O que as eleições nos Estados Unidos reservam para o Brasil?

Em quase dois anos de governo Bolsonaro, tenho dificuldades de listar quais foram os grandes benefícios à nação que o ótimo relacionamento entre Bolsonaro e Trump trouxe

  • Por Fernanda Consorte
  • 27/10/2020 12h04
EFE/JIM LO SCALZOEleições norte-americanas ocorrem no dia

Na próxima semana, possivelmente enquanto estiver escrevendo a próxima coluna, a população norte-americana estará decidindo o futuro na nação através da escolha de seu próximo presidente. Embora seja outro país, outra população, em uma língua diferente, temos que aceitar que o que acontece nos Estados Unidos atinge diretamente o Brasil. Na verdade, atinge todo o mundo. Isso ocorre porque os EUA são a maior economia do mundo e, portanto, suas decisões afetam a corrente de comércio, a condução política e até o comportamento social (lembrem-se que a Apple e o McDonald’s têm berço nas terras do Tio Sam). Estamos diante de um clássico embate entre democratas e republicanos, um Fla-Flu gringo-político, em que em mundos normais, agentes de mercados diriam que republicanos (Trump) são mais para o mercado que os democratas (Biden), uma vez que esses últimos tendem a ser mais fiscalistas. Contudo, Trump tem quebrado essa máxima com sua posição protecionista. Posição essa que causou um cabo de guerra com a segunda maior potência mundial, a China, além de ter um baixo engajamento global. Assim, uma continuidade de seu mandato não parece boa ideia.  

Desta forma, ao menos à primeira vista, uma vitória de Joe Biden poderia ser bom para os emergentes. Explico: se o tom baixar com a China e os mercados perceberam um melhor relacionamento entre esses países, de forma que ocorra ganhos em suas vantagens comparativas, ambos os países tendem a crescer mais, demandando mais dos emergentes. O Brasil, emergente, ganharia, seja via comércio exterior, seja via menor aversão ao risco. – um salve para o pensamento liberal! Mas se por acaso a veia fiscalista dos democratas falarem muito alto, ao ponto de termos fim na política monetária expansionista, dando, portanto, espaço para aumento na taxa de juros norte-americana, teremos fortalecimento do dólar (famoso voo para qualidade), e daí o Brasil… sim, sairíamos perdendo. Mas, ainda assim, acho que vale a aposta. Uma coisa que temos lido por aí é que, ainda na vitória democrata, a preocupação com condições climáticas já expressas por Biden poderia deixar o Brasil de escanteio nas relações globais. E mais, o Brasil tem hoje uma “ótima” relação com EUA (vulgo quase devoção do presidente Bolsonaro a Trump), e portanto, se Trump perder as eleições, o Brasil perderia essa posição vantajosa. 

Essas pontuações me levantam algumas dúvidas: a primeira é que me parece que a discussão climática está cada vez mais válida. Então, ao invés de fugirmos do assunto ou “escolhermos” alguém menos ativo no tema, o Brasil tem que endereçar essa questão, até porque o pulmão do mundo está no território brasileiro, certo? Segundo porque, em quase dois anos de governo Bolsonaro, tenho dificuldades de listar quais foram os grandes benefícios à nação que o ótimo relacionamento Bolsonaro-Trump trouxe. Única coisa que me vem à cabeça quando penso em Brasil-EUA, além da possibilidade de Eduardo Bolsonaro virar embaixador nos EUA, foi a rápida menção de Trump de fechar as fronteiras ao Brasil assim que percebeu que a pandemia seria intensa em terras tupiniquins.  Então… Em resumo, as eleições norte-americanas serão bastante importantes para o mundo, e claro que para o Brasil. Contudo, hoje parece que há uma inclinação dos mercados em aceitar bem uma vitória republicana, no sentido de ‘no news, good news’. Essa vertente não me parece clara, tampouco vencedora. Vamos ver.