Florestas estão virando pó e vemos cenas dignas de ‘Blade Runner’ e ‘Mad Max’

Tempestades de areia não foram geradas por computadores que apontam um futuro apocalíptico; em paralelo, assistimos práticas arcaicas e uma gestão displicente dos recursos naturais 

  • Por Helena Degreas
  • 12/10/2021 08h04 - Atualizado em 12/10/2021 13h44
IGOR DO VALE/ESTADÃO CONTEÚDOFenômenos cada vez mais frequentes e intensos, as tempestades de areia relacionam-se com os longos períodos de estiagem, estes sim, incomuns

Cenas dignas de “Blade Runner”, “Mad Max” ou mesmo “A Múmia” foram recentemente vivenciadas pela população de inúmeras cidades brasileiras que, sem compreender muito bem o que estava acontecendo, postou imagens e vídeos de nuvens que pareciam prestes a engolir bairros e cidades inteiras. As espetaculares tempestades de poeira que ocorreram aqui no Brasil não foram geradas por computadores que apontam para um futuro humano apocalíptico ou maldições provenientes de lendas sobre faraós vingativos. Não são efeitos especiais. São fruto da gestão ambiental leviana e irresponsável do presidente da República. Os fenômenos cada vez mais frequentes e intensos relacionam-se com os longos períodos de estiagem, estes sim, incomuns. Relacionam-se com a devastação recorde da floresta Amazônica. A terra desmatada está seca. Sem raízes, sem cobertura vegetal e com sol batendo firme e forte dia após dia, aguardando pela umidade e pela chuva que a estiagem persistente não traz. Enquanto isso, a semeadura que não vem. Vira tudo pó e, com a ação das ventanias, voa sobre as cidades, assustando e matando as pessoas.

Em paralelo, assistimos práticas arcaicas de lavoura e pastoreio extensivo em propriedades familiares que se utilizam da queima da vegetação – prática que persiste arraigada ao longo dos séculos, transformando terras em desertos que lembram as cenas dos filmes que citei. Na gestão atual, esses crimes são perdoados e multas retiradas. A gestão displicente dos recursos naturais praticada pelo governo Bolsonaro e pelo desconhecido ministro do Meio Ambiente vem ampliando a destruição dos ecossistemas e colaborando ativamente para a desertificação brasileira. Nas aulas, professores ensinam aos estudantes que no Brasil a umidade liberada pela vegetação densa (evapotranspiração) que acontece na região Amazônica é transportada pelos ventos até o oceano pacífico. Como no meio do caminho tem uma barreira conhecida como Cordilheira dos Andes, o vento bate e volta para as regiões Sul e Sudeste. Árvores queimadas não transpiram, não tem umidade. Sem umidade, os ventos levam ar seco e quente para o Sul e Sudeste. Li ontem no jornal que a população do Pantanal está resgatando jacarés que não encontram mais água para beber. Pantanal sem água. Cerrado sem água. Amazônia sem água. Regiões Sul e Sudeste do país sem água nos reservatórios de abastecimento das cidades.

Não chove como deveria nas regiões Sul e Sudeste. Consequentemente, os reservatórios ficam com níveis baixos, a água da população nas cidades fica escassa, começa o rodízio, aumenta o valor da conta para evitar o desperdício nas residências, a produção de energia elétrica é afetada porque depende da água e a fatura da conta de luz é reajustada. Lembremos que a energia brasileira vem das águas dos reservatórios. Em entrevista para o caderno “Metrópole”, do jornal “O Estado de São Paulo”, o professor do Departamento de Biologia da USP Ribeirão Preto, Marcelo Pereira, afirma que desmatar a região Amazônica equivale a assinar um atestado de óbito das pessoas. Crianças, adolescentes, profissionais da educação e cientistas já sabem disso. Representantes brasileiros de empresas sediadas no Brasil divulgaram semana passada uma carta cobrando do governo Bolsonaro ações concretas para atendimento da agenda ambiental. Sabem que se as ações do Executivo continuarem focadas na irresponsável desregulamentação e flexibilização da legislação ambiental e no desmonte de instituições e conselhos ambientais, o país está condenado à marginalidade de uma nova ordem climático-econômica que encontra-se em andamento. Enquanto isso, países do continente europeu, norte-americano e o governo chinês vem acelerando o processo de certificação da carne bovina livre de desmatamento (rastreada) visando atender as metas da agenda 2030 e acelerar o processo de descarbonização da produção agropecuária. A política ambiental bolsonarista está prejudicando também a economia gerada pelo agronegócio. Suas ações ampliam a miséria e a fome.

