Bolsonaro e Barroso podem pôr em risco as instituições?

Nunca me deparei com um embate tão ferrenho entre poderes como o que estamos vivenciando sobre a implantação das urnas auditáveis

  • Por Reinaldo Polito
  • 05/08/2021 09h00 - Atualizado em 05/08/2021 12h56
Montagem/Nelson Jr./SCO/STF/DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO/Ministro Barroso garante que as urnas eletrônicas são seguras, mas Bolsonaro não confia na segurança delas

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Luís Roberto Barroso batem boca sobre a implantação das urnas auditáveis. O ministro garante que as urnas eletrônicas são seguras, mas Bolsonaro não confia na segurança delas. Tanto assim que fez uma live de mais de duas horas, no dia 29 de julho, para provar que há fortes indícios de vulnerabilidade nas votações. O argumento do presidente é que retiraram Lula da cadeia para permitir que ele concorra às eleições. Em paralelo, forjam pesquisas que apontam o ex-presidente como vencedor do pleito. Assim, poderão fraudar as urnas para que o adversário vença, e dirão que as eleições foram justas porque as pesquisas já indicavam sua vitória. Parece que as suas palavras convenceram boa parte da população, pois no domingo, dia 1º, uma multidão poucas vezes vista no país foi às ruas para participar de uma impressionante manifestação.

Bolsonaro sabe que não são apenas os adversários políticos que desejam vê-lo fora da presidência. Lutam para derrotá-lo boa parte da imprensa, tanto que poucos órgãos noticiosos deram cobertura a essa demonstração de apoio popular. Outros avessos a ele são alguns ministros do STF. Desde que tomou posse, o chefe do Executivo não teve paz. A todo instante recebe ataques. O STF faz rodízio. A cada momento aparece um ministro martelando a sua cabeça. Logo na diplomação, Rosa Weber entregou ao presidente um exemplar da Constituição e aconselhou que ele a respeitasse. E assim foi. Um dia autorizavam que conversas reservadas de uma reunião ministerial fossem reveladas à população. Em outro momento, o desautorizavam a dar posse ao diretor geral da Polícia Federal. Depois tentavam requisitar seu telefone celular. E não pararam de cutucá-lo desde o primeiro dia.

O Legislativo não ficou atrás. Com Rodrigo Maia na presidência da Câmara dos Deputados, a vida de Bolsonaro era um verdadeiro inferno. As críticas que o deputado fazia a ele eram ostensivas. Além de bater sem dó nem piedade, ele engavetava quase todos os projetos, até que caducassem. E quando uma ação do governo era bem-sucedida, como, por exemplo, a reforma da Previdência, alardeava na imprensa que o mérito era dele. Mais recentemente, Barroso resolveu jogar todas as cartas que possuía para minar Bolsonaro. Exigiu, por exemplo, que o Senado abrisse a CPI da Covid-19. Mesmo não havendo aparentemente nenhum indício de irregularidade, a comissão liderada por senadores da oposição faria de tudo para desgastar a imagem do presidente. E, como esse período de investigações não foi suficiente, resolveram prorrogar as sessões por mais 90 dias.

E para o presidente não pensar que a turbulência estava passando, o plenário do TSE aprovou por unanimidade uma requisição ao STF para que Bolsonaro seja incluído no inquérito das fake news. Não deixa de ser uma atitude de afronta ao detentor de outro poder. Não há mais entrelinhas ou subterfúgios. Foi declarada a guerra. Bolsonaro já teria sucumbido se não tivesse ao seu lado a força popular. Esses milhões de pessoas que o apoiaram no domingo deixaram claro que estavam ali para prestar apoio ao presidente e dizer que davam aval à proposta do voto auditável. Já vi o povo fazer manifestações grandiosas contra os governos de turno, mas para mostrar solidariedade é uma novidade. O presidente não se intimidou com os ataques do STF, e convidou a população para uma última manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo. Afirmou que, se o povo der esse sinal de apoio, irá tomar drásticas providências dentro dos limites da Constituição para neutralizar os ataques que vem recebendo.

Já vi muita movimentação política durante a minha vida. Acompanhei uma revolução sem que um tiro fosse dado. Presenciei um presidente renunciar, dois deixarem o governo por processo de impeachment, um ser preso, na verdade dois, pois um ficou encarcerado por pouco tempo. Também vi governadores, senadores e deputados serem trancafiados. Já deveria estar calejado. Nunca, entretanto, me deparei com um embate tão ferrenho entre instituições como o que estamos vivenciando. Tomara que tomem juízo e pensem um pouco mais em tudo o que está em jogo. Foi muito difícil reconquistarmos a liberdade que tanto almejávamos, então, que não ponham tudo a perder. E nesta quarta-feira, dia 4, no programa Os Pingos nos Is, em longa entrevista, que foi uma das recordistas de audiência, Bolsonaro disse com todas as letras que Barroso é mentiroso. Se o STF estava tentando intimidá-lo, parece que não está obtendo sucesso. Tudo indica que é só o início de uma interminável contenda.