Músicos criticam Anitta, mas não se dedicam a atingir marcos importantes como os dela

Não sei se o que os incomoda é o estilo musical, o fato de ser mulher, mas a verdade é que poucos artistas se empenharam em seus ofícios assim como a brasileira

  • Por Marcelo Escobar
  • 06/01/2021 10h28
Reprodução/Instagram/anittaCantora se apresentou no tradicional show de Ano Novo da Times Square, em Nova York

Quando um brasileiro é reconhecido no exterior, mesmo não tendo ligação com o esporte praticado, ou com o ofício desempenhado, há sempre um gosto bom a se saborear, ou, ao menos, deveria haver. Já vibrei com o êxito brasileiro com esportes que nunca tinham chamado a minha atenção, assim como senti orgulho de empresas locais que, mesmo sem nenhuma ligação direta ou indireta, refletiram positivamente na mídia internacional, e da mesma maneira em relação a gêneros musicais os quais não necessariamente são os meus preferidos. Quando Frank Sinatra gravou uma versão de Tom Jobim de Garota de Ipanema, a comoção foi geral, sendo que feitos de envergadura similar – evidentemente com outros personagens, atores e cenários – passaram despercebidos, tal como o fato do brasileiro Eumir Deodato, ganhador do Grammy em 1984 com o disco “Prelude”, que vendeu mais de 5 milhões de cópias nos Estados Unidos, ter produzido um dos maiores hits mundiais dos anos 80: “Celebration” do Kool and the Gang; da mesma maneira, um dos maiores percussionistas do mundo, o recifense Naná Vasconcelos, ganhador de 8 Grammys e que tocou com nomes como Talking Heads, B. B. King, Paul Simon, e assinou a trilha sonora de filmes como “Procura-se Susan Desesperadamente”. Como ressaltado, inobstante o estilo musical, os feitos destacados são ímpares, assim como foi a recente apresentação de Anitta no réveillon mais famoso dos EUA, na Times Square, em Nova York, conferindo à artista o título de ser a primeira brasileira a participar daquela aclamada celebração.

Apesar do merecido destaque, chamou atenção a quantidade de posts e críticas violentas de músicos brasileiros quanto à apresentação. Houve até quem esbravejasse que a cantora teria comprado o espaço… ora, aos que histérica e invejosamente destilam tais críticas, gostaria e muito que tivessem metade da dedicação, da produção – e aqui me refiro ao número de músicas lançadas – e do sucesso dela, e que, com o fruto de seus trabalhos, conseguissem alcançar façanhas similares. Mas não, ao invés de se dedicar, compor, gravar, lançar, divulgar e promover o seu trabalho, me espanta a quantidade de músicos virtuosos que optam por tocar covers e fazer collabs sem lançar absolutamente nada autoral ano após ano, sem produzir absolutamente nada, e se sente no direito de tentar – sem sucesso – ofuscar a realização da cantora. 

Não sei se o que os incomoda é o estilo musical, o fato de ser mulher, mas a verdade é que poucos artistas se empenharam em seus ofícios assim como a brasileira. De se ressaltar que a apresentação do maior réveillon americano não é o único feito de Anitta, mas apenas mais um dos inúmeros passos na longínqua carreira que vem trilhando, sendo que apenas com 27 anos, dentre outros destaques, já: fez com que uma de suas músicas ficasse mais de cinco semanas na lista da Billboard; é reconhecida como a maior estreia brasileira no Youtube, com o videoclipe da música Vai Malandra atingindo mais de 8 milhões de visualizações em menos de oito horas; a primeira brasileira a emplacar 2 músicas dentro do Top 50 do Spotify – Vai Malandra, e Downtown; e participou do álbum Madame X da cantora americana Madonna. Não sou fã de funk, e mesmo assim tenho duas ou três músicas em playlists para malhação, e em hipótese alguma isso me impede de reconhecer a dedicação de Anitta bem como o brilhantismo dos seus feitos, e desejo que sua polivalência na indústria da música influencie os inúmeros e virtuosos músicos recalcados, pois, se todos se dedicassem um centésimo da obstinação dela, a quantidade de músicas brasileiras de qualidade aumentaria sobremaneira. Vai Malandra, voe!