Roteiristas bons são como Paulo Cursino: transformam referências em algo inédito

Descobrir por qual motivo temos tão poucos talentos nessa área não é uma questão simples de ser respondida; Cursino é o responsável pelo roteiro original e inteligente de ‘Tudo Bem no Natal que Vem’, estrelado por Leandro Hassum

  • Por Marcos Petrucelli
  • 25/12/2020 10h00
Divulgação/NetflixPaulo Cursino é o roteirista da produção estrelada por Leandro Hassum, “Tudo Bem no Natal que Vem”

Em meu último artigo neste espaço dediquei algumas linhas para analisar a produção natalina estrelada por Leandro Hassum, “Tudo Bem no Natal que Vem”. Em determinado trecho, afirmei que o roteirista do filme, Paulo Cursino, era provavelmente um dos mais talentosos, inteligentes e hábeis na arte de reinventar clássicas referências do cinema, transformando-as em ineditismo. O assunto gerou a troca de inúmeras mensagens com leitores/seguidores nas redes sociais, todos interessados em descobrir a real função do roteirista e por qual motivo temos tão poucos talentos nessa área em nosso cinema. Não é uma questão simples de ser respondida, mas lembrei-me de um episódio que talvez possa ilustrar essa discussão. Em 2004, eu estava em Los Angeles cobrindo o Oscar como jornalista pela quinta vez. “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, concorreu em quatro categorias: Fotografia (César Charlone), Diretor (Meirelles), Montagem (Daniel Rezende) e Roteiro Adaptado (Bráulio Mantovani). Uma pena que o filme não tenha recebido indicação para o Oscar de filme estrangeiro, pois teria sido ainda mais atraente o debate entre os concorrentes na categoria, que acontece na sede da Academia um dia antes da premiação. Seja como for, os candidatos daquele ano foram incríveis: “Irmãs Gêmeas” (Tweeling, De) [Holanda], “Evil – Raízes do Mal” (Ondskan) [Suécia], “Zelary” (Zelary) [República Tcheca], “O Samurai do Entardecer” (Tasogare Seibei) [Japão] e o vitorioso daquele ano, “As Invasões Bárbaras” (Les Invasions barbares) [Canadá].

Mas a história é a seguinte: logo depois do debate, tive a chance de conversar rapidamente com alguns dos diretores dos filmes indicados, além de ter batido um papo um pouco mais longo com o produtor Mark Johnson, o camarada que estava à frente da comissão da Academia que escolhe os finalistas na categoria de filme estrangeiro. Já havia me encontrado em anos anteriores com Mark Johnson – a primeira vez em 1999, quando “Central do Brasil” foi um dos indicados. Mas em 2004 pude falar um pouco mais com esse famoso produtor, que ganhou o Oscar por “Rain Man” (1988) e foi indicado por “Bugsy” (1991). Em nossa conversa falamos das chances de “Cidade de Deus”. Ainda que fossem remotas, Johnson julgava que o filme brasileiro era um bom candidato em montagem e roteiro. Naquele momento disse a ele que, no Brasil, havia muita gente que simplesmente idolatrava um sujeito chamado Syd Field, considerado um guru na arte de escrever roteiros. Quis saber o que Johnson achava. Ele olhou bem para mim e perguntou: “Syd who?” Há muitos anos, desde que comecei minha carreira como crítico de cinema, sempre ouvi falar de Syd Field. Li um de seus livros mais conhecidos (pelo menos aqui no Brasil), “Roteiro – Os Fundamentos do Roteirismo”, publicado em 1979. Na biografia de Syd Field, consta que ele foi responsável pela criação de uma estrutura de roteiro padrão no cinema de Hollywood, intitulada paradigma do roteiro. Em resumo, sua teoria explica que um filme deve ter o roteiro dividido em três atos: apresentação, confrontação e resolução. Trocando em miúdos: começo, meio e fim.

De certa forma fiquei aliviado em descobrir que Mark Johnson não conhecia Syd Field. Porque eu sempre desconfiei de Syd Field. Ok, seu texto era mesmo interessante, tinha alguma clareza e fazia sentido. Mas sua teoria não era uma novidade. O que ele fez foi codificar a estrutura do roteiro, elaborando uma tese baseada em muitos filmes que já faziam exatamente o que ele viria a teorizar. O cineasta Cameron Crowe, por exemplo, escreveu um livro intitulado “Conversations with Wilder”, uma conversa com o genial Billy Wilder que aceitou, pela primeira vez na vida, falar sobre sua carreira e seu método de fazer filmes. Em dado momento do livro, Wilder descreve seus dez mandamentos para escrever um bom roteiro. Mandamentos que ele, a partir de muito observar outros grandes cineastas e ele mesmo realizando inúmeros clássicos, sempre colocou em prática. Quais clássicos? “Pacto de Sangue”, “Crepúsculo dos Deuses”, “Quanto Mais Quente Melhor”, “Testemunha de Acusação”, “O Pecado Mora ao Lado” e muitos outros! Lembremos que são filmes feitos entre os anos de 1940 e 1950.

Aqui vão os dez mandamentos de Billy Wilder:

  1. O público é volúvel.
  2.  Agarre-os pelo pescoço e nunca os deixe ir.
  3.  Desenvolva uma linha clara de ação para o seu personagem principal.
  4. Saiba aonde você está indo.
  5. Quanto mais sutil e elegante você for em esconder seus pontos de virada, melhor você é como escritor.
  6. Se você tiver um problema com o terceiro ato, o verdadeiro problema está no primeiro ato.
  7. Uma dica de Lubitsch: deixe o público somar dois mais dois. Eles vão te amar para sempre.
  8. Ao fazer voice-overs, tome cuidado para não descrever o que o público já vê. Acrescente ao que eles estão vendo.
  9. O evento que ocorre na cortina do segundo ato desencadeia o final do filme.
  10. O terceiro ato deve progredir, progredir, progredir em ritmo e ação até o último evento, e então – é isso. Não divague.

Ou seja, Syd Field não inventou a roda. O que importa mesmo são roteiristas como Paulo Cursino que, antes de tudo, miram no público, não temem usar referências que já foram testadas e aprovadas, mas ao mesmo tempo são capazes de reinventar.