A rebelião jovem contra o trabalho excessivo na China

A jornada de trabalho mais comum no país é chamada de 996, trabalha-se das 9 da manhã às 9 da noite durante seis dias por semana; a Geração Z, no entanto, tem começado a desafiar o sistema e rejeitar as horas extras

  • Por Samy Dana
  • 22/01/2021 09h00 - Atualizado em 22/01/2021 14h56
Foto: PixabayJovens chineses já não querem mais trabalhar no tradicional regime 996, adotado pelo país

Na China, a jornada de trabalho mais comum é chamada de 996. Principalmente no setor de tecnologia, o mais procurado, trabalha-se das 9 da manhã às 9 da noite, seis dias por semana. São 72 horas por semana, o que muitos críticos enxergam como exagero. No país, como no Brasil, a jornada de trabalho oficial é de 44 horas. Mas jornadas longas e cansativas sempre foram a regra nas fábricas chinesas. Foi assim que o país se tornou praticamente o parque industrial do mundo. A novidade é que passaram a ser copiados pelos escritórios. São hoje o padrão para muitas empresas, inclusive gigantes como Alibaba e Huawei. Um regime de trabalho tão desgastante só é possível em um país onde, ironicamente, as empresas privadas incorporaram parte da mensagem da ideologia comunista, do sacrifício individual em nome do coletivo. É comum, por exemplo, o RH perguntar a um candidato ou candidata ao emprego se topa terminar um relacionamento para se dedicar mais ao trabalho. Também é fruto de outra característica do capitalismo chinês, o consumismo exacerbado. Trabalhar muito, fazer muita hora extra e gastar muito no shopping para compensar é um hábito nacional. Principalmente entre os jovens.

Mas nem todos. A chamada Geração Z começa a desafiar o sistema de trabalho do país nas últimas décadas. São os jovens nascidos a partir da metade dos anos 90, hoje na faixa entre 20 e 25 anos. Criados já numa era de mais riqueza no país, eles rejeitam as horas extras e espalham silenciosamente um movimento contra o regime 996. A prática tem até nome: pescaria. Vem de um provérbio chinês que diz que é mais fácil pescar nas águas turvas. Ou seja, é na crise que surgem as melhores oportunidades. No caso, a oportunidade de separar vida e trabalho em um momento em que as empresas estão mais focadas em lidar com os efeitos da pandemia de Covid-19 do que em cobrar seus empregados.

Eles se sentem menos pressionados a trabalhar porque saem menos de casa para ir ao shopping. Preferem as opções baratas de lazer na internet, jogando muito videogame e assistindo mais vídeos na rede social Tik Tok. Gastando menos, querem mais tempo livre. O levante silencioso surgiu depois dos relatos sobre a morte de um funcionário de 22 anos de uma grande plataforma de vendas, que adota o regime 996, que sofreu um colapso depois de trabalhar até 1h30 da manhã. E os chineses não estão sozinhos. Um estudo de quatro economistas ligados à Universidade de Chicago apontou que na década passada os trabalhadores americanos entre 21 e 30 anos tiveram duas horas a mais de lazer por semana do que na década anterior. E trabalharam duas horas a menos. Não dá para dizer o quanto a rebelião está funcionado. Os números sobre produtividade continuam altos na China e o regime 996 segue sendo exibido pelas empresas como vantagem competitiva. Mas certamente preocupou o governo. Quando empregados de algumas grandes empresas criaram um fórum para reunir os relatos de exploração no trabalho, o site rapidamente foi derrubado pelas autoridades.