enquanto Benjamin Netanyahu coordenava a movimentação militar e cidadãos que viviam no exterior retornavam ao país para se juntar ao exército, o filho do primeiro-ministro, de 33 anos, vivia tranquilamente na Flórida.
Dos 251 reféns, quase metade segue na Faixa de Gaza, vivo ou morto. A pressão sobre Netanyahu, que já cambaleava politicamente antes da guerra, cresceu, e o premiê tem dificuldades em explicar a inação para recuperar as 101 mantidas em cativeiro. O Hamas não deixa por menos e segue disparando foguetes contra Israel: foram mais de 9.500 nos últimos 12 meses, quase 26 por dia.
Não bastassem os dados de mortes sem precedentes para a área, outros índices ajudam a evidenciar a tragédia humana que foi desencadeada. Noventa por cento dos 2,3 milhões de habitantes do enclave palestino foram deslocados das próprias casas. Muitos deles, inclusive, por mais de uma vez, como se fossem um ioiô, indo de norte ao sul e do sul ao norte. Mas voltar para casa nem sempre é uma opção. Precisamos levar em consideração de que mais de 215 mil casas foram parcialmente ou completamente destruídas.
A poliomelite voltou, a fome cresceu e a ajuda enviada não é o suficiente. Só nos três primeiros de guerra, o custo estimado para a reconstrução do território palestino era de US$ 18,5 bilhões. Enquanto isso, o maior PIB já registrado na região foi de 19,17 bilhões em 2022. Certamente, a comunidade internacional não possui interesse em arcar com este prejuízo humano e financeiro. Na ocasião do ataque de 7 de outubro, o secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou que a invasão não ocorria em um “vácuo”. Ele criticou a “operação sufocante” contra o povo palestino há cinco décadas e, em troca, foi duramente criticado pelo governo de Israel.
Verdade seja dita, por melhor que seja a intenção israelense em extirpar o terrorismo da Faixa de Gaza, a grande possibilidade é de um efeito contrário. Sim, o Hamas teve a sua capacidade militar e estratégica quase que completamente arrasada nos últimos meses. Mas as sementes do terror costumam se espalhar quando a raiz de uma das plantas é arrancada da terra. Se não agora, novos grupos devem surgir nos próximos anos ou décadas, tão fortes e violentos quanto os seus antecessores.
O ciclo sem fim da radicalização e extremismo já foi visto em vários outros lugares ao redor do mundo e mesmo no próprio Oriente Médio. O grande temor da década de 90 e início dos anos 2000 era a Al-Qaeda, sigla que praticamente desapareceu do noticiário e das preocupações do público pouco mais de 20 anos após o 11 de Setembro. O Estado Islâmico, que trouxe caos à Europa na década passada, sofreu grandes abalos e, embora siga na ativa, possui bem menos força do que há sete ou oito anos.
Os inúmeros pedidos da comunidade internacional para que haja uma conversa pela chamada “solução de dois Estados”, que instituiria um Estado Palestino soberano, independente e com fronteiras e governo estabelecidos ao lado do Estado de Israel sob as mesmas condições seguem sendo em vão — talvez por falta de uma verdadeira e efetiva pressão contra Netanyahu. O problema se volta também para estes atores que poderiam assumir um protagonismo maior, já que o conflito faz aumentar o preço do petróleo, altera rotas comerciais importantes, como no caso do Mar Vermelho, e aumenta a insegurança com ameaças terroristas em cidades ao redor do mundo.
Um ano depois do início desse capítulo de uma guerra milenar, parecemos estar ainda mais longe da conclusão do que estávamos há um ano atrás. É inegável, porém, que ao evitar as conversas por uma saída diplomática e optar pela guerra, Netanyahu ataca o efeito do problema e não a sua causa. Mas nem os israelenses, nem os palestinos e nem o resto dos países podem seguir pagando para sempre por uma política desastrada que privilegia apenas a perpetuação do primeiro-ministro no poder.
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