Um condenado na prisão hoje vive melhor do que um cidadão confinado

Decretos de lockdown lembram a obra de realismo fantástico ‘Cem Anos de Solidão’, em que os personagens foram se acomodando a uma fase de chuva que perdurou por anos

  • Por José Maria Trindade
  • 06/04/2021 10h00
EFE/ Antonio LacerdaDecretos de confinamento vigoram em diversas cidades tentando conter o aumento de casos e mortes pela Covid-19

Às vezes penso que estamos presos numa obra do inventor do realismo mágico, Gabriel García Márquez. Os decretos de confinamento, que agora têm o nome chique de “lockdown”, começam e incomodam, mas são prolongados e acabamos nos acomodando. Em alguns casos, cidades já estão há quase um ano entre abres e fechas intermináveis e que fogem à lógica e à compreensão das pessoas. E o povo segue e vai se acomodando em casa. No clássico “Cem Anos de Solidão”, uma fase de chuva começou assim. Chovendo, chovendo e as pessoas foram se acomodando. No final ninguém se lembrava mais como eram os tempos sem chuva. Assim se passaram quatro anos, 11 meses e dois dias. A situação chegou a um grau de umidade que um dos personagens viu quando um peixe entrou pela janela e saiu pela porta dos fundos, se equilibrando nas gotas suspensas no ar que já tinham transformado tudo em lodo.

Já existem lodos sendo formados em várias casas e apartamentos. A dificuldade de convivência já é explícita. As empresas estão sendo fechadas e paralisadas. Em certas situações, somos atendidos com porta semicerradas, como quem compra produtos contrabandeados ou drogas. O quadro é grave, mas existem os que ficam em pior situação. Pode acreditar que já existem brasileiros criando lodo nos dentes por falta de uso. Os autônomos estão sem saber o que fazer e ganham durante o dia o que comem à noite. Sem reservas e sem previsão do fim do temporal, se aquietam em casa cada vez mais, aceitando a condenação de prisão domiciliar sem crime e sem julgamento. A situação de ex-trabalhadores é crítica, e pior do que a prisão.

Lembro-me do ex-deputado e hoje vereador Arnaldo Faria de Sá levando ao plenário da Câmara o menu das prisões em São Paulo. São cinco refeições diárias. O café da manhã com pão e manteiga, no meio da manhã outro lanche e, pontualmente, às 12 horas o almoço. Um novo lanche é servido no meio da tarde, e o jantar acontece às 18 horas. Para encerrar, o lanche noturno, um café com pão. Não foi só pelo número de refeições, mas o deputado lia o menu da semana, com descrições de dar água na boca. Segunda, bife à rolê. Na terça, strogonoff de frango; na quarta, bife acebolado; na quinta, rabada; e na sexta, para não cair o nível, uma bela feijoada. Todas as refeições acompanhadas de sobremesa e suco.

O quadro traçado é humilhante para o trabalhador. Um preso oficial vive muito melhor do que o cidadão livre, cumpridor das suas obrigações. Já que o município e o estado decidiram que os brasileiros devem ficar enclausurados, teriam também a obrigação de servir um menu aceitável, como nas cadeias. O pior da história é que não há horizonte previsto. A chuva apenas começou. Não há previsão de estiagem e nem mesmo a possibilidade de sol no fim do dia. O que anima é que as janelas são abertas, são os dias de neblina para colocar a roupa para secar. Depois volta tudo de novo, fechamentos, dificuldades para levar a vida, e a resignação. Esta situação não dura para sempre, e as tensões estão subindo, indicando que os fechadores oficiais terão dificuldades futuras. Não há como esperar quatro anos, 11 meses e dois dias para a chuva passar e sair de casa ao encontro do sol.