O que Bolsonaro quis dizer com ‘prisão, morte ou vitória’?

Às vésperas da esperada manifestação de 7 de setembro, presidente da República deu declaração forte e intrigou aliados e oposicionistas

  • Por Reinaldo Polito
  • 02/09/2021 09h00 - Atualizado em 02/09/2021 13h07
Mateus Bonomi/AGIF/Estadão Conteúdo - 26/08/2021O presidente Jair Bolsonaro baixou o tom depois de sugerir que só havia três opções para ele: prisão, morte ou vitória

Em pronunciamento em Goiânia, na Assembleia de Deus, Bolsonaro fez uma declaração forte e, ao mesmo tempo, intrigante. Disse que só teria três opções para ele: “prisão, morto ou vitória”. Como já havia afirmado que jamais seria preso, restaram as duas outras possibilidades, ser morto ou alcançar a vitória. As pessoas passaram a refletir a respeito de suas palavras. Já que não seria preso, e se torna simples deduzir o que significa “vitória”, o que ele quis dizer com “ser morto”? Sabemos que o presidente tem se empenhado em mobilizar a população para a manifestação de 7 de setembro. Assim, a pergunta que pode ser feita é: quais medidas ele estaria disposto a tomar, agora ou no futuro, que, se não dessem resultado, poderiam levá-lo à morte? Como a frase foi proferida pelo chefe do Executivo, o assunto passou a ser visto com interesse e até com bastante preocupação.

Em entrevista que concedeu a uma rádio de Goiás, e retransmitida por suas redes sociais, ao responder à pergunta de um jornalista sobre esse assunto, Bolsonaro deu verdadeiro rodopio com a resposta. Engoliu em seco, passou um veludo nas palavras e diminuiu o tom das suas declarações. Começou comentando a respeito de temas mais periféricos. Criticou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), por tê-lo incluído, sem a participação do Ministério Público, no inquérito das fake news, que denominou de “inquérito do fim do mundo”. E, ao questionar o que o ministro estaria querendo com essa atitude, disse que talvez pretendesse aguardar o momento para aplicar uma medida restritiva lá na frente. Nada de “ser morto” até aqui.

Bolsonaro também se mostrou indignado com a falta de liberdade de expressão. Segundo ele, falar em voto eletrônico ou voto impresso passou a ser crime. Também mostrou sua discordância com as atitudes de Moraes, que investiga, julga e condena. Comentou ainda que se agem (no plural mesmo) assim com ele, dá para imaginar o que estão fazendo com as outras pessoas. Opa, ouvi com cuidado e atenção e… nada de “ser morto” também nessa parte da resposta. Depois de andar em círculos, ao responder especificamente à questão sobre o que quis dizer com ser “preso, morto ou vencer”, desceu alguns graus na temperatura da conversa e disse: “Eu falei isso num momento de desabafo, e não deixa de ser uma realidade. Vou fazer a minha parte até o final”. Depois, voltou a falar da importância do artigo 5º da Constituição, e deu o assunto por encerrado.

Ou seja, ficou o dito pelo não dito. Deixou claro que se arrependeu do que declarou, alegando que suas palavras foram fruto apenas de um desabafo. Pois é, não vai ser preso, não vai morrer e, se der tudo certo, conquista a vitória com a reeleição. Nas últimas semanas, várias personagens estufaram o peito para bravatear, e depois tiveram de se arrepender de suas declarações. Além de Bolsonaro, outro que precisou passar uma borracha no que disse foi o cantor Sérgio Reis. Depois de afirmar que poderia arrebentar o STF, teve de engolir suas ameaças diante do risco de ser preso, após as buscas e apreensões que fizeram em sua casa. O único que não arredou pé, mesmo depois de ter sido preso, foi Roberto Jefferson. De dentro da cadeia, continua escrevendo cartas ratificando tudo o que disse, e acusando o ministro Moraes de ter agido ilegalmente. Tanto que tentaram fazer com que tivesse prisão domiciliar com uso de tornozeleira por causa de sua saúde precária, mas ele não aceitou. Afirma que, como foi preso ilegalmente, só ficará satisfeito com a liberdade total.

É triste constatar que vivemos sem direito de expressar plenamente as nossas opiniões. Todos temos o artigo 5º da Constituição para nos proteger. Ele nos dá o direito de usar a palavra e externar os nossos pensamentos. Num momento, porém, em que até o presidente da República sofre sanção por aquilo que diz, e recua depois de fazer declarações mais contundentes, como deveríamos nos comportar? O fato de fazermos autocensura seria um ato de covardia ou de sensatez? Assim que a poeira baixar, e a Constituição voltar a ser respeitada em toda a sua plenitude, quem sabe possamos novamente meter a boca no trombone sem medo. Siga no Instagram: @polito.