Homicídios caem, mas a sensação de insegurança cresce: o que explica?
Mais profissional, crime entrou na rotina do brasileiro com golpes digitais e infiltração na economia formal
O Brasil registrou em 2024 sua menor taxa de homicídios desde que se tem registro sistemático: 20,1 mortes por 100 mil habitantes, com queda de 26,9% nos últimos onze anos. Ainda assim, 73,2% dos brasileiros acreditam que a criminalidade está piorando, segundo pesquisa BR Latam Pulse Atlas & Bloomberg de fevereiro de 2025. O Atlas da Violência 2026, recém publicado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), dedica-se a explicar esse paradoxo. E a resposta está em como o crime organizado mudou de natureza.
A violência letal recuou, mas o crime migrou. As organizações criminosas que antes controlavam o varejo de drogas nas periferias expandiram seu modelo de negócios para setores inteiros da economia formal. O tráfico perdeu protagonismo financeiro para mercados ilegais de maior demanda, penas mais brandas e logística já consolidada. Estimativas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que o mercado de cocaína hoje representa apenas 10% da receita do crime organizado, ficando atrás do comércio ilegal de combustíveis, ouro, cigarros, bebidas e crimes virtuais.
Dados anteriores do mesmo Fórum quantificam a dimensão do problema: em 2022, esse conjunto de mercados ilegais gerou R$ 146,8 bilhões, quase dez vezes o valor do tráfico de cocaína, estimado em R$ 15 bilhões. No total, o crime organizado movimentou cerca de R$ 350 bilhões nos últimos três anos.
Outro vetor de crescimento é o crime digital. O Atlas documenta que, entre 2018 e 2024, os roubos reportados à polícia caíram à metade, enquanto os estelionatos virtuais multiplicaram mais de cinco vezes, impulsionados pela digitalização dos pagamentos, que saltou para 81,5% do total das transações bancárias. Os criminosos migraram para onde o dinheiro foi: o ambiente digital oferece maiores ganhos e menores riscos.
A fronteira que alimenta o mercado ilegal
Parte central dessa logística passa pelo Paraguai. Estudo do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF) revela que o contrabando vindo do país vizinho movimenta R$ 60 bilhões por ano no Brasil, superando o volume do comércio legal entre os dois países. As margens de lucro chegam a 507%, especialmente no mercado de cigarros. A explicação é direta: enquanto o imposto sobre cigarros beira 90% no Brasil, no Paraguai é de apenas 16%. São 1.600 quilômetros de fronteira, com trechos secos e fluviais próximos a grandes centros consumidores, ainda insuficientemente fiscalizados.
O problema se ramifica por setores inteiros. Cerca de 36% do mercado de cigarros e bebidas e 25% dos defensivos agrícolas circulam de forma irregular. No setor de combustíveis, esquemas de adulteração, sonegação e contrabando geram perdas anuais de aproximadamente R$ 29 bilhões em arrecadação. O mercado de apostas online movimentou entre R$ 100 bilhões e R$ 120 bilhões em 2023, com parcela relevante fora do ambiente regulado, terreno fértil para lavagem de dinheiro e evasão fiscal.
“Os crimes atuais exigem muita capacidade de investigação, com o COAF e a Receita Federal articulados no processo de denúncia e ao Judiciário. Tudo tem que ser pensado dentro dessa lógica de limitar oportunidades e aumentar os meios de investigação”, afirma Leandro Piquet, conselheiro do Livres, professor do Instituto de Relações Internacionais e pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas (NUPPs) da USP.
O que o State tem feito, o que tem desperdiçado
O Atlas da Violência 2026 é contundente na avaliação das respostas institucionais recentes. O Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, sancionado em março deste ano (Lei 15.358/2026), foi criticado pelo documento por ter adotado apenas a lógica do endurecimento penal em vez de priorizar a inteligência investigativa.
O Parlamento retirou do texto propostas que o Senado havia incluído, entre elas a criação do Banco Nacional de Organizações Criminosas, que permitiria mapear estruturas hierárquicas, rastrear fluxos financeiros e integrar investigações entre estados. “Sem inteligência integrada e sem instrumentos modernos de investigação financeira, polícia e Ministério Público continuam enxugando gelo”, conclui o Atlas.
O que precisa mudar
O Caderno de Políticas Públicas 2026, elaborado pelo Livres, parte de um diagnóstico convergente com os dados apresentados pelo Atlas, e apresenta soluções liberais para o problema. O documento defende que o enfrentamento ao crime organizado precisa ir além da repressão direta e atacar os fluxos financeiros que sustentam mercados ilegais.
Entre as propostas estão a integração de bases de dados financeiras, fiscais e policiais para monitoramento em tempo real de transações suspeitas; o fortalecimento dos mecanismos de rastreamento de recursos com ampliação da cooperação entre COAF, Receita Federal e Judiciário; e a revisão de políticas que, na prática, alimentam mercados ilegais, com adoção de modelos regulatórios em setores dominados pela informalidade, como apostas e cigarros, reduzindo o diferencial de preço que torna o produto contrabandeado atrativo.
O caderno propõe ainda o uso de tecnologias de inteligência financeira para identificar padrões de lavagem de dinheiro em ambientes digitais e a ampliação da cooperação entre estados nas regiões de fronteira.
“O problema do crime organizado no Brasil não surgiu em ano eleitoral, e a resposta a ele não pode ser eleitoreira. Falta arquitetura de política pública, integração entre instituições, inteligência financeira e coragem de enfrentar os incentivos econômicos que tornam o crime mais lucrativo do que o trabalho formal”, afirma Magno Karl, cientista político e diretor-executivo do Livres.
O Caderno de Políticas Públicas 2026 é a quarta edição do material, que reúne mais de 170 propostas para os âmbitos federal e estadual, com foco em segurança, economia, educação e modernização do Estado. A publicação está disponível no site do Livres.
O Livres é uma associação civil sem fins lucrativos que promove soluções liberais para o Brasil com uma rede de líderes, apoiadores e parceiros. Você também pode se tornar um apoiador.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.
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