A gestão do patrimônio ambiental brasileiro vem sendo sistematicamente desmantelado desde o primeiro dia de mandato do presidente Bolsonaro. Foram mais de duas dezenas de ações que tem por objetivo não apenas queimar a vegetação e destruir os ecossistemas da região Amazônica, do Cerrado e do Pantanal: todas as ações apontam para a busca desenfreada da destruição dos biomas visando a desertificação brasileira. Exemplos de ações irresponsáveis não faltam. Da desestruturação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) à dispensa dos recursos doados por governos como Alemanha e Noruega para projetos de auxílio aos povos das florestas e à economia e cultura local, o presidente Bolsonaro e seus ministros apresentam aos brasileiros um misto de ignorância e desprezo pelo bem estar da população de forma geral. Não há explicação para suas ações. Nenhuma empatia com os nossos jovens, falta de responsabilidade intergeracional, ou ainda irresponsabilidade com o mundo que deixaremos para aqueles que vierem depois de nós, filhos e netos. Princípios éticos e valores morais construídos em realidade peculiar e própria que insiste em se sobrepor aos valores éticos e morais dos grupos sociais que compõem a população brasileira.

Há muito tempo não via tanta desesperança no olhar e nas falas dos universitários com os quais lido nas salas de aula e nos ambientes de pesquisa diariamente. “Sair daqui” e “trabalhar em outro país e levar minha família assim que der” é o que mais tenho ouvido. Desprezam os jovens, e suas ações vão minando as mentes daqueles que são o presente e o futuro do país. Assisti trechos do apelo feito pelo Papa Francisco no sábado passado ao receber os participantes da reunião preparatória para a Cúpula do Clima de Glasgow (COP-26) que acontece em Roma nas duas primeiras semanas de novembro. Pedia a criação de “leis urgentes, sábias e justas que superem as estreitas barreiras de muitos ambientes políticos e possam chegar a um consenso adequado o mais rápido possível e fazer uso de meios confiáveis e transparentes para combater a emergência climática.” Ressaltando que “devemos isso aos jovens, às futuras gerações que merecem todo o nosso compromisso para poderem viver e ter esperança”. Palavras reconfortantes daquele que, como líder, espera mudanças nos rumos de governos, empresas e pessoas.

Paralelamente, e entre aplausos de 400 jovens reunidos em Milão para a conferência Youth4Climate: Driving Ambition e que representavam 200 países, a ativista Greta Thunberg criticou as promessas de líderes mundiais: “É tudo o que escutamos da parte de nossos ditos dirigentes: palavras. Palavras que soam bem, mas que não levam a nenhuma ação. Nossas esperanças e nossos sonhos estão afogados em suas palavras e suas promessas vazias”.
Chamada por Bolsonaro de “pirralha” ao pedir a atenção mundial para as mortes de indígenas que protegiam a floresta do desmatamento ilegal, a jovem mostrou-se líder mundial apontando desde criança as diretrizes que beneficiarão a vida da população atual e futura no planeta Terra. O presidente Bolsonaro, por sua vez, será lembrado como o “primeiro mandatário antiambiental na história do Brasil” como sabiamente afirmou o jornalista André Trigueiro ao “Estudio I” ao explicar o conjunto de ações levianas e irresponsáveis praticadas ao longo de dois anos e 9 meses de governo. Acrescento que será lembrado também como o único presidente que trabalha ativamente pela destruição dos biomas brasileiros, colocando em risco a vida da população que habita o planeta Terra.

* Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.