Banco Central deveria aumentar a taxa de juros nesse ambiente de inflação mais alta

Você pode argumentar que inflação a 3,5% não é inflação, mas a Dayse, que faz minha drenagem, diz que gasta quase 50 reais no quilo da carne moída

  • Por Fernanda Consorte
  • 18/11/2020 08h00 - Atualizado em 18/11/2020 13h31
Rogério de Santis/Estadão Conteúdo - 22/06/2017Preço da carne é um bom (porém não definitivo) medidor da inflação

Tudo tem convergido para a mesma história, a inflação. Nunca gostei de comentários anedóticos, aqueles do tipo “o taxista me disse que tomate está pela hora da morte”, portanto, taca-lhe projeção de inflação de alimentos. Mas confesso que quando a Dayse, que faz minha drenagem, me disse que gastou quase R$ 50 no quilo da carne moída, porque era patinho, fiquei ressabiada. Isso poucos dias antes de ver a escalada das expectativas de inflação medida pelo Boletim Focus do Banco Central. Agora, a mediana das projeções do mercado mostra que o IPCA de 2020 será igual ao IPCA de 2021, aquele que considerava a retomada da economia, aquele que estava quase no centro da meta do Banco Central. Para colocar em números, até o início de setembro, o mercado esperava que a inflação acabasse o ano abaixo de 2%, refletindo a recessão econômica e colhendo os louros da política monetária acertada de anos atrás; porém, agora, meados de novembro, coisa de 60 meros dias depois, a expectativa pulou para 3,25%. Esse aumento se deve a uma combinação de taxa de câmbio mais depreciada, a explosão de medidas fiscais assistencialistas, baixa taxa de juros (como sempre digo, política monetária ajuda, mas fiscal é na veia) e, claro, inflação corrente mais alta. Mas essas informações já não eram sabidas há 2 meses atrás? Sim, eram! Sim, economistas erram com muita frequência. E, sim, meu time no banco já tinha levantado essa bola lá em abril (por que não se vangloriar quando dignamente e rarissimamente acertamos?), mas deixa essa conversa para outro dia.

O que quero trazer hoje é que a combinação de coisas que elevaram a inflação para quase perto da meta ainda deve permanecer na economia nos próximos meses, elevando ainda mais a inflação para os próximos meses. Além disso, já se fala em uma segunda onda de contágio da Covid-19, o que, se acontecer antes da validação de uma vacina, pode ferir a recuperação econômica, mantendo nosso PIB a taxas ainda mais tímidas que as atuais, e pedindo pela continuação de medidas fiscais expansionistas. E daí as autoridades podem, eventualmente, lidar com um cenário ruim de pressão inflacionária – ainda baixa perto de padrões históricos, mas com aumento constante – com crescimento econômico baixo, muito baixo. Me pergunto, portanto, como o Banco Central brasileiro lidaria com essa situação. Como aumentar as taxas de juros freando qualquer recuperação econômica? Mas como manter a taxa de juros no patamar mais baixo da história com escalada nas expectativas de inflação? Lembrem-se que a meta do BCB é de inflação. Diferentemente, por exemplo, do FED, nos EUA, que analisa a dobradinha de inflação e taxa de desemprego. Dito isso, isoladamente, nosso Banco Central deveria aumentar taxa de juros num ambiente de inflação mais alta. Claro, você pode argumentar que inflação a 3,5% não é inflação; mas a Dayse me disse que está ficando inviável comprar carne moída. Então, inflação tem, mas acabou. E taxa de juros acabou, mas terá?