BC endurece discurso contra a inflação, e juros podem subir já no curto prazo, mesmo com PIB menor

Essa dicotomia também acontece quando falamos da tão esperada vacina que chega durante novos lockdowns provocados pela alta de casos da Covid-19

  • Por Fernanda Consorte
  • 26/01/2021 15h35
Marcello Casal Jr / Agência BrasilSede do Banco Central, em Brasília

Esperávamos ansiosos pela vacina para acabar com a situação ímpar vivida pela social global. Ela chegou, mas parcialmente. E junto com ela, a segunda onda de contaminação pela Covid-19. Notem a dicotomia (para não dizer ironia) da situação. Hoje, os mercados europeus acordaram ao som da “briga” da União Europeia, que acusa a farmacêutica Astrazeneca de não ter feito o suficiente para resolver uma disputa sobre quantas doses de sua vacina poderá fornecer ao bloco. As palavras da comissária europeia da saúde foram na linha de um “novo cronograma inaceitável”, falou sobre “medidas legais” e exigiu “transparência”. Parece inclusive que a Suécia interrompeu pagamentos a Pfizer. E essa discussão acaba, inevitavelmente, como a própria Angela Merkel, chanceler alemã, alertou nesta manhã, em continuidade por tempo indeterminado de medidas de restrição de mobilidade, gerando mais danos a economia.

Essa mesma dicotomia se estende a Brasil. O programa de vacinação começou, mas a cada semana a doença piora e medidas já estão sendo tomadas. Imagino que o PIB do primeiro trimestre de 2021 sofrerá danos (talvez não tão intensos como no segundo trimestre de 2020, pois já houve uma adaptação, mas há setores que estavam comemorando o retorno da economia, e já vimos que será postergada). E é nessa conjuntura difícil que o Banco Central endurece seu discurso em relação a inflação, e o mercado começa a antecipar as apostas de início de aumento de taxa de juros já para o curto prazo. A Ata de Reunião do Copom divulgada nesta manhã veio hawkish, ou seja, mais inclinada para aumento de juros no curto prazo, conforme tínhamos na cabeça aqui no meu time do Banco. Ouvindo alguns colegas, notei uma certa surpresa de comunicação, pois parte do mercado esperava aumento de juros somente em meados do ano, mas de fato, a inflação tem incomodado.

Antes de gritar um “já sabia!”, dado que era nítido a piora a passos largos da inflação brasileira e seus efeitos de inércia que já conhecemos a tanto tempo, somado à contínua pressão na taxa de câmbio; vou fazer uma ressalva que eu também tinha dúvidas em relação à quando seria o aumento porque a atividade econômica segue bastante enfraquecida. Mesmo porque a recuperação em “V” mencionado pelo governo e eventualmente precificada pela Bolsa de Valores, não estava clara, ao contrário, passei semanas aqui alertando que a economia não estava (e não está) tão saudável assim, e me parecia certa afobação aquilo tudo. Mas o fato é que dado o posicionamento de elevação de juros do Banco Central me parece outra dicotomia vivida. As projeções de mercado ainda indicam um PIB de 3,5% para este ano, mas meus amigos, “venham na minha”, esse número será revisado para baixo nos próximos meses. E com uma atividade equilibrada em um fio bambo, ainda assim o BCB aumentará os juros? Creio que sim.

Primeiro porque, acima de tudo, a meta do BCB é de inflação e não dual como nos EUA por exemplo, que equilibra inflação e atividade (com foco em taxa de desemprego).  Segundo, porque o próprio BC deixou um pouco a cargo da política fiscal ajudar a economia enfrentar os problemas derivados da crise de saúde pública – acho justo. Terceiro, que foi jogado um caminhão de estímulo monetário no ano passado e estamos com a menor taxa de juros da história e está tem efeito defasado, ou seja, o BCB pode começar a aumentar os juros em março, e ainda assim sentiremos os efeitos da baixa taxa de juros decidida meses antes. E quarto, se a política fiscal vai seguir atuando (como sempre digo, política monetária ajuda, mas política fiscal é na veia), alguém precisa segurar a inflação que virá por aí. Ela já está chegando e a depender das ações fiscais, o galope pode acelerar. Como em muitas crises, o livro texto de economia é aposentado ou, ao menos, revisto. E esta mostra que as dicotomias estão aí e já estamos lidando com isso. Bem vindos a 2021.