Renunciar é glorioso: se Bolsonaro diz que está cansado, deveria tomar a nobre iniciativa de abrir mão do poder

Presidente reclama que ‘não tem paz’, as pesquisas mostram que os eleitores também; não seria o caso de mostrar que não é mesquinho e voltar à tranquilidade de Angra dos Reis?

  • Por Leandro Narloch
  • 25/01/2021 14h42 - Atualizado em 25/01/2021 20h51
LUIZ GOMES/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDPopularidade de Bolsonaro caiu nas últimas pesquisas

Bolsonaro está cansado e não esconde isso de ninguém. “A minha vida aqui é uma desgraça, é problema o tempo todo”, disse em novembro. “Não tenho paz para absolutamente nada, não posso mais tomar um caldo de cana na rua, comer um pastel. Quando eu saio, vem essa imprensa perturbar.” Também tem afirmado que se sente de mãos atadas: “O Brasil está quebrado e eu não posso fazer nada”. Os eleitores começam a mostrar o mesmo cansaço; a popularidade do presidente caiu forte nas pesquisas das últimas semanas. Sendo assim, não seria o caso de Bolsonaro tomar a nobre iniciativa de abrir mão do cargo? Bento 16 renunciou. Em “O Sal da Terra”, um excelente livro-entrevista de 1996, o então cardeal Joseph Ratzinger fala sobre a obsessão do homem de hoje em “vencer”, em querer tudo, em agarrar-se a qualquer bocado de poder, como se “quem me limitar na minha apropriação de vida fosse meu inimigo”. Vê tristeza em quem “recusa a dimensão de criatura, o fato de estar sujeito a uma medida”. A renúncia foi uma prova de que o papa acredita no que fala: ele considera renunciar um ato glorioso, e não um sinal de fraqueza.

Se Bolsonaro não aprecia o cotidiano do cargo, se acredita que não consegue fazer nada, se sua figura afasta investidores, se não toma para si a briga de aprovar reformas, se não consegue se impor no Congresso e na Suprema Corte, se secretamente tem saudades da vida de deputado federal, quando podia passar boa parte do ano pescando sem tanto incômodo da imprensa, então não deveria ter vergonha da renúncia. Tem a chance de voltar a Angra dos Reis e desfrutar os direitos (e o salário) de um ex-presidente. Só não toma essa decisão porque uma mentalidade de trincheira o domina. Renunciar significaria admitir a derrota, reconhecer limitações, render-se a inimigos reais e imaginários, perder o debate. Só por isso ele continua no cargo. 

Alguém dirá que Bolsonaro se mantém na presidência por patriotismo. Quer o bem do país, tem a oportunidade de colocar o Brasil de volta nos trilhos. Bem, não é exatamente o que temos visto; as principais promessas de campanha (abertura comercial, reformas, nomeação de ministros de STF comprometidos com o combate à corrupção) estão paradas. E não há nada que o vice não possa fazer. Mourão é mais hábil com a imprensa, fala bem, sabe captar benevolência e está alinhado com a agenda econômica liberal. Seria uma transição sem rupturas. O PT enojou o país anos atrás por avançar contra a ética em troca de qualquer migalha política. Bolsonaro, um anti-petista, deveria fazer o oposto: mostrar ao mundo que não é mesquinho, não nutre nenhuma fixação pelo poder.