Articulações de Bolsonaro pelo centro isolam Lula na esquerda

Enquanto o presidente ocupa o máximo de espaço nos acordos regionais com caciques do Centrão, ex-presidente não consegue ampliar espectro de apoios fora da esquerda tradicional

  • Por Jorge Serrão
  • 06/07/2022 10h05
NELSON ALMEIDA / AFP - EVARISTO SA / AFP Bolsonaro e Lula Bolsonaro e Lula vão disputar as eleições 2022

Detalhes fundamentais de articulação política decidem uma eleição. Por ter a máquina pública na mão, junto com os acordos políticos mais sólidos, Jair Messias Bolsonaro vai consolidando mais chance de ser (re)eleito que o adversário-inimigo Luiz Inácio Lula da Silva que polariza, artificialmente, com ele. Na proximidade das convenções partidárias que definem os nomes e alianças reais em disputa, Bolsonaro confirma que tem mais poder de fogo que Lula para ampliar e fortalecer acordos regionais. O Presidente vai além do Centrão, enquanto o ex-Presidente se isola na esquerda – que nunca veio tão desunida, enfraquecida e sem propostas renovadoras para um enfrentamento eleitoral. Bolsonaro se oxigena com o “datapovo” em grandes manifestações nas ruas, enquanto Lula se “esclerosa” politicamente, com sobrevida apenas nas pesquisas que insistem (não se sabe até quando) em seu suposto “favoritismo”.

Bolsonaro deu duas provas de força na articulação política. Ambas ocorreram em função de um acordo, de bastidores, com o PSD – partido comandado por Gilberto Kassab (que tem rusgas pessoais com Bolsonaro). Na primeira, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), outro que não suporta Bolsonaro, se viu forçado pelas circunstâncias políticas adiar, para depois da eleição, a CPI do MEC – objeto de desejo do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), cotado para ser um dos coordenadores da campanha presidencial de Lula. Liderado por Kassab, Pacheco foi obrigado a comunicar que, além da apuração sobre a pasta da Educação, também terá de abrir CPIs para investigar desmatamento ilegal na Amazônia, crime organizado e narcotráfico. Claro que o destino das comissões dependerá, decisivamente, do resultado eleitoral, em outubro ou novembro. Se Bolsonaro acabar reeleito, muitos feitiços têm tudo para se voltar contra os feiticeiros da oposição.

Na segunda prova de força, que isola o PT e a oposição, Bolsonaro dá um passo consistente para emplacar seu candidato ao governo de São Paulo. O PSD preferiu apoiar a candidatura de Tarcísio Gomes de Freitas ao Palácio dos Bandeirantes. A contrapartida é destinar a vaga de vice (que deve ser ocupada pelo ex-prefeito de São José dos Campos, Felício Ramuth, que vem estrelando várias inserções de propaganda eleitoral gratuita na televisão e no rádio). O acordo isola o PT. A candidatura de Fernando Haddad ao governo apostava no apoio de Kassab. O pragmático líder do PSD, mesmo não se relacionando bem com Bolsonaro, fecha com Tarcísio por uma questão de sobrevivência política. Na realidade, a caneta esferográfica de Bolsonaro tem poder efetivo, enquanto o PT sobrevive na mera narrativa eleitoreira.

Além do PSD, Bolsonaro caminha para fechar acordos regionais com políticos do União Brasil e do Podemos. O mesmo tende a acontecer com políticos do MDB, excetuando-se uma minoria que fecha, por falta de alternativa ou de visão, com Lula e Simone Tebet. Essa inapetência (sem trocadilho) do PT para ampliar acordos ao centro (ideológico ou fisiológico) demonstra a inconsistência da candidatura de Lula da Silva – que ainda tem o agravante de ter a imagem prejudicada pela corrupção e pelo esquisito “perdão” concedido pelo Supremo Tribunal Federal na Lava Jato. Sem articulações políticas consistentes – e sem a comprovação popular de apoio nas ruas -, Lula se torna uma peça de ficção eleitoral. Pesquisas divulgadas midiaticamente induzem a opinião. Acontece que propaganda nem sempre faz milagre. Bolsonaro consegue listar pelo menos 55 realizações efetivas de seu governo, enquanto a marketagem petralha se resume a tentar destruir a imagem do inimigo-adversário, além de evocar um suposto passado de glórias do PT que não resiste a uma checagem objetiva dos fatos.

A oposição ainda corre o risco de sofrer sua maior desmoralização política. Basta que o ex-operador do Mensalão, o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, revele tudo que realmente sabe sobre ligações do PT com a facção criminosa PCC. A Comissão de Segurança Pública da Câmara aprovou um convite a Valério – que teria detonado o partido de Lula em sua delação premiada à Polícia Federal. Por tudo isso, uma mistura de desarticulação política com corrupção, Lula é cabra marcado para perder, e Bolsonaro, a se reeleger. Resumindo, novamente: Bolsonaro só perde para ele mesmo. E PT, saudações!

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.