Lumena não é exceção, é puro fruto da loucura atual das ciências humanas

Assim como participante não consegue se comunicar com os colegas no ‘Big Brother’, ideias que circulam nos corredores das universidades soam ao brasileiro comum como simples maluquice

  • Por Leandro Narloch
  • 02/03/2021 17h32
Reprodução/TV GloboLumena adora usar frases comuns em cursos de sociologia como "desrespeitou a jornada" e "desmobilizou discursos da mulher fenotipicamente preta"

Dias atrás, conversando com um jornalista especializado em TV, ouvi dele a seguinte opinião: Lumena, de fato, é intolerante e patrulheira, mas esse não é o comportamento padrão da maioria dos ativistas, intelectuais e defensores de minorias. Discordo do colega. A loucura, o preconceito e a intolerância que ela exibiu no “Big Brother” são feijão-com-arroz nos cursos de ciências humanas no Brasil ou mundo afora. Para quem toma a saudável atitude de não assistir ao “BBB 21”, explico: a DJ e psicóloga Lumena Aleluia, que deve ser eliminada nesta terça-feira, 2, critica seus adversários com frases do tipo “não gosto da branquitude dela” e impõe um clima de medo na casa ao protestar contra brincadeiras (homens se maquiando como mulheres). A cada frase, usa expressões bem comuns em cursos de sociologia, como “desrespeitou a jornada” e “desmobilizou os discursos da mulher fenotipicamente preta”.

Quando fala nas reuniões coletivas da casa ou com o apresentador Tiago Leifert, Lumena não perde a oportunidade de descrever o mundo como uma relação de poder e opressão entre raças e gêneros. Avalia todos e a si própria de acordo com essas categorias. Isso é puro Foucault, é o cerne da “Teoria Crítica” em voga hoje nas universidades. Como dizem Helen Pluckrose e James Lindsay no livro “Cynical Theories” (Teorias Cínicas, em tradução livre), esses intelectuais enxergam todas as relações humanas como um conflito entre marcadores de identidade como raça, sexo, gênero ou sexualidade. “Eles são obcecados com poder, linguagem, conhecimento e suas relações. Interpretam o mundo pelas lentes que detectam a dinâmica de poder em cada interação, declaração ou artefato cultural, mesmo quando isso não é óbvio ou real”, dizem os autores. Parece que eles descrevem Lumena quando afirmam que esses tipos foram tão fundo em suas visões míopes do mundo que até mesmo “conversar com eles ou entendê-los fica extremamente difícil”.

Há ainda a questão da “branquitude”. O conceito, frequente nas faculdades, é a essência do livro “White Fragility” (Fragilidade Branca, em tradução livre), Robin DiAngelo, best-seller nos Estados Unidos. O livro é repleto de atribuições de certos tipos de comportamentos baseados na cor de pele. DiAngelo afirma que todos os brancos são racistas, e são racistas justamente por serem brancos. Se você negar que é racista, isso é um comportamento comum dos brancos, ou seja: não há saída. “A solidariedade branca exige silêncio sobre qualquer coisa que exponha as vantagens da população branca e um acordo tácito para permanecer racialmente unido na proteção da supremacia branca”, diz ela. Quando apresentadora Ana Maria Braga disse que as falas de Lumena contêm um racismo reverso, muitos reclamaram. “Branquitude existe. Racismo reverso, não”, disse o site Hypeness.

O primeiro sermão de Lumena na casa foi contra a suposta “transfobia” de homens se maquiando como mulheres. Eis um exemplo da atitude bem comum de banalizar acusações de preconceito. Se usa o termo “mercado negro”, é racista. Se fala “opção sexual”, é homofóbico. Se criticou uma atitude do movimento trans ou se fantasia de mulher no Carnaval, é transfóbico. Foi o que aconteceu no ano passado com a escritora JK Rowlling. Ela disse no Twitter que pessoas trans merecem respeito, mas ser mulher é outra coisa, uma outra experiência. Foi acusada no mundo todo (pelo UOL, no Brasil) de transfobia. Há um paralelo importante aqui. Assim como Lumena não consegue se comunicar com os colegas no “Big Brother”, ideias que circulam nos corredores ciências humanas soam ao brasileiro comum como simples maluquice.